Na literatura – em casos reais ou na ficção – não são poucas as obras em que as árvores assumem significados que extrapolam a botânica e a biologia. Em “O Barão da Árvore”, Ítalo Calvino conta a história de um menino que sobe em um carvalho, para nunca mais descer. No romance “Meu pé de laranja-lima” – grande sucesso dos anos 1960 – José Mauro Vasconcelos relata como a planta virou sua amiga, tornando-se confidente e ouvinte de suas travessuras e dissabores. Em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, a castanheira onde o patriarca José Arcadio Buendia é amarrado, vira um símbolo de isolamento, loucura, estagnação do tempo. Já Richard Powers, em “A trama da árvores”, mostra a profunda relação entre homens e vegetais.
Pois essa relação não é pequena e assume muitos valores: . Que o diga a fotógrafa Roberta Guimarães, que lança nesse sábado (11/4) o livro “A Árvore da Palavra” no Museu do Estado de Pernambuco (MEP), a partir das 15h. Com 90 páginas e ilustrado com fotografias realizadas no Nordeste do Brasil e em três países da África, a obra reflete a percepção inicial da profissional, ao percorrer a Zona da Mata, Agreste e Sertão em 2018, quando testemunhou como grupos sociais diversos se apropriam das árvores e seus espaços, mantendo relação de afeto, cumplicidade, religiosidade, e rituais. Dois anos depois, ela esteve no Benin, Senegal e Nigéria, quando reforçou as impressões iniciais, captadas no Brasil. O lançamento do livro ocorre simultaneamente com a abertura da exposição de fotografias “A Árvore da Palavra”, que fica em cartaz no MEP até o dia 3 de maio.

Para quem ama as árvores, como é o meu caso, o livro é daqueles que não podem faltar na estante e enriquece a extensa bibliografia sobre o assunto. No interior de Pernambuco, “entre tradição e as novas apropriações, essas árvores resistem como história e memória”, destaca a curadora Joana D’ Arc Lima. “De tanto ver e ouvir, as árvores da palavra têm, com o passar dos anos, uma memória prodigiosa. Carregam essa força humana e a ancestralidade africana”, afirma, referindo-se às ligações das comunidades com as árvores naquele continente, onde todo vilarejo tem uma árvore da palavra ou dos conselhos. “Nesses espaços, as pessoas sentam para discutir, decidir, contar histórias, buscar conselhos, tramar, falar mal… entre outras humanidades”.
No Benin, por exemplo, o livro mostra como algumas florestas são sagradas. Porque “cumprem um papel fundamental para religação dos humanos com a natureza, dos vivos com os ancestrais já mortos, e com o patrimônio cultural, religioso e ecológico”. Árvores que crescem e assumem papel de audição, como o baobá, “ democrático e avantajado, destinado a pequenas reuniões”. Uma árvore, aliás, que conecta Pernambuco com a matriz africana, pela sua presença tão frequente em nosso estado .
Sem querer dar spoiler, citamos no Nordeste exemplos de outras “árvores da palavra”, registradas no livro de Roberta. No Vale do Catimbau, o povo Kapinawá usa a sombra do pau-ferro para dançar o toré. No seu tronco, foi cavado um nicho onde a população colocou a imagem de uma Santa. Em Cimbres, na Serra de Ororubá, em Pesqueira, os xucurus usam a mata para o toré. Em Tacaratu, os pankararus, após o carnaval, realizam festa da umbuzada, por quatro domingos seguintes. O livro mostra significados de umbuzeiros e gameleiras em territórios quilombolas, no interior de Pernambuco. Também como uma centenária castanheira-do-maranhão é reverenciada no Quilombo Curiquinha dos Negros, no município de Brejão, onde crianças e adolescentes recitam poemas de empoderamento sob sua sombra. No seu solo, estão enterrados cotos umbilicais de crianças que vieram ao mundo pelas mãos da parteira da comunidade, Quitéria, que tem cem anos. Ela diz que quando adultos, essas crianças jamais esquecerão a terra.
Portanto, estão todos convidados para a exposição e lançamento do livro “Árvore da Palavra” no MEP. O acesso à expô é gratuito. O livro custa R$ 70. E ambos estão valendo, e muito. Além de conhecermos tantos significados das árvores, o projeto “Árvore da Palavra” – exposição e livro – só reforça o sentimento de que temos de preservá-las da motosserra insana e livrá-las de arboricídios, tanto individuais quanto os coletivos. Afinal, todos nós sabemos que a floresta vale muito mais em pé do que deitada…
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Serviço
Exposição de fotografias e lançamento do livro “Árvore da Vida”, de Roberta Guimarães
Quando: Sábado, 11 de abril de 2026
Horário: 15h
Onde: Museu do Estado de Pernambuco (MEP)
Endereço: Av. Rui Barbosa, 960, Graças
Quanto: Acesso gratuito
Preço do livro: R$ 70
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Roberta Guimarães / Árvore da palavra

Que eventos como esses, exposição e livro, que reforçam a importância das árvores em todos os sentidos, não só na botânica e biologia, mas também religioso, cultural, ou simplesmente sentar-se embaixo de sua sombra. Sombra que está ficando cada vez mais difícil com as podas absurdas, não só nas ruas como dentro dos parques. Tristeza ver as árvores parecendo uma vassoura em pé, com o cabo no chão.