Quem acompanha de perto a trajetória do diretor Kleber Mendonça Filho sabe o quanto ele usa o cinema para denunciar mazelas universais como as políticas, as sociais, a violência, quase todas ambientadas no seu Recife, cidade onde passou a infância, a adolescência, fez sua formação, e tem residência fixa. O cineasta não perde oportunidade de usar o cinema para manifestar seu amor à cidade, explorando memórias afetivas, mas também denunciando a brutal transformação que a capital sofreu a partir das quatro últimas décadas século 20 até os dias atuais.
Aqui vou falar apenas de três produções assinadas pelo pernambucano. Em seu penúltimo e excelente filme, “Retratos Fantasmas” (2023), ele mostra – por exemplo – o então vicejante centro da cidade, com seus cinemas de rua, suas pontes, e um glamour que, infelizmente, se perdeu com o passar do tempo. Para quem vivenciou o Recife dos anos 40, 50, 60, 70, é impossível não sentir uma certa nostalgia. Eu, por exemplo, que frequentei todos os cinemas do centro, vi “Retratos” três vezes. De quebra, levei netos para assistir. Em “Aquarius” (2016), ele denuncia a especulação imobiliária e mostra a pressão sem ética imposta pelas incorporadoras a quem resiste às ambições movidas pelo vil metal. Nessas situações, não só atores e atrizes são protagonistas.

Em “Retratos Fantasmas”, o Cinema São Luiz – o único de rua que sobreviveu no centro do Recife – é um dos protagonistas. Em “Aquarius”, o gracioso prédio “Oceania” – que serviu como locação – também é protagonista. E, como na ficção, é um dos poucos que resistem à invasão de espigões da praia de Boa Viagem. Até mesmo em “O Agente Secreto” (2025), ambientado na década de 1970 em um Recife dominado pelo medo da repressão política, o cineasta fez questão de reproduzir o ambiente urbano e arquitetônico daquela época. E também as manifestações culturais, como a La Ursa, o frevo, o carnaval de rua simples e espontâneo, com orquestra a pé. Uma das locações utilizadas no filme é o prédio Ofir, onde Marcelo (Wagner Moura) busca abrigo e é recebido por Dona Sebastiana (Tânia Maria).
Pois bem, o Ofir, localizado no bairro do Espinheiro, é uma relíquia da arquitetura do século passado. Com três pavimentos, quintalzão com fruteiras – que lembra os dos nossos avós – ele é o único naquele estilo que sobrevive na Rua Alfredo de Medeiros, cada vez mais verticalizada, embora o Espinheiro tenha sido incluído na Lei dos Doze Bairros (2001), que impunha limites a edificações em doze localidades do Recife.
No final do ano passado, essa lei foi mudada para pior, o que pode colocar mais risco ainda em relíquias como o Ofir. “Esse prédio é um segredo bem guardado da cidade. É um imóvel significativo das memórias afetivas que existem na população a partir do século 20″, diz Kleber. Foi nele que Helena Martins passou a infância, a adolescência e parte de sua vida adulta. O prédio foi construído pela sua família, possui seis apartamentos (todos ocupados) e fica em um terreno de 1.850 metros quadrados, ocupado por fruteiras. “Sim, sofremos muita pressão da especulação imobiliária”, diz ela. “Mas minha avó e minha mãe nunca quiseram trocar a área por apartamentos”, lembra. Não foi à toa, portanto, que na noite da segunda-feira, houve uma sessão de “O Agente Secreto”, no bucólico pátio do Ofir.

“Essa é uma noite para se pensar a cidade como história. “O Agente Secreto” tem o São Luiz, que é um personagem do filme. O Ofir é um personagem importante também. Há um plano que foi filmado do portão para cá, e filme se passa em uma época que esses espigões não existiam. Então, na pós-produção, apagamos os edifícios”, diz.
O cineasta lembra não ser contra novos empreendimentos. Porém se mostra preocupado com os destinos do Recife. “Mas a cidade precisa se organizar e se defender. Alguém pode argumentar que o Ofir não precisa ser preservado, porque não é antigo. Mas Brasília não é antiga, é do tempo desse prédio, e é preservada”. Para Helena, o cineasta é um cidadão “corajoso”. E explica: “Ele transformou-se no principal porta-voz para esse tipo de pauta, esse tipo de prédio e da memória da cidade”. Hoje, quem passa naquela via, não vê o Ofir. Ele tem um defeito que não é congênito. Está escondido atrás de um muro alto erguido recentemente, desses que cercam edifícios contemporâneos, por questão de segurança.
Muros altos, cada vez mais frequentes, que transformaram as ruas do Recife em “corredores penitenciários” como os urbanistas costumam dizer. Eles se referem aos espaços de circulação para pedestres, entre muralhas de verdadeiros “bunkers” que tornam a paisagem da cidade bem brutal. Helena informa, no entanto, que a “muralha” será substituída pelo muro original, com combogós (como na foto inferior, onde Helena aparece ainda criança). E que o prédio vai passar por restauração também. O Recife merece. E a memória da cidade, também.
No pequeno vídeo abaixo, convidados aguardam exibição de “O Agente Secreto”. E nos links, mais postagens da Série “Sessão Recife Nostalgia” e sobre o cineasta Kleber Mendonça, no dia em que seu filme recebeu mais duas indicações ao Bafta, o “Oscar” britânico.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeo: Letícia Lins/ #OxeRecife. E também redes sociais de Kleber Mendonça (sessão) e álbum de família (Helena Martins)

Como sempre, a sua destreza com as palavras escritas mexem com o nosso interior. O Agente Secreto, embora um filme, retrata coisas que só quem viveu ou conhece a história dessa época sabe o que o filme diz em toda a sua profundidade. Porém deixa um recado muito claro e negro da nossa história, que se busca de todas as formas, não se repetir jamais.
Excelente matéria, Letícia.
Não tinha ideia onde ficava o imóvel.