Chalé do Sítio daTrindade, em Casa Amarela, muda de cor e vai abrigar Memorial da Verdade

 Chalé do Sítio daTrindade, em Casa Amarela, muda de cor e vai abrigar Memorial da Verdade

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Esqueça o imponente chalé cor de rosa, do século 19, com o qual  a população do Recife se habituou a conviver, ao longo de muitas décadas, na Zona Norte da cidade. O imóvel, um dos destaques do histórico Sítio da Trindade, em Casa Amarela, mudou de cor. Ele foi pintado de branco, com janelas e portas vermelhas. E está sendo preparado para funcionar como o Memorial da Democracia de Pernambuco, quando abrigará acervo sobre a recente história do país – documentos, fotos, vídeos – através do qual o público poderá tomar conhecimento das arbitrariedades praticadas durante os anos da ditadura militar, implantada no Brasil em 1964 e que só terminou em 1985, quando foi restabelecido o estado de direito.

Por mais que os negacionistas contestem – como é o caso do Presidente Jair Bolsonaro – foram anos de muito sofrimento imposto inclusive a jovens que lutavam contra o regime militar: prisões arbitrárias, sequestros, torturas, desaparecimentos, mortos cujos corpos nunca apareceram. Todas essas questões foram amplamente investigadas em Pernambuco pela Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Hélder Câmara, que apurou os excessos cometidos no estado, inclusive os mais ruidosos como o sequestro, tortura e morte do Padre Henrique Pereira Neto, que era assessor de Dom Hélder Câmara, então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife. O Dom da Paz – como ficou conhecido – era defensor dos direitos humanos e uma das vozes mais atuantes contra as violências praticadas nos porões da ditadura. Por esse motivo, qualquer alusão ao religioso e até mesmo a simples citação do seu nome eram censurados nos jornais de circulação nacional e local de então.

Ao longo dos anos, o velho chalé foi perdendo a graça dos lambrequins: hora de repor após a restauração do imóvel

A Comissão da Memória e da Verdade foi instituída em 2012, ainda na gestão do então Governador Eduardo Campos (1965-2014), e esclareceu uma série de absurdos cometidos naquela época. Em 2021, foi instituído o Grupo de Trabalho Memorial da Democracia de Pernambuco, com o objetivo de buscar formas de tornar acessível todo o material levantado pela Comissão da Verdade, colocando-o à disposição do público para visitação, pesquisa, reflexão.  O que é muito oportuno, nesses tempos em que atos e ações terroristas de extrema direita voltam a preocupar o Brasil. A previsão é que o Memorial já comece a funcionar logo, porém a data da inauguração ainda não foi divulgada. O #OxeRecife tentou informações mais detalhadas junto ao Governo de Pernambuco e à Prefeitura,  mas as respostas não chegaram. A Prefeitura diz que é o estado que fala sobre o assunto. Já o estado informa que é a Prefeitura.

Moradores da Zona Norte estranharam as novas cores do chalé do Sítio Trindade, que durante décadas foi rosa, como na velha foto

Só para refrescar a memória. Como se sabe, o Sítio da Trindade – a última grande área verde de Casa Amarela – começou a funcionar como foco de resistência ainda no século 17, quando ali foi erguido um forte de areia para impedir a entrada de invasores holandeses para os então prósperos engenhos de açúcar de Pernambuco. Implantado por brasileiros e portugueses, o chamado Forte do Bom Jesus do Arraial Velho, é lembrado hoje em um obelisco no Sítio. Na década de 1960, o Sítio da Trindade volta a funcionar como foco de resistência, dessa vez resistência cultural. Pois foi nele que que se instalou a sede do Movimento de Cultura Popular. Foi na ocasião em que Miguel Arraes (1916-2005) era Prefeito do Recife.

O MCP  congregava artistas como Ariano Suassuna, Francisco Brennand, Hermilo Borba Filho, Luiz Mendonça que, sob a liderança do educador Paulo Freire, ajudavam a democratizar o acesso das populações carentes e analfabetas à educação. Milhares de crianças e adultos, assim, aprenderam a ler  através da pedagogia libertária de Paulo Freire, tão repudiado pelo famigerado ex-capitão que, felizmente, perdeu as eleições e está se despedindo da  presidência do Brasil. Em 1964, os tanques do Exército invadiram o Sítio da Trindade, quando os militares destruíram o material didático, considerado “subversivo”, fato que não pôde ser noticiado à época como deveria, por conta da censura exercida pelos militares nos órgãos de imprensa.

Embora o Sítio tenha sido ocupado no século 17 por tropas brasileiras, como forma de resistir contra os invasores holandeses, o chalé que abrigará o memorial foi construído no século 19, pela família Trindade Peretti que durante longo tempo residiu no local, que hoje é administrado pela Prefeitura.   O terreno guarda as características do ambiente de sítio arborizado, repleto de fruteiras, comum aos casarões  erguidos no Recife até o início do século 20. Infelizmente, mais uma vez, os nossos gestores não tiveram a sensibilidade de respeitar as linhas originais do chalé, que permanece sem boa parte dos seus lambrequins. Vejam que, ao pintá-lo todo de branco, deixam de ser valorizados os detalhes da fachada. Comparem a foto recente (prédio pintado de branco) e a antiga (rosa). Sinceramente, custava nada respeitá-los? Se é para respeitar a memória da verdade, por que não respeitar, também, a memória da arquitetura? Do jeito que o chalé foi pintado, dá a impressão de que foi feito tudo sem critério, às pressas, para cumprir prazo não sei de quê…

Nos links abaixo, você confere mais informações sobre o Sítio da Trindade, Paulo Freire, MCP e ditadura militar.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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