A sanha da caixa preta que atinge os órgãos públicos do Recife – quando o assunto é o número de árvores banidas da paisagem da cidade – parece ter atingido, agora, os gestores do Parque Dona Lindu, um dos quatro que foram alvos de concessão à Viva Parques, durante a gestão do então Prefeito João Campos. Pois fiquem de olho, a vegetação ali vem sendo derrubada.
Vocês lembram que aquela área de 27 mil metros quadrados onde o parque foi implantado era o último coqueiral à beira-mar na praia de Boa Viagem? Em 2008 a obra começou, o que exigiu a degola de centenas deles. Talvez milhares. Em 2011, ocorreu a inauguração sem que o então Prefeito, João Paulo Lima e Silva, informasse a quem de direito quantos foram erradicados e como foram compensados. Não há, sequer, um número oficial que indique um inventário anterior à destruição em massa daquela paradisíaca vegetação.

Pois bem, a Viva Parques Recife anunciou, desde a semana passada, uma série de “intervenções” que, para serem viabilizadas, exigem ação da motosserra insana e, claro, a prática de arboricídios. O pior é que, agora, como antes, ninguém diz quantas árvores serão degoladas no local. Na última sexta-feira, a empresa enviou releases à Imprensa, falando e das mudanças no Lindu. Vejam só o teor da nota em relação ao parque da beira-mar, na Zona Sul:
“No Parque Dona Lindu, teve início o isolamento de duas áreas para viabilizar obras de implantação de novos equipamentos gastronômicos, além de bicicletário e espaço de convivência com projeto paisagístico e mobiliário urbano. As intervenções ocorrem nas imediações da Galeria Janete Costa e nas proximidades do Teatro Luiz Mendonça. O isolamento tem como objetivo garantir a segurança dos frequentadores durante a execução das obras, que fazem parte do processo de qualificação e ampliação da infraestrutura do parque. As intervenções serão realizadas de forma gradual, com sinalização nos trechos em obra, a fim de minimizar impactos na circulação e no uso cotidiano do espaço. As obras contemplam a construção de um quiosque gastronômico, bicicletário e espaço de convivência, com foco na ampliação do bem-estar e da qualidade de uso pelos frequentadores. Para viabilizar as intervenções, foi realizado inventário florestal e previsto o plantio compensatório em dobro, com acompanhamento posterior das espécies. Todas as licenças necessárias foram obtidas, incluindo a Autorização de Supressão Vegetal (ASV).
Só para destacar, notaram as duas últimas quatro linhas da nota? “Para viabilizar as intervenções, foi realizado inventário florestal e previsto o plantio compensatório em dobro, com acompanhamento posterior das espécies. Todas as licenças necessárias foram obtidas, incluindo a Autorização de Supressão Vegetal (ASV)“. Como achei que a preservação do patrimônio verde é um assunto muito sério, enviei perguntas básicas sobre o assunto à Viva Parques. A resposta: silêncio.
Então, leitor, pense comigo. Se o inventário florestal foi feito, por que não foi divulgada a quantidade de “indivíduos arbóreos” e as espécies lá existentes? Porque a Viva Parques silencia quando indagada sobre o número de árvores erradicadas? E se o plantio compensatório será em dobro, como diz a empresa (acobertada pela Prefeitura do Recife), por que não se informa onde será feita a compensação? No próprio parque, ou a dez quilômetros de distância, em lugar que ninguém vê? Qual a altura das mudas que serão plantadas? Qual a forma de fiscalizar se realmente “vingaram” – como diz a gíria – ou se morreram? Ou seja, o Recife quer sim, saber o que significa “todas as licenças necessárias” para a “autorização de supressão vegetal”. Já não basta a destruição da vegetação da restinga e árvores nas obras que vêm sendo implantadas no calçadão em Boa Viagem e no Pina? Quem autorizou a supressão no Lindu? A inoperante Secretaria de Meio Ambiente do Recife? Por que esta não se pronuncia, sobre esses números?
Realmente, nesse quesito – arborização urbana – o Recife dá um péssimo exemplo. Além de fomentar arboricídios em todas as obras públicas, em ruas, esquinas, jardins, ainda acoberta a destruição no que deveria ser, isso sim, uma verdadeira área verde. A destruição em massa no Lindu foi criticada na página do Boa Viagem em Foco, nas redes sociais. “Vegetação no chão, mas uma destruição em Boa Viagem”.
E a indignação rolando, mais uma vez. “Disseram que haveria melhorias, disseram que seria gratuito, disseram que manteriam as áreas verdes e tombadas de uso coletivo, disseram muitas coisas e o povo acreditou”, reclama o recife_de_verdade. “É um crime ambiental”, reforça o internauta Rômulo Bastos. “Frequento esse parque. É muito quente. Precisa que se plante mais árvores e não destruir as que já existem”, diz Ana Lúcia Ferreira. Outra internauta, Taty, ironiza. “Não duvidem que eles poderão vir a substituir por árvores de plástico, iguais às que podemos ver em Dubai”. Para Severino Bitencourt, a “administração da Prefeitura do Recife tem ojeriza ao verde”. Pelo visto, tem mesmo. Nos links abaixo, veja outros arboricídios em Boa Viagem, arboricídios coletivos na cidade, e informações sobre o Lindu.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Redes sociais/ Prints de Boa Viagem em Foco /Foto do leitor (Acervo #OxeRecife)
