Não sei como definir o que aconteceu com esse chalé, que fica no Espinheiro. Seria um atentado estético? Uma violência arquitetônica? Não sou do ramo, mas diria que ocorreram as duas coisas. Fico muito triste quando vejo reforma que ignora suas características originais mais graciosas do imóvel: as janelas, os tijolos maciços antigos, os cada vez mais raros lambrequins, antes tão comuns nas ruas do Recife. Está ficando tudo muito “quadrado”, como tão bem definiu o cantor João Gomes, ao rejeitar os projetos arquitetônicos que lhe ofereceram para ocupar dois terrenos em um condomínio do Alphaville. Ele queria uma casa ampla, com alpendre, daquela que lembram as de fazenda, de interior. Nenhum projeto que lhe foi apresentado, agradou.
Realmente, está ficando tudo muito igual, tudo muito cinza, tudo muito sem cor. Triste demais. No Recife, acontece algo parecido. Casas antigas são tomadas por reformas que nada dizem do passado dos imóveis nem da cultura do lugar. As vítimas mais recentes são os chalés, que já foram tão presentes na paisagem da cidade e que, sinceramente, deveriam se transformar em imóveis especiais de preservação (IEPs) porque fazem parte das memórias, inclusive afetivas da população. Mas o que a gente vê por aí é chalé sendo demolido, cercado de espigões, descaracterizado ou mesmo “modernizado”. Para pior, claro… Porque, infelizmente, é o que sempre acontece, em vários bairros da cidade. Inclusive no Centro, onde o antigo casario de ruas como Nova e Imperatriz é tapado com placas, os andares térreos – onde ficam as lojas – sofrem reformas que viram, na verdade, um mar de poluição visual. Verdadeiros atentados estéticos.
Esse imóvel da foto acima sempre me chamou a atenção pela graça, pelo colorido, pela preservação da arquitetura original. Não lembro, também, de um outro chalé no Recife em tijolos aparentes, como esse. O imóvel fica na Rua da Hora, no bairro do Espinheiro. Costumava observá-lo e até o fotografei há algum tempo, porque curtia sua beleza. Lembro que já abrigou loja de sapatos e outros tipos de comércio. Por fim, um bar, restaurante, lanchonete não sei, pois nunca me preocupei em saber qual era o seu último de uso. Só o contemplava.
Na última vez que andei pela Rua da Hora, estava de portas fechadas e com sinais visíveis de deterioração, por conta da falta de uso. Pois vejam como está agora (na foto abaixo), para sediar um novo tipo de comércio: os saudáveis tons de terra e barro dos tijolos aparentes foram substituídos pelo cinza. Nem um pouco alegre. O amarelo, tão luminoso, também “cinzentou”. E as janelas antigas com seus postigos agora são vidraças. Uma pena.
Pare um pouco o que você está fazendo e comtemple as duas fotos. Depois, compare o antes e o depois. O que você achou?

Na minha observação, entendo como uma violência, infelizmente. Pois o imóvel era remanescente dos tempos em que os chalés dominavam a paisagem no Recife. E o em questão, era muito curioso, pois foi construído em dose dupla, o que não é comum nesse estilo de casa. Sim, os lambrequins, que tanta graça atribuíam a esse tipo de construção também sumiram. Foram substituídos por um “lambrequim” moderno, sem recortes, e sem a leveza do anterior. E também cinza. Ou seja, o chalé, perdeu o charme do colorido anterior e virou monocromático, quase da cor do concreto das calçadas e do asfalto. Ou seja, tudo igual e triste.
Como costumo andar muito pelas ruas dos bairros e do centro do Recife, fico impressionada com essas mudanças que, sinceramente, acho que não contribuem muito para a beleza da cidade. É certo que há, ainda, chalés preservados, mas estão cada dia mais raros. Há algumas empresas que mantêm esse tipo de construção, explorando a beleza original. Também há aquelas que preservam casarões antigos, mesmo que com novos usos. Outras, mudam tudo e, às vezes, para pior. Um exemplo disso pode ser visto na Avenida Dezessete de Agosto, em Casa Forte. De um lado, os velhos casarões que tiveram a arquitetura original preservada e valorizada. De outro, umas “adaptações” que deixam a desejar, com a paisagem sem a antiga e tão bonita identidade, substituída por fachadas quase todas iguais e “quadradas” como reclamaria o cantor João Gomes.
Está certo o cantor pernambucano em levantar esse assunto. Nem tudo que é moderno é bonito e confortável.
Nos links abaixo, mais postagens sobre os antigos chalés do Recife.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

Qual dancinha vão fazer os “gênios da PCR” para justificarem os crimes contumazes contra a História Patrimonial da Engenharia e Arquitetura do Recife desde sua Formação Histórica como Cidade? Não adianta entrar em contato com a Câmara Municipal do Recife ou os Organismos de Fiscalização do Judiciário, eles vão rir dos trouxas moradores do Recife que assistem impotentes e silentes, com medo do Judiciário, que pode chamarem essas críticas como ” Violenta Abolição do Estado de Direito e da Democracia” .A Memória Iconográfica, Legal e Institucional da Cidade do Recife vivia no subsolo do Edifício Sede da PCR, colada a antiga Microfilmagem que foi o primeiro passo da Formação e Catalogação Documental do Recife em sua História Geral. Depois que o PT e PSB se revezando no Comando do Município, em quase 25 anos de sociedade e cumplicidade violentaram a Cidade e consolidaram a Desertificação Econômica, Social e Financeira da Cidade, ninguém na PCR sabe dizer onde se encontram esses Arquivos. Se eles não respeitem nem a Lei Orgânica do Município a Constituição da Cidade, sua lei Maior, como eles irão reger seus atos nas intervenções macabras que o morador assiste envergonhado e triste? O momento é tão vergonhoso que nesta terça feira dia 09 de dezembro deste 2025 , passando pela Ponte da Torre, testemunhei servidores municipais caiando, isso mesmo, caiando as balaustradas daquela ponte, me lembrando das Cidades do interior profundo que passam “cal” em calçadas para festejar o Natal e o Ano Novo e todos elogiarem as iluminações e o brilhar da “cal” com o reflexo das luzes penduradas em postes quase caindo nas ruas de nosso Estado. Sem Pão e com muito Circo, a Cidade clama o respeito e dignidade a sua Vida na História do Brasil e grita nesta solidão coletiva de Homens e Ideias, tentando salvar o que resta da Cidade do Recife.
Mais um absurdo sem tamanho amiga Letícia! Ainda bem que temos você para alertar desses abusos. Parabéns pelo texto e pelo belo trabalho.
Um horror!
Aliás ,não sei o que está acontecendo com a nossa arquitetura ,que deixou um grande legado como o chalé citado na matéria e outras edificações de imensa beleza.
Hoje ,todos os projetos obedecem à mesma “tendência “( termo da moda e insuportável),padronizados,sem estilo,sem vida e sem beleza.Todos ,sem exceção, à base de granito,porcelanato,vidro e fachada tipo WC.Ou seja,todos os ingredientes de péssimo gosto tão aclamados pelas construtoras que conquistam corações e mentes da população de todas as classes.A arquitetura está em crise criativa,sem projetos autorais ou rendida incondicionalmente aos interesses das imobiliárias que são um braço forte no ” planejamento da Urbe”…