Em um dia como hoje, 19 de abril de 1886, exatamente às 12h40m, nascia Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, no sobrado Nº 138 – ainda existente – localizado na Rua Joaquim Nabuco, à época chamada de Rua da Ventura. O poético nome da via ficou para trás, o que felizmente não aconteceu com a Rua da União, onde o poeta passou anos memoráveis de sua infância, quando aprendeu a amar o Recife e do qual falaria anos depois, em prosa e verso, com muita nostalgia.
Bandeira foi morar com a família no Rio de Janeiro, em 1889, mas retorna em 1892, quando passa a residir no casarão do avô, na Rua da União. Sua vida, portanto, gravita no bairro da Boa Vista, entre estudos e cursos preparatórios. Ruas como Formosa (atual Avenida Conde da Boa Vista), Nova, Imperatriz, Aurora, Soledade, Rua do Sol, da Saudade, começam a chamar a atenção do menino que, aos dez anos, escreve os seus primeiros versos. E que, quando adulto, mostra justificado temor, ao evocar a Rua da União, Rua do Sol, Aurora: “Como eram lindos os nomes das ruas de minha infância”, diz. E confessa: “Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal”.
No entanto, não foram só os nomes poéticos das ruas que alimentavam as memórias de Bandeira. Mas também a cidade tranquila do início do século 20, dos sobrados coloridos, das brincadeiras no meio da rua, das trelas de criança, dos verdes quintais, das cadeiras de balanço ao sabor da brisa nas calçadas, dos pregões dos vendedores de rua: “midubim” (amendoim), roletes cana, ovos. Ele traduziu toda sua nostalgia no poema “Evocação do Recife”, quando fala dos tempos de criança, na “Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado” e recorda o hábito das famílias de então que, após o jantar, “tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas”.

A casa 263 da Rua da União onde Manuel Bandeira passou parte de sua infância foi tombada em 1983, passou por restauração e, em 1986, transformada em Espaço Pasárgada. Felizmente o casarão secular teve destino diferente de outros no mesmo bairro, igualmente importantes, mas que se encontram em ruínas: aquele onde nasceu o abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), na Rua da Imperatriz; e o outro, onde Clarice Lispector (1920-1977) passou parte da infância, na Praça Maciel Pinheiro. Além de garantir a conservação do imóvel, o Espaço Pasárgada cumpre sua função, reverenciando obra a memória do poeta e desenvolvendo atividades culturais que, neste mês, ganharam mais ritmo pois comemora-se os 140 anos de nascimento de Bandeira e as quatro décadas do Espaço Pasárgada.
Participei de uma das atividades programadas pela gestora do Pasárgada, Juliana Albuquerque. Estive lá no último sábado, quando o educador patrimonial, turismólogo e historiador Jesus Anderson Jesus (da Fundarpe), nos conduziu a uma “viagem” por um Recife que não existe mais, através de fotografias antigas. “Passeamos” pelos Arcos do Bom Jesus (1635-1850), da Conceição (1643-1913), de Santo Antônio (1643-1917). Também “visitamos” igrejas como a do Paraíso (1686-1944) e a dos Martírios (1796-1973) que não existem mais. Assim como a dos Ingleses (1840-1946), que ficava onde hoje é o Cinema São Luiz.

“Passamos” pelas Ruas do Sol, Aurora e Av. Dantas Barreto de antigamente. E até visitamos a Praça do Marco Zero, com a paisagem original, quando ainda não havia sido construído o monstrengo moderno do Grupo João Santos (foto superior), que quebrou por completo a harmonia da paisagem em torno do Marco Zero da cidade. Se Bandeira fosse vivo, hoje, teria muito a lamentar, com a descaracterização do Recife onde nasceu, que tanto amou quando menino, e do qual nunca esqueceu. Morando no Rio de Janeiro, retorna em 1929 à capital pernambucana, quando mostra-se chocado com as transformações:
“ Egoisticamente, queria a mesma cidade de minha infância. Por isso diante do novo Recife, das suas avenidas orgulhosamente modernas, sem nenhum sabor provinciano, não pude reprimir o mau humor que me causava o desaparecimento do outro Recife, o Recife velho, com a inesquecível Lingueta, o Corpo Santo, o Arco da Conceição, os becos coloniais”.
Ele reclama, já nos anos 20 do século passado, do excesso de edificações novas “em substituição às velhas casas de balcões”. E critica “o Cais do Capibaribe entre Boa Vista e Santo Antônio, sem os sobradões amarelos, encarnados, azuis tão mais de acordo com a luz dos trópicos”, que foram substituídos pela “luz grisalha” que “os requintados importam dos climas frios”. Restava, a ele – no entanto – um “consolo”. A Rua da União de sua infância era “a mesma de 30 anos antes” e mantinha o poético nome. Que jamais vire, como ele temia, mais uma “Rua do Dr Fulano de Tal”, como ocorreu a centenas de vias da cidade. Muita coisa mudou de lá para cá. Casarões antigos viraram estacionamentos, outros estão em ruínas, mas alguns sobreviveram. Entre estas, a casa “de meu avô”, que felizmente está preservada.
Abaixo, uma rápida visita ao Espaço Pasárgada. E, nos links seguintes, mais postagens sobre o Recife do passado e sobre Manuel Bandeira
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Dondinho (PCR), Museu da Cidade do Recife, Acervo #OxeRecife.
