O artista plástico Cavani Rosas já levou a pecha de “panfletário” e “maldito”, por conta do conteúdo dramático do seu trabalho, normalmente marcado por figuras com corpos castigados, e expressões de fisionomia que transitam entre a angústia e o desespero. Com forte conteúdo político, os personagens de sua arte tanto podem ser um trabalhador rural com a enxada sob sol causticante, quanto um homem na cidade, segurando um rato e fitando o animal como se quisesse com o roedor matar a fome.
Claro que o trabalho dele não se reduz a isso, pois também já retratou a riqueza de nossa cultura popular, não só nos seus quadros como até mesmo em esculturas gigantescas. Mas as figuras deformadas pelo peso da fome e problemas sociais sempre foram o forte de seu histórico artístico. O fato triste é que, nas últimas semanas, ele tem feito uma triste constatação. “Sempre explorei a pobreza como conteúdo político, como forma de denunciar a nossa realidade social”, diz. “O problema é que trabalho há 53 anos e a miséria nunca acaba”, reflete. O artista chocou-se no Teatro do Parque, quando um homem em situação de rua entrou no recinto, posicionando-se um pouco antes da bilheteria da secular casa de espetáculos. “Ele estava muito sujo, rastejando como um lagarto pelo chão, levantando a mão e pedindo dinheiro”, conta. Mas não era só ele. “Alguns noiados estavam entrando e se arrastando do mesmo jeito, no hall do teatro”.
O artista diz que “essas imagens desde aquele dia permaneceram na cabeça”. Provavelmente as pessoas que ele viu estavam sob efeito de excesso de drogas, quando ficam parecendo zumbis. Várias pesquisas realizadas no Recife mostram que a população que vive ao relento, em praças, dormindo sob marquises ou em calçadas, fazem uso sistemático de algum tipo de droga. A última que foi divulgada pela Prefeitura (a Censo Pop de Rua) indicou que 37 por cento dos moradores de rua consumiam drogas diariamente. Enquanto 27,3 por cento o faziam uma vez por semana.
Não há dados oficiais de 2025. Na semana passada, o artista foi dar um passeio no bairro do Recife, em área turística e muito frequentada. Defrontou-se com nova cena triste, como muitas – aliás – que a gente vê pelas ruas da cidade: uma mulher, posicionada entre as barracas da feirinha dominical que ali acontece. Ela estava sentada ao chão, com um cartaz em papelão, desses que a gente costuma ver em esquinas, sinais de trânsito, cruzamentos: “Eu estou com fome”.

Ou seja, a miséria persiste e muito. O que mostra que os trabalhos sociais – de instituições públicas e grupos privados – não têm sido suficientes, para melhorar ou recuperar a vida dessas pessoas, grande parte com a situação agravada pela dependência química. Infelizmente, em muitos casos, o uso de drogas tem a ver com a situação de rua e a pobreza. Com o vício, muitos que vivem nas ruas foram antes rejeitados pelas famílias. E as áreas públicas estão povoadas deles. Tanto é assim, que há locais do Recife que vêm sendo chamados de “cracolândias” pela população, como ocorre com a Praça Maciel Pinheiro, as imediações do Mercado da Encruzilhada e até mesmo em áreas sofisticadas do Recife, como a Rua da Hora, no bairro do Espinheiro.
A pobreza no Brasil é bem mais ampla. Não se limita apenas ao Recife. Mas, pelo menos, ela vem se reduzindo, informa pesquisa divulgada hoje pelo IBGE, segundo a qual a pobreza atinge atualmente o menor nível registrado desde 2012 no país,quando o percentual chegava a 27,3 por cento. Conforme o estudo, 23,1 por cento dos brasileiros ainda vivem na linha de pobreza, enquanto 3,5 por cento estão em situação de extrema pobreza. Isso significa que um em cada grupo de quatro brasileiros estão pobres. Ou seja, ainda há um longo caminho a se percorrer no país, no nosso estado e na cidade.
Nos links abaixo, você confere outras informações sobre pobreza e moradores em situação de rua.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Cavani Rosas e Letícia Lins (reprodução de quadro de acervo particular)
