Parem de derrubar árvores. Luta contra desmatamento inspira arquitetura

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A luta de mulheres seringueiras contra o desmatamento na Amazônia inspira a arquitetura. É que o Pavilhão Casa Empate é um dos destaques da  primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, que  está aberta ao público desde a última sexta-feira, 27/3, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Trata-se de uma justa homenagem às mulheres seringueiras que participaram dos “empates”, como eram chamados os movimentos de resistência pacífica contra o desmatamento da floresta, especialmente nas décadas de 1970 e 1980.

O Pavilhão Casa Empate foi desenvolvido pela arquiteta e urbanista acreana Marlúcia Cândida, com apoio do arquiteto e designer Marcelo Rosenbaum. Os “empates” surgiram com o avanço da pecuária sobre a Amazônia, quando comunidades extrativistas passaram a ser expulsas de seus territórios. Para impedir os arboricídios, seringueiros se organizavam em grupos e se colocavam diante das árvores e da motosserra insana, em ações coletivas e não violentas. Liderado pelo seringueiro e ativista Chico Mendes (1944-1988), o movimento ganhou projeção internacional e se tornou um marco na luta ambiental no Brasil. Mendes inclusive foi assassinado pelo seu ativismo em defesa da floresta. Com o agravamento dos conflitos e o alto índice de mortes entre homens seringueiros, as mulheres passaram a ocupar papel ainda mais central nesses atos, muitas vezes à frente das mobilizações, ao lado de suas famílias.

Em encontros tensos com policiais e jagunços, essas mulheres se colocavam com suas crianças à frente e recorriam a estratégias pacíficas, como o canto do Hino Nacional, ajudando a consolidar a resistência nos territórios. “A gente ia para a mata sem saber o que podia acontecer, mas sabia que precisava defender nosso lugar. A floresta era nossa casa”, relembra Emília Campos, Representante da Comunidade Seringueira da Cachoeira, no Acre.

Empate:  Criada no Acre, Marlúcia se inspira na luta contra o desmatamento. Na foto, com Marcelo Rosenbaum

O projeto de Marlúcia e Marcelo foi concebido como uma arquitetura-manifesto, e recria o interior de uma casa inspirada nas residências tradicionais dos seringueiros, evidenciando a relação com o território e o protagonismo feminino no cotidiano da floresta. Com 113 m² e estrutura em madeira, o projeto incorpora soluções como banheiro pensado como um ambiente integrado ao uso no meio natural, além de reunir elementos que retratam o dia a dia das mulheres, como utensílios de cozinha, peças de costura e objetos ligados ao cuidado e à vida doméstica. A proposta reflete a trajetória de Marlúcia Cândida, que cresceu no Acre e teve contato direto com esse modo de vida desde a infância.

Durante o mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília, a arquiteta aprofundou essa relação em uma pesquisa de campo em reservas extrativistas da Amazônia, onde conviveu com comunidades locais para estudar a arquitetura vernacular da região — trabalho que deu origem ao livro “A colocação e a casa do seringueiro: exemplo de arquitetura vernácula da Amazônia”, que será lançado ainda neste ano e inspira a exposição. Arquitetura vernacular é método construtivo tradicional, nativo e local que utiliza materiais da própria região, como terra, madeira, palha. “Essa é uma memória que faz parte da minha formação. Eu cresci vendo essas casas e essa relação com a floresta”, afirma ela. “O pavilhão traduz essa vivência em espaço e homenageia mulheres que tiveram papel fundamental na defesa da floresta.”

Todos os elementos decorativos remetem à cultura amazônica: paisagens, cestarias, estética indígena

O #OxeRecife indagou aos responsáveis pelo projeto qual a madeira utilizada no  Pavilhão Casa Empate. Se é originária de áreas reflorestadas, se a empresa fornecedora tem selo verde. Aguardando retorno. Chegando, esse post será atualizado. Abaixo, algumas reportagens da série “Parem de derrubar árvores”, mostrando supressões em várias áreas do Brasil. A série é voltada para o Recife, mas também registra informações ou flagrantes em outros estados.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação / Bienal de Arquitetura

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