Boa ação: Musical “Maria e outras Marias” destina renda para catadoras

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Criado em 2022 pelo maestro Flávio Medeiros  – e com passagens por palcos de países como França, Suíça, Estados Unidos, assim como em festivais de prestígio, como o Mimo e Virtuosi – o Grupo Contracantos ocupa o palco do Teatro do Parque às 20h da sexta-feira (29/8), com o espetáculo “Maria e Outras Marias”, que inspira muitas reflexões. Elas vão das nuances envolvidas na figura bíblica de Maria (mãe de Jesus) à invisibilidade na sociedade contemporânea de uma das tantas “marias” do povo, retratada através de uma catadora de lixo.

O espetáculo conjuga teatro, poesia, música erudita e popular no tributo ao feminino. E estabelece a ponte entre o percurso da Maria bíblica e as mulheres reais da atualidade. Tudo isso em três atos, divididos entre o chamado à maternidade (Anunciação); a romaria pela missão sagrada (devoção); e a vida das mulheres comuns, em uma comunidade de morro. Neste caso, uma alusão em forma de tributo também à religiosidade do Recife e do Morro da Conceição, palco de festas, arte popular e rituais dedicados à santa homônima. A Maria cênica é uma catadora do lixão surpreendida pela visita de um inusitado “anjo moderno” – de perfil andrógino, moletom e fone de ouvido – com o anúncio da maternidade.

“A gente queria fazer essa analogia com uma catadora, que tem zero visibilidade. Ela questiona: ‘Ninguém me perguntou isso, eu tenho mãe, filho para cuidar’, e o anjo diz que ela não estaria sozinha”, observa Matheus Soares, coordenador-geral ao lado de Yasmin Menezes. “É uma homenagem e uma provocação à necessidade de atenção às diversas mulheres na sociedade. Mulheres comuns, como nossas esposas, mães, avós, irmãs, que têm o seu papel e isso passa muito despercebido”, completa.

Entre as músicas escolhidas, claro, muitas “marias”. Vejam algumas delas: “Ave Maria” (de Franz Liszt, Biebl, KevinMemley); e versões brasileiras como “Ave Maria Sertaneja” (Luiz Gonzaga), “Maria, Maria” (Milton Nascimento), “Ave Maria do Morro” (de Herivelto Martins), por “Maria, Maria” (Milton Nascimento), e “Lata d’água” (Luís Antônio e Jota Júnior). “Com lata d’água na cabeça, é contada a história de uma Maria que trabalha no morro levando água na cabeça para lavar roupa e termina com ‘Maria, Maria’,  para representar mulheres sinônimos de força, garra, coragem, luta”, explica Matheus.

O musical ambienta a trama em um lixão fictício da periferia recifense para realçar o apagamento típico e mais incidente sobre mulheres das camadas menos abastadas. E faz uma metáfora ao renascimento feminino rotineiro através da referência à reciclagem. Por esse motivo, a cenografia é montada com material de descarte (garrafas, plásticos, latas, pneus) recuperado pelas trabalhadoras da Associação dos Catadores de Pernambuco, entidade destinatária de toda a renda obtida com a venda dos ingressos – a R$ 15 (inteira) e R$ 7,5 (meia), disponíveis no site e aplicativo do Guichê Web. 

A protagonista é interpretada pela atriz Pollyana Monteiro, também diretora cênica do espetáculo, e construída sob perspectiva humanista de resiliência diante de adversidades recorrentes à mulher. O espetáculo é incentivado pelo SIC, da Prefeitura do Recife. Tem figurino assinado por Marcondes Lima; direção de arte, Paulo Michelotto;  arranjos musicais, Lucia Helena Cysneiros; direção musical e regência, Flávio Medeiros. O embrião artístico para a realização do musical remonta a 1996, quando conheceu as o poema de Genserico Jr. sobre a “Ave Maria”. O projeto hibernou por 30 e agora  motiva reflexão atemporal e necessária sobre o papel e os dilemas enfrentados pela mulher – de ontem e de hoje, de todas as Marias.

Nos links abaixo, mais informações sobre teatro, projetos culturais e cultura popular envolvendo mulheres ou temática feminina.

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SERVIÇO
Musical Maria e Outras Marias, do Contracantos
Onde: Teatro do Parque (Rua do Hospício, 81, Boa Vista, Recife)
Quando: 29 de agosto, às 20h
Quanto: R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia), à venda no Guichê Web (www.guicheweb.com.br) – a renda será revertida para a Associação dos Catadores de Pernambuco.
Produção: 25 produções
O espetáculo conta com apoio do Fundo de Incentivo à Cultura, do Sistema de Incentivo à Cultura, da Secretaria de Cultura do Recife.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Morgana Narjara / Divulgação

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