Peça sobre Soledad Barrett, assassinada (grávida) pela ditadura, em temporada na Espanha até segunda

Nesses tempos sombrios, nada como lembrar a história de heróis e heroínas que sucumbiram à ditadura e à tortura implantadas no Brasil, a partir de 1964. E que o Presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, diz nunca terem existido, embora já tenha homenageado militares denunciados como torturadores.  Naqueles anos de obscurantismo, jovens idealistas sumiram, apareceram mortos ou mesmo foram traídos por amantes românticos, que não passavam de algozes, atuando nas masmorras destinadas a presos políticos. Um caso exemplar foi o da paraguaia Soledad Barrett Viedma, militante da esquerda, perseguida no Recife pela repressão, e assassinada em 1973. Adivinhem por conta de quem…

A  militante Soledad foi entregue às forças de segurança pelo seu então companheiro, o famigerado Cabo Anselmo, que seria depois desmascarado como um dos mais atuantes agentes duplos do governo militar no País. Entre suas vítimas, a própria Soledad, que foi morta e torturada, mesmo grávida do “companheiro”, que usava o codinome de Daniel. São muitos os brasileiros que não conhecem a história de Soledade, embora sua saga tenha virado livros, dado origem a peças de teatro e estudos acadêmicos. Uma de suas biografias mais completas, foi escrita pelo pernambucano Urariano Mota (Soledad no Recife).

Foi ao entrevistá-lo, como repórter do jornal O Globo, que descobri, em detalhes, toda a saga da guerreira.  Urariano chegou a conhecê-la, e ainda se emociona quando fala nela. A militância e sofrimento de Soledade começaram cedo. Teve o avô, Rafael Barrett- jornalista e escritor espanhol – como modelo e inspiração ideológica. Quando nasceu, pais e irmãos já eram militantes contra as ditaduras que então dominavam a América Latina. Portanto, os exílios políticos sempre estiveram na vida quase nômade da família. Com apenas um ano, Soledad enfrentou o seu primeiro. Aos 17, em mais um exílio, dessa vez no Uruguai, Soledad foi sequestrada por um grupo neonazista e teve suas duas pernas marcadas com a suástica, através de uma navalha. Ela negou-se a gritar palavras em saudação a Hitler. E por isso sofreu essa brutal violência.

Soledad Barrett morou no Recife, onde foi assassinada grávida pelos agentes da repressão. Traída pelo Cabo Anselmo

Não se intimidou. Ao contrário, dedicou-se mais ainda à militância. Viajou para Moscou, a fim de estudar teorias comunistas, que naquela época eram uma utopia para países oprimidos por ditaduras de direita e pelo imperialismo. Depois de um ano foi novamente para a Argentina e em seguida para Cuba, onde treinou táticas de guerrilha. Casou e teve sua única filha, antes de vir para o Brasil, onde atuaria contra a ditadura, ao lado de jovens que sonhavam com o fim da opressão, da censura e da perseguição política, apelando para a luta armada. Tudo isso é só para traçar um perfil de Soledad, uma das muitas mulheres que foram torturadas e assassinadas, porque eram consideradas “subversivas”. Elas lutavam pelo restabelecimento da democracia. Toda essa “introdução” é só para dizer que a história da militante ganhou os palcos da Espanha com o espetáculo  Soledad – A terra é fogo sob nossos pés.  A iniciativa é de um grupo pernambucano.

A peça foi montada pela primeira vez há sete anos, quando circulou pelo Brasil e  passando por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo. Depois, teve encenações em capitais como Montevidéu (Uruguai), Assunção (Paraguai) e Havana (Cuba). Em mais uma circulação internacional, dessa vez pela Espanha, o público teve oportunidade de conferir ao longo do mês de outubro oito apresentações do espetáculo em cidades como Madrid, Santander, Bilbao, Oruña de Piélagos, Cabezón de la Sal e Torrelavega.  Além das apresentações, o Grupo Cria do Palco – responsável pela obra – ainda participará de debates sobre arte, militância e a conjuntura política do Brasil, a convite de organizações locais. Em 2023, as apresentações chegam à Argentina. A dramaturgia do espetáculo surge a partir da cronologia da personagem, alcançada através de pesquisas de campo, músicas da época, poesias (muitas de ex-presos políticos), cartas, entrevistas sistemáticas, acesso a documentos e o contato com familiares. Especialmente com as parceiras do projeto, Ñasaindy e Ivich Barrett (filha e neta de Soledad, respectivamente).

Ñasaindy, por sinal, além de ter contribuído para esse processo de pesquisa, ainda assina a identidade visual do espetáculo, que tem cenários sombrios como sombria foi a sua vida.  Ñasaindy cedeu uma de suas composições para a trilha sonora do espetáculo. Também integra, como debatedora fixa, a equipe base de circulação da obra. Após o término de todas as apresentações a produção realiza debates, geralmente com temas que envolvam o ativismo artístico encampado pelo grupo. A peça tem duração de uma hora. E é encenada pela atriz pernambucana e idealizadora do projeto, Hilda Torres. A direção é da atriz e diretora, que nasceu na Argentina, mas foi ainda pequena para São Paulo, Malú Bazán. As duas são responsáveis pela construção da dramaturgia, que toma fôlego a partir de uma costura entre diversos instrumentos de pesquisa e obras poéticas, que datam de 1904 até a contemporaneidade A narrativa traça um ousado “diálogo” entre o passado e o presente, nos levando a perceber que as coisas não mudaram tanto assim. A turnê pela Espanha começou em 13 de outubro, em Torrelavega (onde nasceu o avô de Soledad) e termina nessa segunda-feira (24/10), em Madri, no Espaço Lá Parceria.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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