Sessão Recife Nostalgia: Memórias afetivas do Capibaribe e Poço da Panela

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Recife, 489 anos. Como antecipei, para assinalar o transcurso de mais um aniversário da cidade, o #OxeRecife traz depoimentos de pessoas que nasceram ou viraram “filhos adotivos” da capital pernambucana. O testemunho de hoje é da educadora Ednar Carvalho Cavalcanti, que está na lista dos inesquecíveis mestres dos meus tempos do Colégio  Vera Cruz. Ednar nasceu nos anos 1940, no bairro do Poço da Panela, onde viveu até os cinco anos de idade, quando mudou-se para o vizinho Casa Forte.

Os laços com o Poço, no entanto, nunca se acabaram. Porque os parentes, em maior parte, ali permaneceram. “Ia lá todos os dias. O Capibaribe era então um rio cristalino e costumava tomar banho com meus primos”, recorda. “Lembro que a areia era branquinha, parecia a da praia”, ressalta, pintando um quadro bem diferente do que se vê hoje, com o nosso “cão sem plumas” transformado em esgoto a céu aberto. “A gente também andava muito de bote, para visitar amigos e parentes do outro lado do Rio”, recorda, falando de um meio de transporte ainda hoje muito utilizado por moradores da região (foto superior). Tem mais. Transformada em 2024 em Patrimônio Imaterial Cultural do Recife, a icônica Venda de Seu Vital foi construída pela sua família, no início do século passado.

Ela lembra do pai e dos tios, com a mão na massa, erguendo o prédio da mercearia que, durante muito tempo, era o local onde as famílias do bairro se abasteciam, em uma época onde os supermercados ainda não haviam chegado. “Não sei se o pai e os tios eram sócios, como funcionava isso. Mas lembro do meu pai entregando pão nas casas do bairro logo cedo”. E acrescenta: “Depois, ele voltava, tomava banho e ia para o emprego público na cidade”, recorda. Para Ednar, o Poço da Panela era muito mais bonito do que hoje. “Nossa casa era aquela, meio enviesada que fica vizinha à venda de Seu Vital, e os terrenos em volta, a rua e a beira do rio eram locais onde costumávamos brincar”, diz, referindo-se ao entorno da casa do abolicionista José Mariano e da Igreja de Nossa Senhora da Saúde.

Atual escritório de advocacia, casarão azul tinha vacaria no quintal. Ao lado, a Venda de Seu Vital, construída pela família de Ednar

“Recordo que a beira do rio e a frente da Igreja eram cobertas com um gramado lindo, que parecia um tapete verde. Não tinha jardineiro, nem funcionário da Prefeitura cuidando, mas era sempre viçoso. Era por ali que as crianças costumavam brincar. A beira do rio era tomada de fruteiras – mangueiras, ingazeiras, cajueiros, pitangueiras – e após o banho, antes do retorno para casa, íamos consumindo as frutas que achávamos e não eram poucas”, diverte-se. Ela diz, ainda, que as amizades eram democráticas no bairro, onde as famílias abastadas tinham boas relações com famílias carentes que começaram a chegar na beira do Rio:  lavadeiras, carroceiros, pescadores. “Chegávamos a comprar produtos que vinham do Capibaribe, como peixes e crustáceos”.

Ela lembra que a casa azul, onde hoje funciona um escritório de advocacia, tinha um quintal grande, onde pastavam bois e vacas. “A gente atravessava a rua para comprar leite na vacaria”, recorda. O sobrado (salmão) que fica em frente ao casarão azul era um antiquário, mantido por Cícero Tostes, que funcionou até o início dos anos 1970. Hoje, onde era a loja de antiguidades, funciona o ateliê do artista Jobson Figueiredo. Ednar recorda, também, das festas do bairro, como a de Nossa Senhora da Saúde, ainda hoje a mais famosa comemoração religiosa do Poço da Panela. Havia um morador, cujo apelido era “Pé de Aço”, que fabricava os fogos que eram usados no dia da procissão.

“A Festa de Nossa Senhora da Saúde era, também, uma chance para confraternização das famílias do bairro. Aquelas mais abastadas se juntavam e financiavam a decoração da Igreja, do andor, nos dias de festa”, recorda. Ela diz que os adultos costumavam conversar no pátio da igreja, enquanto as crianças se juntavam para colocar flores nos jarros e em volta da Santa. “Era uma festa”, diverte-se.

O #OxeRecife sugere três livros, que remetem ao Poço da Panela de antigamente: “Os arredores do Recife”, de Pereira da Costa (organizado por Bruno Almeida de Melo); “Os Azevedos do Poço”, Mário Sette; e “A Emparedada da Rua Nova“, de Carneiro Vilela (os dois últimos são fictícios, mas que nos transportam para um Poço da Panela real e cinematográfico dos séculos passados.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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