Artigo: “O Meio Ambiente como determinante da saúde, da terra ao corpo”, por Raul Manhães*

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Josué de Castro já nos alertava: o mapa da fome é também o mapa da injustiça ambiental. Para ele, a miséria não era um problema natural, mas uma criação política. Entendeu antes de muitos que a saúde e a doença começam no território — na terra, na água, no ar — e que o corpo humano é a síntese viva das condições de vida do planeta. Em 2025, celebrar a Semana do Meio Ambiente exige mais do que gestos simbólicos. Exige compreender que preservar a natureza é preservar também a nós mesmos. A saúde não nasce na farmácia. Nasce no ambiente. No chão, no clima, no ventre da mãe. O corpo que adoece é o espelho do mundo ferido.

A ciência atual confirma essa visão. A teoria das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD) mostra que aquilo que vivemos nos primeiros mil dias de vida — desde a gestação até os dois primeiros anos — pode moldar para sempre o funcionamento do nosso organismo. A nutrição da mãe, o ar que ela respira, os metais pesados na água, os agrotóxicos na comida, os ruídos da cidade, a ausência de sombra e verde: tudo isso atua como um pincel biológico sobre o corpo em formação.

Esse processo é explicado pela plasticidade fenotípica — a capacidade do corpo de se adaptar ao ambiente. Um mesmo código genético pode dar origem a diferentes desfechos, dependendo das condições vividas. O corpo aprende a sobreviver, mesmo em ambientes hostis, mas esse aprendizado pode custar caro: aumento do risco de diabetes, obesidade, doenças respiratórias, cardiovasculares e mentais. E o mais impressionante: essas marcas ficam guardadas mesmo sem alterar o DNA, através de mecanismos epigenéticos que regulam a forma como os genes se expressam.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 24% das mortes no planeta — mais de 13 milhões por ano — estão ligadas a causas ambientais evitáveis. A poluição do ar, sozinha, é responsável por 7 milhões dessas mortes. No Brasil, mais de 60% da população urbana está exposta a níveis de poluição acima dos recomendados. E não há igualdade nessa exposição: são as crianças, os idosos e os mais pobres que mais sofrem. A crise climática só piora esse cenário. Ondas de calor, enchentes, escassez de água, colheitas arruinadas, insegurança alimentar. A The Lancet Countdown já classificou as mudanças climáticas como a maior ameaça à saúde global deste século. O que afeta os oceanos, os ventos e as florestas afeta também a nossa respiração, o nosso sono, o nosso humor. O impacto mais silencioso, porém, é aquele que ocorre no interior dos corpos ainda em formação.

Estudos do National Institute of Environmental Health Sciences revelam que a exposição gestacional à poluição está associada ao risco aumentado de autismo, asma, obesidade infantil e problemas cardíacos precoces. A ausência de áreas verdes nas cidades contribui para transtornos de humor e atraso no desenvolvimento cognitivo. Em Pernambuco, a ciência também floresce nesse campo. A Unidade de Estudos em Nutrição e Plasticidade Fenotípica da UFPE tem revelado, em modelos experimentais, como a alimentação materna influencia o metabolismo e o comportamento da prole. Trata-se de um esforço coletivo que une a biologia ao território, e mostra que saúde pública começa no cuidado com o ambiente e com a mulher que gesta. É preciso, portanto, abandonar a ideia de que saúde e meio ambiente pertencem a esferas diferentes.

O SUS já reconhece os determinantes sociais da saúde, como renda, escolaridade e moradia. Mas é hora de assumir com a mesma seriedade os determinantes ambientais: o acesso à água limpa, ao ar respirável, à comida sem veneno, ao verde, ao abrigo digno. A medicina que não escuta a Terra será cega para os sinais mais profundos do adoecimento humano. A função da ciência hoje não é apenas descrever o colapso. É contribuir para transformá-lo. Como médico, vejo todos os dias os efeitos de um planeta maltratado nos corpos mais frágeis. Como cidadão, sei que a defesa da vida começa onde os olhos não veem: no subsolo, no ventre, na infância, no invisível. Ainda há tempo. Cada floresta protegida, cada nascente preservada, cada criança alimentada, cada mulher amparada é um gesto de reconstrução. Não da natureza apenas, mas da própria condição humana. O corpo e a Terra são feitos da mesma poeira. E o futuro — se for justo, se for possível — será um reencontro entre eles.

* Raul Manhães de Castro é médico, Professor Emérito da UFPE, Membro Honorário do DOHaD–Brasil e da Academia Pernambucana de Ciências.

Nos links abaixo, artigos encaminhados para publicação e já postados no #OxeRecife

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