História de Janete Costa em livro

Conheci Janete Costa (1932-2008) durante uma entrevista, quando trabalhava no Jornal do Brasil, então importante veículo da imprensa nacional. Fiquei impressionada com sua eloquência, com seus conceitos, com o uso então pouco usual de certos objetos na decoração, como cavalos de carrossel e peças de barro então não muito usuais nos ambientes domésticos de famílias abastadas. Lembro-me que havia duas palavras que ela usava com insistência: autóctone e atávico. E porque ela usava tanto as duas expressões? Porque ele gostava de tudo que era raiz.

E principalmente de valorizar o artesanato da terra não só pernambucana, mas nordestina e brasileira. Foi conversando com Janete que travei conhecimento, pela primeira vez, com os móveis de Euclides, com objetos de palha domésticos com o trançado  dos covos de pescar lagosta, e com o uso de cestas de palha de carnaúba, belíssimos, que eram usados como lixeiros no Piauí. Também foi com ela que conheci os santos de Benedito, os barcos e painéis de Nhô Caboclo, os santeiros de Ibimirim. Agora a história da pernambucana de Garanhuns pode ser melhor conhecida por todos nós. É que a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) acaba de lançar o livro Janete Costa- Arquitetura, Design e Arte Popular.

Janete fez escola em Pernambuco. Hoje há toda uma geração de arquitetos que se inspiram nos seus ensinamentos. Ela ficou conhecida por inserir em seus sofisticados projetos de interiores a junção perfeita entre arte popular e erudita, aliado ao design pós-modernista, agregando várias épocas a um mesmo ambiente. Mas Janete fez muito mais: foi colecionadora de arte popular, designer de móveis e objetos, curadora.

Foi vanguardista no incentivo à economia criativa ao trabalhar em conjunto com artistas populares, contemporâneos e artesãos; ensinou as classes altas brasileiras a valorizar suas raízes em detrimento ao que vinha da Europa. Também inseriu plantas tropicais nos ambientes quando ninguém falava em valorizar o verde. E criou projetos ousados, para de instituições de estética conservadora como a Justiça. A maior parte dos projetos eram desenvolvidos em parceria com o marido e ex-professor, Acácio Gil Borsoi, outro grande nome da arquitetura brasileira (foto em preto e branco). Muitas vezes ele projetava os prédios. E ela planejava os seus interiore.

Lembro-me que, certa vez, ela fez um projeto inovador para o Tribunal de Justiça do Piauí, moderníssimo. Desembargadores e juízes, no entanto, se chocaram com a nudez do concreto dos seus equipamentos e terminaram por “poluir” o ambiente com veludos e brocados, descaracterizando o seu trabalho, tão original. Sobre isso também fiz uma reportagem. Infelizmente, ela ainda não tem o devido reconhecimento nem no Brasil, nem no exterior. “Talvez por ser mulher e nordestina, uma combinação ainda muito subestimada no meio arquitetônico nacional”, acredita o crítico, jornalista e escritor Júlio Cavani, um dos autores do livro. A obra vem para mostrar a contribuição técnica e estética do trabalho de Janete através de um rico material fotográfico e de textos críticos, em inglês e português.

Os textos são assinados também por Adélia Borges, Lauro Cavalcanti, Marcelo Rosenbaum e Marcus LontraO lançamento oficial foi no dia 25 de março, em live no canal da Cepe Editora, com a participação de Adélia Borges, Júlio Cavani, da arquiteta e filha de Janete, Roberta Borsoi, e do editor da Cepe, Diogo Guedes. Mas nunca é tarde para lembrar essa extraordinária figura e grande profissional. “São ensaios que se aprofundam no legado de uma das maiores arquitetas de Pernambuco. O volume busca não só valorizar a produção de Janete Costa na arquitetura de interiores e no design, mas também refletir, mostrar os caminhos que ela percorreu e abriu. Além disso também ressalta a sua parceria com a arte e os artistas populares, em uma curadoria que ampliava o alcance e o potencial deles”, declara Diogo Guedes.

A crítica, historiadora de design e curadora Adélia Borges escreveu que, para Janete, nascida no município de Garanhuns, ser brasileira foi decisivo como norte de sua atuação. “Daí decorreu uma ação determinante em valorizar a criação popular do Brasil, e a procura contínua por induzir a inclusão social através de seus projetos”. Ao abrir espaço para a criação popular, Janete Costa estava expressando a cultura de seus clientes e os ajudando a valorizar suas raízes. O caminho foi difícil pois, como lembra Adélia, “a criação popular era associada, em princípio, à pobreza, algo que se quer apagar, esquecer, superar”. Desbravadora do mundo, Janete viajava tanto pelo Brasil em busca de artesãos como pela Europa à procura do que havia de mais cosmopolita. Nessa caminhada descobriu que o Nordeste é muito mais rico em quantidade de mestres artesãos devido à influência dos contrastes sociais. Precisava desse contraste.  “O contraste não é só na cor, na proposta; é também no comportamento, no sentimento. Uma parte feita à mão humaniza o espaço. Porque você terá dentro desse espaço o elemento técnico, o elemento industrial, e também o elemento emocional”, disse a própria Janete, em entrevista a Adélia, para uma revista italiana.

Janete foi vanguardista ao pensar em interação com a natureza dentro de casa quando ninguém se importava com isso, e ao afirmar que o ponto de partida de industriais e designers brasileiros para a criação de peças com identidade própria deveria ser o nosso artesanato. Desde os anos 1960, a arquiteta projetou centenas de residências e dezenas de hotéis, onde inseriu seus trabalhos com vários materiais como granito, mármore, vime, vidro, madeira, metal, tecidos, acrílico. Criou uma linha de móveis de madeira desmontáveis e modulados que batizou de Senzala. Foram também mais de 50 expografias e curadorias de exposições que Janete assinou, sendo a maior parte em torno da arte popular. O livro custa R$ 100 (impresso); R$ 40 (E-book)

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Cepe / Divulgação

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