Lembram desse casarão, que ficava na Avenida Dezessete de Agosto? Acaba de ser demolido, e dele tenho três histórias pessoais e curiosas a lembrar. A primeira diz respeito ao cantor e compositor Arnaldo Antunes. A segunda, ao professor Vamireh Chacon (1934-2023). E a terceira, a mim mesma, que vou contar aqui na Sessão Recife Nostalgia. Muito visado pela especulação imobiliária, o bairro de Casa Forte vem se verticalizando cada vez mais. O próprio casarão rosa resistia ao mar de edifícios ao seu redor. Agora, virou pó.
Nessa casa Rosa funcionou a Pousada Casa Forte, que era administrada por um alemão, por sinal bem antipático. Por esse motivo, vou começar pela terceira história. É que nos meus tempos de vida corrida, como repórter, após uma viagem cansativa sobre seca e saques, voltei do Sertão para o meu Recife, mas esqueci de avisar em casa que estava chegando de madrugada. E encontrei a porta travada por dentro. Resultado, fiquei na rua. Então, decidi optar pela verdade mais próxima, a Pousada Casa Forte. Cheguei lá umas 2 da manhã, com mala e, penso, cara de ressaca (embora não beba), depois de viagem tão cansativa. O alemão – nem sei seu nome – perguntou o que eu queria.
“Hospedagem, cheguei de viagem sem avisar e minha casa está fechada. É só por uma noite”. Acreditem, o homem nada disse, e simplesmente bateu a porta na minha cara com tanta violência que me assustei e entendi ter sido confundida com uma vagabunda, talvez. Terminei indo dormir em casa de parente, bem mais distante.

E já que estamos em ordem decrescente dos fatos, vamos ao segundo episódio, quando fui lá uma vez conversar com Vamireh, figura engraçada e divertida. O bate-papo era sobre a mãe dele, Dulce Chacon (1906-1982) que pertenceu à Academia Pernambucana de Letras. Mas antes de Dulce Chacon, uma outra mulher, Edwiges de Sá Pereira (1884-1958) havia protagonizado um fato histórico.
Ao entrar na APL (em 1920), Edwiges tornara-se a primeira fêmea a ingressar em uma academia de letras não só em Pernambuco, mas do Brasil. Jornalista, educadora e feminista, foi uma mulher à frente de seu tempo. Dulce publicou um trabalho sobre Edwiges, que guardo ainda hoje com muito carinho. Vamireh gostava de discorrer sobre as duas mulheres, a própria mãe e o seu objeto de estudo.
Por fim, o primeiro fato a que me referi lá em cima. É que os bairros de Casa Forte e Poço da Panela, nos tempos de desfile de rua do Bloco Guaiamum Treloso, tinham a melhor prévia de rua do carnaval do Recife, E o desfile terminava, sempre, com um show gratuito com artistas convidados (posteriormente o show passou a ser em local fechado e pago). Na época, havia uma banca de revistas que era muito frequentada na Avenida Dezessete, ali bem pertinho do Recanto Paraibano. Dei uma parada para comprar revistas e jornais do sul – na época em trabalhava em O Globo e ainda não havia a febre do jornalismo digital – e encontro um rapaz.
De calça de jeans e camiseta branca, me pareceu muito familiar. Ele tinha ido comprar uma revista ou jornal na banca, e como eu sabia que o conhecia de algum lugar, ofereci carona no meu carro. Quando ele entra e senta ao meu lado, eu me surpreendo com um carona tão ilustre e indago: “Você por acaso é quem eu estou pensando”. E ele respondeu: “Sou”. Era Arnaldo Antunes, que viera para cantar à noite ao final do desfile do Guaiamum. O ano? Não lembro. Mas… ele estava hospedado onde?… Na Pousada Casa Forte. Nesses tempos, nem havia Airbnb.
Pois é. Deu tristeza quando vi o casarão no chão, o terreno vazio da noite para noite o dia. Pensei nas tantas histórias dali que se perderam. Morador do bairro de Casa Forte, o amigo Denaldo Coelho me envia as fotos do antes e do depois. A de antes, de julho deste ano. Ele também fica triste quando vê a paisagem do Recife mudando de forma tão apressada. Muitas vezes, para pior. Por esse motivo, dedico esse post a ele, que é fundador dos Grupos Preservar Pernambuco e Bora Preservar, este o braço recreativo do primeiro. E com o qual, costumamos – a pé – curtir a paisagem que, de uma forma ou outra, ainda atribuiu ao Recife uma certa identidade. As fotos foram feitas em três ocasiões: nos bons tempos, já em decadência (com tapumes, em julho de 2025) e após a demolição.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Denaldo Coelho / Grupo Preservar Pernambuco / Cortesia

Muito triste a demolição desses imóveis, pontos de referência do outrora tranquilo e aprazível Bairro de Casa Forte.
É a especulação imobiliária avassaladora, irresponsável e que atende aos interesses dos empresários do setor,com a conivência e/ ou omissão do setor público ,que deveria seguir um plano diretor de urbanização e construção da cidade mas que,sem qualquer princípio ético e moral na condução dos seus projetos políticos, dão de bandeja intervenções ,edificações e contratos sem quaisquer transparência e rigor.É um acinte e uma falta que exige de compromisso com a gestão pública l.
Letícia, queria te agradecer amiga, pela postagem tão cuidadosa e necessária sobre a demolição da Pousada Casa Forte. Esse casarão já fazia parte da paisagem do bairro há décadas, e ver tudo isso desaparecer assim dói.
Seu texto está irretocável e mostra o quanto você tem sensibilidade. E confesso que me deverti com a história da carona ao Arnaldo Antunes. A gente precisa mesmo estancar essa voracidade do mercado imobiliário, que quer verticalizar tudo a qualquer custo, sem pensar na história, na memória e na identidade dos bairros. Você contribuiu para jogar luz nesse tema, a provocar uma reflexão e isso é fundamental.
Agradeço a dedicação e a generosidade de ter direcionado o texto à minha pessoa. Fico lisonjeado, mas não me sinto merecedor de tamanha homenagem. O importante é a causa, e você a defendeu brilhantemente.
Lindo texto Letícia. Cheio de sentimentos e histórias. Infelizmente mais um patrimônio distruido. A ganância das imobiliárias não tem limites. É muito triste.