Golpe de 1964: UFPE divulga relação de ex alunos assassinados pela ditadura

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Lembrando 1964.  Em uma cerimônia que juntou história, memória, trabalhos acadêmicos e até política partidária – o Reitor  Alfredo Gomes anunciou que não é mais pré-candidato à sucessão estadual pela Rede – a Universidade Federal de Pernambuco apresentou publicamente e pela primeira vez, os  resultados do trabalhos da Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE, que investiga  as  atrocidades cometidas pelo regime militar  contra 649 pessoas, entre estudantes, professores e técnicos da instituição.

E também mostrou os vídeos que contam a história de cada um dos seis estudantes que foram torturados e assassinados pelo regime militar. Os vídeos já começaram a ser divulgados pela TV Universitária e farão parte da página da Comissão na Internet, que poderá ser acessada por qualquer cidadão brasileiro. Os ex estudantes da UFPE e perderam a vida devido à militância contra o regime de exceção são: Umberto Albuquerque Câmara Neto, Rui Frazão Soares e Zoé Lucas de Brito Filho (foto superior).  E, também, Ranúsia Alves Rodrigues, Miriam Lopes Verbena e Ezequias Bezerra da Rocha (foto abaixo).  :

Ex-alunos da UFPE, Ranúsia, Miriam e Ezequias foram assassinados durante a ditadura implantada em 1964

Durante a cerimônia, na UFPE, da qual participaram professores, autoridades, estudantes, ex presos políticos e parentes das vítimas da ditadura, estudantes voluntários e bolsistas que atuam no levantamento de informações confessaram que não tinham dimensão das atrocidades cometidas pelo regime militar e da força da resistência em Pernambuco, já que os livros didáticos do ensino médio praticamente limitavam as informações aos estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro.  Disseram que ficaram tocados com a história individual de cada militante e perceberam como ditadura foi brutal para com a população.

Abaixo, um pequeno histórico dos seis ex-alunos da UFPE que foram mortos pela repressão:

Ranúsia Alves Rodrigues – Era estudante de Enfermagem na UFPE e militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Foi perseguida pelos órgãos de repressão, expulsa da UFPE e passou para a clandestinidade. Foi morta em 1973 no Rio de Janeiro, durante o chamado “Massacre da Praça Sentinela”, marcado por prisão e execução de militantes políticos.
Umberto Albuquerque Câmara Neto – Estudava Medicina na UFPE. Tornou-se importante liderança estudantil durante a ditadura militar. Chegou a ser preso ao participar do histórico Congresso de Estudantes de Ibiúna (SP), em 1968. e um ano depois era vice presidente da UNE (União Nacional de Estudantes).  Liderou uma campanha por verbas para a construção do Hospital das Clínicas – “Menos canhão e mais hospital” – e passou a ser perseguido. Entrou na clandestinidade, hospedou-se na casa de Fernando Santa Cruz no Rio de Janeiro. Fernando desapareceu, assim como Umberto, cujo corpo jamais foi encontrado. Ele sumiu em 8 de outubro de 1973.
Miriam Lopes Verbena (foto) – Estudou na UFPE, onde formou-se em Ciências Sociais. Era militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Era casada com Luís Alberto Andrade Sá Benevides, também do partido. Ela e o marido viajavam em carro emprestado pelo amigo Ezequias Bezerra da Rocha. Miriam e Luís morreram em 1972, em um “acidente” no Agreste de Pernambuco, provavelmente durante perseguição por forças da repressão.  
Ezequias Bezerra da Rocha
– estudou na UFPE, onde fez Geologia. Simpatizante do PCBR, mas não era militante alvo.  Proprietário do carro em que viajavam Miriam e Luís, passou a ser suspeito e perseguido. Em 1972,  ele e a esposa foram sequestrados no Recife por agentes da  repressão. Foi assassinado sob tortura em uma dependência do DOI-CODI.
Rui Frazão Soares – Foi estudante de engenharia da UFPE. Denunciou torturas em assembleia da ONU, nos Estados Unidos. Chegou a ser bolsista em Harvard e a trabalhar com o educador Paulo Freire, no Brasil. Liderou campanha contra a transferência da Escola de Engenharia para a Cidade Universitária. Foi preso, expulso do curso e entrou na clandestinidade. Militou na Ação Popular (AP) e no PCdoB. Como clandestino, virou artesão e negociava seus produtos em feiras do interior. Foi sequestrado em 1974, na cidade sertaneja de Petrolina, localizada a 769 quilômetros do Recife. Nunca mais foi visto.
Zoé Lucas de Brito – Estudou Geografia na UFPE e foi militante político. Primeiro no Partido Comunista Brasileiro  Revolucionário (PCBR). E, depois, na Aliança Libertadora Nacional. Foi morto em São Paulo em “acidente ferroviário”, mas de acordo com a Comissão, “com indícios de execução no contexto da repressão”.

Morta sob tortura, traída pelo “noivo” infiltrado Soledad Barret e outras militantes ganharam homenagem

Houve exposição com cronologia dos anos de chumbo, episódios mais marcantes da ditadura  (1964 – 1985) e sobre desaparecidos políticos e mortos sob tortura, mesmo que não pertencessem  à UFPE. Destaques para o Padre Henrique Pereira Neto (1940-1969) e   Soledad Barret (1945-1973). O sacerdote era assessor do então Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, que era visado e vivia sob censura imposta pela repressão.   Para intimidar o chamado Dom da Paz, agentes dos órgãos de segurança sequestraram e mataram o padre sob tortura. Soledad era militante, e foi traída pelo seu suposto noivo, que na realidade era ninguém menos que o famigerado Cabo Anselmo, um dos mais polêmicos personagens da ditadura. Ela estava grávida do “noivo”, quando foi sequestrada e assassinada sob tortura, durante um massacre na região metropolitana do Recife.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins (#OxeRecife) e Acervo da UFPE/ Comissão da Memória, da Verdade e Reparação da UFPE

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