A cidade de antes e de depois: “o Recife está perdendo a cara, a identidade”

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Uma das pessoas que curte o Recife onde nasceu e vive, o publicitário aposentado e escritor Joca Souza Leão, teme pelo destino da nossa cidade que, embora bonita e cortada por rios e pontes, vem sofrendo degradação ao longo do tempo. Por esse motivo, pedi que escrevesse um artigo sobre suas observações a respeito da preocupante situação da cidade, principalmente do centro. Ele preferiu pinçar trechos de textos já publicados sobre o Recife, em 2016, quando advertia os então  candidatos à Prefeitura para o risco que a capital corre de perder a sua essência, a identidade e, em consequência, os seus encantos. Olhem só a foto acima. Juntei as duas para mostrar paisagens da Avenida Dantas Barreto, nos anos 1970. E atualmente, em 2025. Que vocês acham? Olhem só o que diz Joca.

“Quando li seu texto sobre o “Cortejo fúnebre para prédios mortos” (#OxeRecife, 9/jan. – oito dias após a posse de João Campos para o segundo mandato), lembrei da crônica que publiquei às vésperas da eleição para prefeito do Recife, em 2016. E das muitas, inúmeras, crônicas que escrevi sobre o mesmo tema: a destruição (melhor, demolição) do Recife.      ‘Um dia, Joca, a gente vai viajar e, quando voltar, não vai mais reconhecer o Recife’ – me disse Luzilá Gonçalves faz tempo. Aí, anexo, trechos da tal crônica que lembrei”, afirma. Ele elogiou algumas intervenções, como a implantação do Parque da Tamarineira, por exemplo, local que escolheu para a noite de autógrafos de sua última obra literária (“Minicontos e gracejos”).. Porém adverte que, o que se vê é “no mais, abandono e destruição” da cidade. Uma pena não é? Os textos abaixo foram produzidos em 24/09/2016. Mas  são atuais, pois pouca coisa mudou na paisagem urbana do Recife, principalmente no centro. Confira o que diz o autor de “A primeira vez, crônicas + 101 diálogos improváveis“:

“Caro futuro prefeito:

Ninguém sabe, ainda, quem vai ser o novo prefeito ou prefeita do Recife. (…) Como cidadão desta bela e maltratada cidade e, também, como um modesto “escriba de coisas miúdas”, lembro de algumas sugestões, simples, por certo, que dei a diferentes alcaides ao longo dos últimos anos”.

“O Recife, caro futuro prefeito, tá perdendo a cara. A identidade. Daqui a pouco, ninguém sabe mais que lugar é esse. “Poucas cidades se autodestroem tão rapidamente como o Recife”, alerta a arquiteta Circe Monteiro. E é Italo Calvino que nos diz: “A cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão”. A gente a reconhece e considera nossa porque a tem na memória, como na memória se tem a casa em que mora. O novo prefeito pode salvar o que resta do Recife. Devastação não tem nada a ver com “preço do progresso”. Tem outro nome: burrice. A Bahia que o diga. Salve o que ainda dá cara e identidade ao Recife. “Florença dos trópicos”, como escreveu Camus quando esteve por aqui em 1949, nem faz tanto tempo assim. É urgente. Um projeto para salvar o que restou do casario da Rua da Aurora. Do cais José Mariano até a ponte de Limoeiro. No outro lado do rio, cais do Apolo, Rua do Sol…”

Como se não bastasse a degradação da paisagem do centro do Recife, os bairros estão muito verticalizados

“A revitalização do Centro pode começar pela restauração do casario das ruas da Imperatriz e Nova. Os sobrados coloniais estão quase todos lá, escondidos atrás de combogós, brise-soleils, placas, luminosos e fios. Se remover a tralha, o casario desencanta. (…) Vai entrar pra história o prefeito que conseguir acabar com os famigerados gelos-baianos, que de baianos não têm nada; essas excrescências só existem aqui. Em vez desses monstrengos de concreto, jardineiras, flores. Outra coisa: Parque da Tamarineira já! Antes que apareça mais um sacripanta querendo fazer um shopping por lá Convoque historiadores, arqueólogos, restauradores, arquitetos, artistas, intelectuais, escritores, jornalistas, Patrimônio Histórico, IAB, Clube de Engenharia… poetas, sim, poetas: “Pois é do sonho dos homens / Que uma cidade se inventa”. (JC, 24/9/2016).

Observação do #OxeRecife: o centro permanece abandonado e está cada dia pior. Até agora, um gabinete chamado “Recentro” não mostrou a que veio. Os sobrados coloniais de bairros como Santo Antônio e São José estão quase caindo, ou descaracterizados. O Parque da Tamarineira foi implantado e virou em case de sucesso. Os polígonos formados por blocos de concreto, aqui chamados de gelos baianos, ainda persistem mas muitos foram transformados em canteiros, como ocorre nas Graças, Casa Forte, Encruzilhada, Areias e outros bairros da capital. Porém ainda os encontramos até sobre as calçadas, protegendo postes e tomando o espaço que deveria ser de pedestres. E também em ruas e avenidas, embrutecendo a paisagem.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins (#OxeRecife), Genival Paparazzi) / G.F.V Paparazzi / ZAP (81)995218132)/ gfvpaparazzi@gmail.com, e redes sociais

4 comments

  1. Demoliram grande parte do bairro de São José, local de muita história importante.
    Depois a av Dantas Barreto,que talvez tivesse um jardim no meio, um paisagismo de avenida. Recebeu um “camelodromo”.
    O quê vemos no Recife é a destruição de sua história arquitetônica e política.
    Estamos vivendo retratos fantasmas.
    Quem conheceu a praça Sérgio Loreto sabe. Rua Imperial, Concórdia,RuaNova, Imperatriz… tudo ficará sob as águas do Atlântico.

  2. ” Poucas cidades se autodestroem tão rapidamente como o Recife”,tão forte e,infelizmente, tão verdadeira essa afirmação da arquiteta Circe Monteiro.
    E Joca Souza Leão, que em tantas crônicas cantou a beleza do Recife,deu o veredito: Recife perdeu a sua identidade. E isso é muito triste. Todos nós, que amamos essa bela(e maltratada) cidade ficamos indignados e perplexos com o “progresso predatório ” , insano e irresponsável que domina a mente dos nossos gestores.

  3. Outro dia, passeando ou tropeçando nos buracos, no meu Bairro de São José, resolvi me dirigir para a Rua Cristóvão Colombo, bem na esquina naquele Prédio queimado e derrubado onde por um tempo funcionou a Sede de Batutas de São José, rua estreita, onde estão a costas do Prédio onde funcionou o Cinema Ideal 1a. Classe, o segundo Classe fica na esquina do Passo da Pátria com a Dantas Barreto. Um amigo de infância que me acompanhava ficou perguntando porque parei, e segurando as paredes de uma antiga residência disse que naquela casa residia um dos maiores Violonistas do Mundo o Zé do Carmo, Professor do Henrique Annes. E ficamos olhando com os olhos cheios de lágrimas relembrando nossa vida testemunhando, História, Arte, Cultura e tudo o que o Bairro de São José tem na sua essência do Recife, de Pernambuco. Uma vez o Zé do Carmo sentado na calçada lá de casa, com um Sarau de moradores bebericando e beliscando salgadinhos, dedilhando o Despertar da Montanha um Tango-Fado dos mais Lindos do Mundo do Maestro Eduardo Souto composto em 1919, olhando para o casario da Rua Padre Floriano onde morávamos disse, talvez por premonição, um dia meninos vocês vão ver esses casarios derrubados e as lembranças de vocês vão ser dolorosas.. Nunca esqueci, e naquele momento segurando as paredes da casa onde ele morava, caminhava rumo a Padre Floriano para assistir essa premonição, a casa onde morava não está mais no local bem em frente a Praça da Restauração Pernambucana, tudo foi derrubado, até um pedaço dos sons das folhas das Macaibeiras da Praça que marcavam nossos passos. Joca Souza Leão não fez somente uma Premonição que testemunhamos, mas, nos provoca para que lutemos com as forças que nos restam para não amanhecermos sem o Recife de nossas Vidas destruído pelo desprezo humano de Gestores Temerários.

  4. Até quando vamos ouvir esses gritos de socorro ecoar, “Salvem o centro Recife”. Precisamos de um movimento, manifesto, ato público mais contundente. Não mais de maneira isolada, nas unidos, de mãos dadas, acuar para fazer o nosso grito ecoar.

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