Esculturas que lembram 1964: “Você me prende vivo e eu escapo morto” e “Torre Cinética”

 Esculturas que lembram 1964: “Você me prende vivo e eu escapo morto” e “Torre Cinética”

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Até  1985 – quando finalmente a democracia foi restabelecida no Brasil – o Dia 31 de Março era “comemorado” não só nos quartéis, mas também nas repartições públicas, nos colégios, nos sindicatos patronais, com discursos, hasteamento de bandeira, apologia à “Revolução”, como era chamado à época o golpe militar de 31 de março de 1964.  Na verdade, uma involução, que impôs a censura, acabou com o estado de direito e institucionalizou a tortura contra os inimigos do regime, que eles classificavam como “subversivos”. Felizmente, esses tempos sombrios se passaram, embora devamos ficar atentos porque tivemos recentemente uma nova tentativa de golpe, articulado por uns vermes cujos nomes nem convém lembrar. E que, felizmente, estão sendo investigados e processados.

Pois bem, quem viveu os anos de censura, dos atos institucionais, do poder legislativo fechado e sem direito a escolher Prefeito, Governador e Presidente em eleição direta, sabe muito bem o que significa uma ditadura. Por esse motivo, uma recomendação do #OxeRecife: os mais jovens, que cresceram sob novos tempos, deviam reservar algum dia para visitar o Memorial da Democracia, que funciona no histórico Sítio da Trindade, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Pioneiro no Brasil, o Memorial da Democracia conta a história de militantes que comeram o pão que o diabo amassou, durante a “revolução”. Está lá uma imensa coleção de fotografias e informações sobre perseguidos pelo regime militar, desaparecidos, presos políticos, torturados, mortos sob tortura, exilados.

Entre eles estão: Paulo Freire (1921 -1997), Miguel Arraes (1916 – 2005), Francisco Julião (1915 -1999), Gregório Bezerra (1900 -1983), Fernando Santa Cruz (1949 – 1974), Abelardo da Hora (1924-2014), Pelópidas Silveira (1915 – 2008), Paulo Cavalcanti (1915 – 1995), Dom Hélder Câmara (1909 -1999), Padre Henrique Pereira Neto (1940-1969), Anita Paes Barreto (1907 – 2003),  Josué de Castro (1908-1973) e tantos outros. O acesso ao Memorial é livre, não paga ingresso.  Gostaria, ainda,  de chamar a atenção para dois monumentos que ficam à frente do chalé secular onde o Memorial está instalado. São duas esculturas assinadas pelo escultor Jobson Figueiredo: “Você me prende vivo e eu escapo morto” e a “Torre Cinética”. Ambas ostentam lances reveladores do obscurantismo dos anos de chumbo.

Memorial da Democracia, no Sítio da Trindade – em Casa Amarela – merece uma visita: a luta pela liberdade

A primeira , “Você me prende vivo e eu escapo morto” simboliza o processo de opressão e tortura, mas também representa a luz e a esperança do espírito dos que lutam por liberdade e justiça, para defender os direitos fundamentais dos homens.  Executado em aço, resina de poliéster e com bolhas de ar, a escultura  de Jobson (que lembra uma jaula) é suspensa por tubos de aço com quatro metros de altura. E tem seu nome inspirado na música “Pesadelo“, de Paulo Sérgio Pinheiro e Maurício Tapajós. Apesar do conteúdo político,  a composição dos dois pode não ter sido entendida pelos censores de então.  E foi liberada. Alguns dos seus versos dizem:

“…Olha o muro, olha a ponte,/ Olhe o dia de ontem chegando/ Que medo você tem de nós, / Olha aí… / Você corta um verso, eu escrevo outro/ Você me prende vivo eu escapo morto/ De repente, olha eu de novo/ Pertubando a paz, exigindo troco/ Vamos por aí, eu e meu cachorro…

Além da escultura inspirada em “Pesadelo” –  no qual, na realidade, vivíamos mergulhados naquela época – o escultor tem outro trabalho na frente do “Memorial da Democracia”. É a “Torre Cinética“, em homenagem a Abelardo da Hora. Em 1961, Abelardo fez uma escultura com esse nome, que foi colocada na Praça da Torre, Zona Oeste do Recife. Mas vejam abaixo o que aconteceu com ela.

Em 1964, durante a ditadura,  o monumento foi destruído, pois de acordo com um dos agentes do governo militar mais temidos no Estado, o Coronel Hélio Ibiapina, o monumento “parecia querer passar mensagens subversivas e secretas à população”, que poderiam contrariar a ideologia do regime militar. Dá para acreditar? Mas em termos de censura, tudo era possível.  Pois livros sobre o “cubismo” eram retirados das livrarias, porque os censores militares achavam que eles eram sobre a ideologia comunista de Cuba (e provavelmente nada sabiam  sobre o movimento artístico da vanguarda européia, surgido em 1907 pelos pincéis de Pablo Picasso).  Quanto à “Torre Cinética” (foto ao lado) tratava-se, na verdade, da primeira escultura de grande porte no Brasil a utilizar engrenagem em seu elemento central superior, capaz de fazer mover as peças no topo pela força dos ventos.

Escultor, desenhista, gravurista, pintor, ceramista Abelardo da Hora tornou-se mais conhecido pelas centenas de esculturas que possui no Recife. Mas é preciso lembrar, também, sua militância política, pois foi um dos integrantes do Movimento de Cultura Popular – MCP, que transformou Pernambuco em local de referência em cultura e educação (via alfabetização), como instrumentos de libertação. Do MPC participava um educador que mais tarde seria famoso e respeitado em todo o mundo: Paulo Freire,autor de “A Pedagogia do Oprimido”. Já Jobson é escultor, restaurador, historiador, fotógrafo, pintor, designer, editor e produtor cultural. Durante o governo militar foi preso várias vezes, e chegou a ter obras “subversivas” destruídas  e até queimadas pelos militares. Portanto, quem quiser saber o que foi o período 1964-1985, é bom dar uma passadinha no Sítio da Trindade, que como já disse aqui nesse espaço, tem tripla importância histórica. Além de ter sido palco de luta contra invasores holandeses no século 17, sediou o MCP no século 20, e ganhou o Memorial da Democracia, no 21.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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3 Comments

  • Texto brilhante, Letícia! Quanta informação você nos trouxe. A ignorância dos repressores da ditadura chega a dar pena. O trecho onde você relata que relacionaram cubismo (movimento artístico) a Cuba, hoje, Graças a Deus, depois de tudo passado, chega a ser hilário. A gente ri, mas ignorância assombra.

  • Maravilhoso seu texto Letícia, sobre as obras e seus artistas, que estão expostas nos jardins do Sítio da Trindade. E concordo com você quando diz que os jovens de hoje que não viveram esses tempos sombrios precisam ler, ver e ouvir mais sobre esse período, para que a história não se repita!!

    • OBG pela sua generosidade!

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