Não é segredo para ninguém que a marca da maior concorrente das sandálias Havaianas – a Ipanema – pertence à Grendene, cujos proprietários (os irmãos Pedro e Alexandre) fizeram doações generosas às campanhas presidenciais do ex-capitão e hoje presidiário Jair Bolsonaro, em 2018 e em 2022. A informação consta em vários sites, sem que haja desmentidos. Nem por isso a esquerda deflagrou raivosa contrapropaganda tendo a marca como alvo, como fazem os bolsonazifascistas, após a polêmica publicidade das “Havaianas”, estrelada pela atriz Fernanda Torres.
Afinal, vivemos em uma sociedade democrática, embora a direita extrema diga que estamos em uma ditadura. E em uma sociedade democrática há respeito às ideologias, à livre concorrência, e à liberdade de opinião. O que não se tolera é o golpismo, as Fake News, o terror e a eterna tentativa de manipulação da opinião pública. Sinceramente, achei muito bom o anúncio das “Havaianas”, bem oportuno. E a escolha de Fernandinha está revestida de simbolismos. Foi uma das brasileiras mais comentadas entre o final de 2024 e o começo de 2025. Virou alvo de uma inédita torcida nacional para que ganhasse o Oscar por “Ainda estou aqui”. E transformou-se até em boneca gigante no carnaval de rua de Olinda. No filme, ela interpreta Eunice, viúva do então ex-deputado Rubens Paiva, sequestrado em 1971, e morto sob tortura nas masmorras do regime militar. Eunice não se intimidou, lutou pelo direito à verdade e virou ativista de direitos humanos. Tudo que a direitona radical odeia…

A direita extrema e o seu líder máximo no Brasil – que sempre negaram a existência de torturas e que o país viveu uma ditadura a partir de 1964 – são contra qualquer filme que mostre a verdadeira face do que é um regime de exceção, assim como os atores que interpretam mortos, torturados ou viúvas da ditadura, como foi o caso de Fernanda Torres. Afinal, para eles, “ditadura” é aquela exercida pelo Supremo Tribunal Federal que, no pleno exercício do estado de direito, impôs penas aos golpistas que pretendiam matar o Presidente Lula, o seu vice (Geraldo Alckmin), e o Ministro do STF (Alexandre de Moraes), se tivessem conseguido consumar por completo o terror que planejaram.
Corta. E as sandálias havaianas, hein, política à parte, será que são mais resistentes do que antes? Não, não são. Lembro que houve um tempo que elas iam se tornando fininhas após muito tempo de uso, e os tornozelos das pessoas ficavam quase rentes ao chão, mas os rabichos (as tiras) aguentavam até o final. Hoje, isso não acontece mais, pois as tirinhas se partem muito cedo, com o solado ainda em muito bom estado. Resultado: sandálias novas, mas com rabicho danificado. Já pensei até em mudar de marca, mas não o fiz, pois sou fiel às “Havaianas” desde que me entendo de gente, já que comecei a usá-las, quando ainda era menina.

E agora, com essa campanha ridícula da direita, fico mais fiel ainda à marca. Tem mais. Se você não comprou o seu presente de Natal, vá logo ao supermercado mais próximo onde acha o par bem baratinho. Pois as “Havaianas” agradam e todos, e custam bem pouquinho: os modelos mais em conta podem ser encontrados por preços que vão de R$ 13 a R$ 17, embora haja outros mais sofisticados que podem passar de R$ 40.
Lembrete: O rabicho se partir ficou tão comum, que nas feiras e mercados populares aqui no Recife, já tem gente que fez disso um negócio: trocar as tiras das sandálias. Ou seja, a economia informal instituiu o “refil” para as “havaianas” ou similares que partam as tiras com o solado de borracha ainda em bom estado. Um par de rabichos custa entre R$ 3 e R$ 5, incluindo a colocação, que é feita com uma máquina artesanal, em bairros populares como o de Casa Amarela, Zona Norte do Recife.

O “acidente”, muito corriqueiro, já virou até verso de uma música bregosa, da cantora recifense Bia Villa Chan, disponível nos canais digitais: “ Prego na havaiana”. Sim. Tem gente que atravessa um prego, fazendo um “T” para exercer o papel de “botão” para segurar o rabicho no solado. Pois bem, com rabicho ou sem rabicho, permaneço fiel à marca, que uso desde criança.
Para mim, ela integra um ritual. Chegar da rua em casa, tirar o par de tênis e colocar as havaianas para relaxar. Sim, estou até com uma com o rabicho arrebentado… Não sei se compre outro par ou se apele para o “refil”… Abaixo, confira “O prego que faltava na minha havaiana”, com a cantora Bia Villa-Chan e links sobre ditadura, protestos, democracia.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Divulgação do filme “Ainda estou aqui”

Maravilha de texto Letícia. Tudo explicado. Vamos presentear Havaianas, usar Havaianas. Já não gostava da Ipanema, agora, jamais.