Livro: “A estrada dos homens doidos” inspira-se em eclipse dos anos 1940

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Quem nasceu no século passado, principalmente no final dos anos 1940 e começo dos anos 1950, com certeza, lembra de histórias contadas pelos pais ou avós, a respeito de um eclipse que ficou na memória da população. Lembro que, naquele tempo, quando a cidade ainda não havia se verticalizado e os quintais pareciam pomares, as famílias costumavam ter algumas galinhas no terreiro para produção de ovos e consumo familiar. Meus avós não fugiam à regra.

E lembro que minha mãe relatava que “as galinhas ficaram baratinadas” e subiram no poleiro para dormir, pensando que era noite,  “porque o dia escureceu de repente”. O fenômeno da natureza foi observado  com muita nitidez no Nordeste, principalmente na Paraíba, no Ceará e em Pernambuco. No interior do nosso estado – Zona da Mata e Sertão – a escuridão repentina provocada pelo eclipse foi vista com pavor e misticismo, pois muitas pessoas achavam  que a noite repentina e fora de hora era o aviso do juízo final.

É desse  encontro (ou desencontro?) dos astros  que o escritor Rafael Setestrelo (pseudônimo de Rafael Augusto Costa Oliveira) extraiu inspiração para o livro  “A estrada dos homens doidos”, que será lançado a partir das 19h30m dessa sexta-feira (20/3), no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão. O título é mais um da Cepe (Companhia Editora de Pernambuco). Autor de pelo menos 15 publicações – entre romances, cordéis, peças e poemários – o autor transita pelo realismo  mágico,  mas foi em uma verdade bem próxima que se baseou para escrever seu livro mais recente.

As reações das pessoas do interior a uma eclipse do século passado inspira livro “A estrada dos homens doidos”

É que entre os que protagonizaram o “eclipse do fim do mundo”, estavam o seu avô (Urbano de Souza Costa, o Pirrito), o irmão José (tio avô de Rafael), e um amigo. Eles haviam saído do município de Glória de Goitá rumo a Limoeiro, em uma caminho de mais de 20 quilômetros, para negociar na feira. Mas no meio da estrada, próximo à Serra de Passira, vivenciaram uma experiência extraordinária. De repente, o dia virou noite, fato considerado como sobrenatural pelo trio. Rafael – como muitos de sua geração – cresceu ouvindo esse relato durante toda a infância, o que alimentou a sua imaginação e fabulação. Conta no livro:

“É dia de eclipse. Do quê? Ouvi falar que era hoje. Acho melhor a gente parar por aqui um tantinho. Sim.  A gente fica vendo. É coisa de menos de dez minutos.  E tá ficando escuro mesmo. É capaz das galinhas terem ido para o poleiro lá em casa. E não é que ficou escuro mesmo. Febretife! Doidice bonita. Noite durante o dia. O sol vai subindo e a lua tá meia por lado. Daqui a pouco desengata isso. É coito de cachorro? Parece…  …A lua nova se atrasou tanto que o sol pegou ela ali. Parece uma verruga. Toda preta. A luz do sol está atrás dela… Não tem nem canto de passarinho por aqui. Estrada dos homens doidos! Já disse isso. Não precisa repetir. Mas, oxe, está com medo? ” 

Noves fora os relatos de família, o resto   é criação do autor. “O eclipse aparece como um divisor de águas da história, algo que pudesse mexer com os personagens, revelando o que estava  escondido”. No livro, os personagens fictícios da “viagem” chamam-se Rubem, José e Judá.  São três irmãos  que se  reencontram rumo a Limoeiro, para participar de um velório. Na estrada,  mística e assombrosa, enfrentam  o eclipse, ao mesmo tempo que passam suas vidas em revista, trazendo à tona memórias de um passado marcado por culpas, ressentimentos, traições e o temor um pai rude e violento (Israel),  diante de uma mãe  (Lia) oprimida e silenciada. Durante o lançamento, em Vitória – cidade a 51 quilômetros do Recife – haverá uma conversa do autor com o escritor e  crítico literário Marcos de Andrade Filho.

Rafael é escritor, cordelista, ator, professor de Língua Portuguesa e rabequeiro. Filho e neto de agricultores, nasceu em Vitória, onde mantém o projeto LiterAtos, junto aos seus alunos, no ensino público. O projeto estabelece diálogo entre a Literatura e manifestações populares, como o mamulengo, o maracatu e o cavalo-marinho. Tem dois prêmios literários.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação e redes sociais

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