Memória: Período militar, quando as armas viraram oferendas no altar

Hoje é 31 de março. No século passado, essa data era “comemorada” nas escolas, nas repartições  dos governos municipais, estaduais e federal como o “Dia da Revolução”, que de revolução, mesmo, só teve o nome. Foi um golpe militar contra o regime democrático que todo mundo sabe muito bem no que deu. Foram 21 anos de obscurantismo, tortura, inexistência do estado de direito. No ano passado, o Ministério Público recomendou que a data não fosse comemorada nos meios oficiais, por tudo que o período 1964-1985 representou para a população brasileira.  O regime caiu depois da mobilização popular, com muita gente nas ruas, em memoráveis campanhas como “anistia ampla e irrestrita” e “Diretas já”.

Eu era estudante de colégio, quando o golpe aconteceu. Lembro-me no entanto de fatos que me marcaram para sempre, como o assassinato do Padre Henrique Pereira Neto, que era auxiliar de Dom Hélder Câmara, então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife. E cujo nome foi banido da imprensa. Lembro-me que no meu primeiro emprego como repórter, no Jornal do Commercio, havia sempre um lembrete no quadro de avisos da Redação, dando conta de assuntos censurados. O nome do arcebispo estava proibido de ser publicado. Nem citação relativa ao religioso poderia ser feita nos jornais. Na época, o Dom da Paz, como era conhecido, era uma das vozes mais atuantes em defesa dos Direitos Humanos, completamente desrespeitados no Brasil de então. Lembro-me, também, que algumas vezes éramos convocados para noticiar “suicídios” suspeitos de presos políticos, mas que tínhamos obrigação de noticiar – infelizmente – a versão oficial.

Cheguei a entrevistar alguns torturadores cujos nomes hoje figuram nos livros de história. Um deles foi o Coronel Darcy Villocq. Ele ficou famoso porque por ter praticado tortura em público, na Praça de Casa Forte. A vítima foi Gregório Bezerra, um dos comunistas mais temidos pelo regime militar. A barbárie então praticada nas ruas chegou a ser assistida por alunos do colégio Sagrada Família.  Também lembro do dia em que o Coronel Nilton Cerqueira assumiu a responsabilidade pela captura e morte do Capitão Carlos Lamarca, outro inimigo do regime. Na época, Cerqueira chefiava o escritório local do famigerado SNI no Recife. O SNI era o Serviço Nacional de Informações que, entre outras funções,  investigava a vida dos inimigos do regime. Nunca esqueci, também, que nos tempos de faculdade havia “estudantes” profissionais. Tanto da esquerda, quanto da direita. Os primeiros procuravam doutrinar a meninada para se rebelar contra o regime. Os segundos eram agentes do Exército, infiltrados entre os estudantes. Uma vez, um deles reclamou que eu estava levando Eros e Civilização, de  Hebert Marcuse, autor muito discutido na época. “Isso é um nojento, você não deve ler um marxista”, disse-me meu “colega” de jornalismo.

De outra vez, eu conversava no ponto de ônibus com um amigo, eu falava de um livro que me fora dado pelo meu hoje falecido pai. Era O Lado Gelado da Vida (foto da capa).  Comentava a opressão do governo francês em sua então colônia, a Argélia. Pronto. Alguém ouviu a palavra “opressão” e veio tirar satisfação. A sorte é eu tinha o livro na bolsa e mostrei a que “opressão” me referia não era no Brasil. Como jornalista, também cheguei a receber alguns recadinhos intimidadores. Mas, naquela época, isso fazia parte de nossa profissão. E até por ser então casada com Tarcísio Pereira, da Livro 7. A livraria sempre apoiou movimentos dos professores inclusive algumas mobilizações trabalhistas. E me veio o recado. “Diga a seu marido que pare de colaborar com fundo de greve dos professores, pois os militares estão de olho nele”.

Recebi o recado mas, desaforada como sempre, dei minha resposta: “Informe a quem enviou o recado que quem compra livro é professor e não militar”.  Ficou por isso mesmo. Mas houve lançamentos, lá na Livro 7, que a gente vinha “araponga” em todo canto, como ocorreu no dia em que Gregório Bezerra lançou seu livro de  Memórias.  Naquele tempo, a gente tinha que se preocupar até com a cor da roupa que ia usar. Lembro-me que uma vez, fazendo a cobertura da comemoração da “Revolução” na sede do Quarto Exército (hoje Comando Regional do Exército, sediado no Recife), uma amiga me reclamou que minha roupa era vermelha, que  eu deveria estar com uma cor neutra ou verde. Na verdade, escolhi o vestido de forma aleatória. Não por protesto. Fora uma coincidência. “Pode parecer provocação, a cor do comunismo”, disse-me então minha colega de Brasília.

Também nunca esqueci dessa cena da foto. Foi ofertório mais surreal que vi em toda  minha vida, quando os sacerdotes que celebravam missa naquela área militar, conclamaram os presentes a depositarem ali seus apetrechos para oferecer a Deus, no momento do Ofertório. As “oferendas” foram rifles e metralhadoras. Já tinha visto outras oferendas menos comuns, como rapadura, queijo de coalho e apetrechos como perneira e gibão, na Missa do Vaqueiro, no Sertão de Pernambuco. Mas oferta de armas, que incitam a violência, nunca tinha visto em uma liturgia católica. Mas a cena foi presenciada no quartel. Felizmente foi a primeira e última vez. Cheguei na Redação do então Jornal do Brasil, escandalizada. Ia escrever a matéria sobre o episódio com uma ponta de ironia. Mas o então chefe da sucursal, hoje já falecido, não o permitiu. Tive uma grande frustração. E até hoje não sei se fui vítima de autocensura ou se ele recebeu um daqueles “recadinhos” que recebíamos sempre.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Arquivo pessoal

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