Efeitos da ditadura de 1964, na UFPE: 649 atingidos e seis estudantes assassinados

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As marcas da ditadura instaurada no Brasil em 1964 parecem não acabar nunca. Pelo que se observa, trabalhos exaustivos que investigam a violação de direitos humanos no período – prisões ilegais, torturas, desaparecimentos, mortes – estão longe de esgotar as atrocidades cometidas no regime militar. É que na terça-feira (31/3), a Universidade Federal de Pernambuco faz novas e inéditas revelações. Durante os chamados anos de chumbo, 649 professores, estudantes e técnicos vinculados à UFPE foram alvos de práticas autoritárias. Destes, 132 terminaram presos ou detidos, e seis foram assassinados por agentes do arbítrio.

Os dados – que ainda são considerados “parciais” – serão apresentados às 9h do dia 31 de março, no auditório João Alfredo (na Reitoria da Universidade), durante  o evento “A UFPE e o Compromisso com as memórias”.  Além de prisões, torturas, mortes, outras  práticas nada republicanas foram aplicadas contra os suspeitos de exercer “atividades subversivas”: cancelamentos de bolsas, desligamentos de curso, demissões arbitrárias entre outras. O evento terá, também, exposições, lançamentos de vídeos que tratam do período (foto superior) e palestra (“Universidade, Memória e Reparação”, pela Professora Ana Paula Brito, do Departamento  de Antropologia da UFPE).

Estudantes voluntários e bolsistas examinam documentos sobre os efeitos da ditadura de 1964 na UFPE

A realização do evento está revestida de dois simbolismos principais. O primeiro é que a data escolhida para divulgar os resultados da pesquisa não é à toa. Foi em 31 de março que  aconteceu o golpe militar que impediu a realização de eleições diretas para presidente, governadores e prefeitos de capitais.  Durante a ditadura (que só acabaria em 1985), aquela data era comemorada em quartéis, repartições, escolas públicas, com hasteamento de bandeira e discursos que enalteciam a “Revolução”, como os militares e as autoridades de direita chamavam o golpe praticado em 1964 contra a democracia no Brasil.  Hoje, felizmente, no 31 de março divulga-se verdades que precisam ser ditas. O segundo simbolismo tem a ver com o local onde ocorrerá o evento. É que João Alfredo Costa Lima – que dá nome ao auditório – era reitor da UFPE, em 1964 – e foi também vítima da repressão, sendo acusado pelos militares de abrigar “comunistas” na instituição. Diante da pressão, ele terminou “renunciando” ao cargo, poucos meses depois do golpe.

Durante a cerimônia, será lançado um conjunto de vídeos que recuperam história e memória de estudantes que foram assassinados por agentes de repressão da ditadura. Os vídeos começam a ser exibidos no mesmo dia, às 18h, pela TVU. Esse material foi produzido em 2025 na disciplina eletiva “Jornalismo, Memória e Verdade”, com a equipe do Laboratório de Imagem e Som, do Departamento de Comunicação Social. Também foram produzidos 18 trabalhos escritos sobre o assunto, que  serão disponibilizados no site da Comissão, segundo revelam duas de suas integrantes, as professoras Yvana Fechine e Paula Reis. As duas professoras destacam a importância da participação de estudantes voluntários e bolsistas nas pesquisas sobre a  repressão, que contaram com a ajuda da servidora técnico administrativa Roberta Lira (de pé, na foto central).  No dia 31/3,  também serão inauguradas duas exposições “Lutas de classes sob a ditadura 1964-1985” e “Tecendo Memórias e Lutas” (que aborda os casos de Padre Henrique Pereira Neto e Soledad Barret, que foram torturados e assassinados na ditadura).

Comissão da Memória, Verdade e Reparação da UFPE faz revelações sobre ditadura no dia 31 de março

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Diivulgação / UFPE

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