Durante minhas palestras, sempre gosto de abrir espaço para trocas com profissionais de RH e gestores de desenvolvimento humano. Quero entender o que esperam da minha atuação e, principalmente, o que os move. Até pela minha ligação ao ramo artístico, existe um relato que se repete com frequência: o de pessoas que carregam um interesse genuíno ao meio, mas que, por escolhas de carreira ou demandas da vida, acabaram seguindo caminhos mais tradicionais.
O movimento é compreensível. Ser artista no Brasil nunca foi tarefa fácil. A instabilidade financeira, somada ao avanço digital que desestruturou indústrias como a fotografia e a música, tornou a arte um território ainda mais difícil no País (e não desafiador como alguns gostam de confundir). Como resultado, muitos talentos acabam optando por áreas mais criativas, como publicidade, jornalismo e, mais profundamente, a de gestão de pessoas.
Nesse movimento, não raro a veia artística acaba relegada a apenas um hobby ou a algo secundário de pouco importância. No entanto, o resultado dessa escolha acaba se configurando em um erro perigoso, ao gerar a sensação de que é preciso abrir mão desse lado humano e criativo inerente à arte para se ter sucesso. A verdade, porém, se mostra justamente o contrário. Em áreas como a do RH, a arte deveria ser vista como essencial. Esses profissionais se debruçam em uma busca constante por significado, por conexão e formas diferentes de engajar pessoas. Qual o melhor tempero para isso do que a inclinação artística?
A sensibilidade muda a maneira como o profissional enxerga, sente e resolve o mundo ao redor. Isso impacta diretamente a forma como lidera, comunica e desenvolve seus pares. E essa não é uma percepção só minha. De acordo com o relatório Creativity Drives Business Success, da Adobe, 70% das pessoas acreditam que a criatividade as torna profissionais melhores. Mais do que isso, 78% dos entrevistados acreditam que o atributo eleva a produtividade no trabalho.
Não é difícil entender essa percepção. Carregar esse repertório artístico significa conhecer a importância de buscar o diferente e implica a capacidade de perceber o que não está explícito. Refiro-me ao clima de uma equipe, à emoção por trás de uma fala e à intenção escondida em um comportamento. É o profissional que deseja criar impacto e significado. Isso eleva o nível de qualquer projeto, seja um treinamento, uma comunicação interna ou uma estratégia de engajamento. Quem transita pela arte aprende a lidar com ambiguidade, erro, improviso. Em um contexto de mudanças rápidas, impulsionado, inclusive, pela ascensão da inteligência artificial, essa adaptabilidade ganha ainda mais relevância.
Aliás, em se tratando de IA, existe hoje um debate importante sobre a humanização das relações de trabalho. Um estudo publicado pela McKinsey aponta que 57% das horas trabalhadas serão automatizáveis a partir da tecnologia. É fato que a ferramenta pode assumir diferentes funções e atividades. Contudo, não será ela a manter o humano no centro das organizações, mas sim as próprias pessoas, sobretudo, aquelas que olham o mundo com sensibilidade e criatividade.
Até porque, são esses os sentimentos responsáveis por pensar no além do que precisa ser feito, se preocupando como aquilo é sentido por quem recebe. E é exatamente aí que mora a diferença no que é produzido por um humano e a IA. Chegou a hora de parar de tratar a arte como um desvio de rota e passar a integrá-las às atividades, principalmente se o grande foco do seu trabalho é o ser humano. Diante de um futuro em que automação passará a ser regra, buscar sentimento e capacidade criativa será tão importante quanto o resultado para a área do RH. Só quem sente de maneira genuína é capaz de criar algo que faça o outro ter o mesmo sentimento.
* Álvaro Fernando é autor e compositor premiado, atuando há mais de dez anos como palestrante, conduzindo encontros sobre liderança, comunicação e protagonismo. Abaixo, outros artigos encaminhados ao #OxeRecife para publicação.
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