Artigo: Redes sociais agravam crise ambiental, por Flávio Linquevis*

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As redes sociais, onipresentes em nossas rotinas pessoais e profissionais, não são apenas ferramentas de conexão e entretenimento. Elas também são grandes consumidoras de recursos naturais, com impactos ambientais significativos que vêm sendo negligenciados tanto pela sociedade quanto pelos reguladores. A impressão de que atividades como curtir uma foto, postar um vídeo ou assistir a um conteúdo curto são inofensivas precisa ser revista com urgência. Estudos do Instituto Akatu, TechTudo, IT Forum e SEMIL mostram que as redes sociais, juntamente com a infraestrutura que as sustenta, como data centers, geram uma pegada ecológica expressiva em termos de emissões de gases de efeito estufa (GEE), consumo de energia e água, e produção de lixo eletrônico.

De acordo com o Instituto Akatu, os brasileiros ativos no Facebook emitem, por ano, cerca de 30,6 toneladas de CO₂, o equivalente à emissão de mais de 4 mil carros em uma volta ao redor da Terra. Além disso, os data centers consomem 1,4% da energia mundial e milhões de litros de água apenas para resfriamento. Isso revela um paradoxo: enquanto a sociedade debate o uso consciente da água e da energia em casa, ignora o custo ambiental da vida digital. O uso massivo e desenfreado de redes sociais, potencializado por algoritmos que incentivam o consumo prolongado de conteúdo, também contribui para a rápida obsolescência de dispositivos eletrônicos, agravando a crise do lixo eletrônico e sobrecarregando ecossistemas frágeis.

Nesse cenário, o direito ambiental enfrenta um novo desafio: como regulamentar os efeitos nocivos em um setor intangível, globalizado e em constante evolução tecnológica? A legislação brasileira, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, prevê a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, mas não contempla, de forma direta, o impacto ambiental das plataformas digitais. O princípio do poluidor-pagador, essencial à justiça ambiental, ainda não é aplicado de maneira eficaz às big techs, que seguem operando sem exigências específicas de compensação ambiental ou licenciamento, apesar de integrarem a cadeia de consumo. Isso demonstra um vazio normativo que precisa ser preenchido com urgência por políticas públicas modernas, tecnicamente embasadas e internacionalmente articuladas.

Apesar das evidências alarmantes, as redes sociais também representam uma oportunidade. São canais potentes para disseminação de informação ambiental, mobilização social e incentivo à inovação sustentável. Iniciativas de empresas como Google, Netflix e Equinix, que buscam neutralizar suas emissões ou adotar fontes de energia limpa, demonstram que é possível alinhar tecnologia e sustentabilidade. Porém, não basta a boa vontade corporativa. É necessário um ambiente regulatório que premie condutas sustentáveis, penalize práticas prejudiciais ao meio ambiente e estimule a educação ambiental digital, aproximando o consumidor da responsabilidade ecológica de suas escolhas cotidianas.

O impacto ambiental das redes sociais é, portanto, um problema real e crescente, que exige do direito ambiental uma resposta à altura. Cabe ao legislador, às instituições e à sociedade civil olhar com seriedade para esse tema, criar mecanismos de controle, incentivos verdes e parcerias internacionais para mitigar os danos. O futuro sustentável do mundo conectado depende do quanto estamos dispostos a reconhecer que até o mais simples clique tem um custo, e quem deve pagá-lo.

*Flávio Liquevis     é Membro e coordenador de diversas instituições e associações voltadas ao meio ambiente, nacionais e internacionais, Flávio Linquevis é professor, advogado especializado em Direito Ambiental e mestre em Legislação Ambiental pela Unicamp, responsável por abordar temas relacionados a áreas contaminadas, entre outros. Com escritório sediado em São Paulo/SP, Linquevis atende todo o território nacional, de pequenas a grandes empresas, oferecendo consultorias e uma boutique jurídica especializada em Direito Ambiental.

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Edição: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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