Vida na rua, praça, rede e droga

No decorrer  desta semana, tratei de conversar com alguns moradores de rua, cuja situação se agravou bastante a partir da pandemia. Com a cidade vazia – durante a fase mais rígida do isolamento social – muitos ficaram sem ter como viver de pequenos biscates que lhes garantiam o sustento. Alguns não tiveram mais como pagar aluguel de seus barracos. Em uma volta pelo centro do Recife, fica fácil observá-los em calçadas, praças, marquises, portas de igrejas. E em quantidades bem maiores do que antes da Covid-19.  Mas por trás de cada história de vida, há quase sempre um motivo comum que os levou à situação de rua: a droga.

De quatro com os quais conversei, três a indicaram como o fator que detonou a dura realidade vivida por quem não tem teto. Quem for eleito prefeito do Recife – seja de que partido for – vai ter que saber que dar abrigo só não resolve. É preciso entender esse público, conhecer seus dramas e prestar assistência e não fazer, simplesmente, o assistencialismo. Ouvi-los, saber suas demandas e saberes. Os dramas não são poucos. Segundo a Coordenadora da Pastoral do Povo de Rua, Maria do Socorro Matos Soares, pelo menos 90 por cento dos sem teto que vivem a vagar pelas ruas do Recife têm ou já tiveram algum problema com as drogas. Lícitas ou ilícitas: álcool, maconha, crack.  Uns como usuários, outros chegaram a traficar e  há até aqueles que dizem ter saído de casa, ao descobrir que a companheira vivia do tráfico. Caso de Willy Galdino, morador da Praça Osvaldo Cruz, com direito a barraca e rede sob as árvores. A Praça virou sua moradia e seu espaço.

Veja alguns depoimentos:

Jailton José dos Santos, 44, Coordenador do Movimento da População em situação de rua –  “Cheguei na rua em 2009. Tudo por conta do vício. E há dois que mais arrasam o ser humano, o álcool e o crack. Rompi com a família aos 29, por conta da convivência difícil, devido à droga. Fui expulso de casa e descobri que a rua é viciante, porque dá a sensação de liberdade. Mas uma liberdade que termina virando um aprisionamento. Na rua, me virei com pequenos furtos, como flanelinha, pedinte, para suprir minhas necessidades”, diz.

Ele não se sentia bem, quando fazia os furtos. “Mas quando tirava de alguém dava remorso. De repente, me senti abandonado e entrei em depressão, que eu pensava ser doença de gente rica. Fiquei agressivo,  sem empatia com os outros, como  a maioria das pessoas que vivem nas ruas. Chorava muito. Tinha ímpeto de me matar. Até que descobri o Centro de Atenção Psico Social – Caps, onde fui medicado. Um dia, disse ao médico que o atendia: “Dr, não quero uma droga em cima de outra, mas deixar a droga”. E resolveu lutar: “Eu mesmo fiz meu desmame”. Já reatou com a família, e aprendeu o ofício de marceneiro. Morava com um amigo, que era tão viciado quanto ele no passado. Um dia, ao chegar em casa, o colega tinha vendido todos os seus equipamentos de marcenaria, para comprar droga. Jailton ficou sem ter como sobreviver. E voltou para a rua.  Hoje defende os interesses dos sem teto.

Joceildo Ferreira da Silva, 48 – Sertanejo do Rio Grande do Norte, Caicó – como é mais conhecido – também era dependente químico. Para sustentar o vício, terminou começando a traficar para ganhar algum dinheiro. Foi aí que o bicho pegou. “Na minha cidade, me envolvi  com o tráfico e passei a receber ameaça da facção rival, aí tive que sair de lá para não morrer”. Em Pernambuco, passou por clínicas públicas ou filantrópicas para atendimento a dependentes químicos. E diz “estar controlado”, embora reconheça que de vez em quando enfrenta “umas recaídas”.

Joceildo não se adaptou ao albergue noturno oferecido pela Prefeitura no Recife. E hoje mora em quitinete que lhe foi arranjado pela Arquidiocese de Olinda e Recife, através da Pastoral  do Povo da Rua. Faz bicos nas ruas da Capital, para enviar dinheiro para a esposa, que está muito doente no interior do seu estado. Conheci Joceildo e Jailton em encontro com moradores de rua, na Igreja Santa Cecília, na Rua da Conceição, na Boa Vista. Às quartas, os sem teto se reúnem com a Pastoral, para discutir deveres, direitos e formas de se organizar.

Willy Galdino Gonçalves, Mestre Willy  – Ele mora há cinco anos na Praça Osvaldo Cruz. Não tem vontade de morar em albergue oficial. “Esse negócio de muita gente só em um canto não presta não”. Seu sonho é ter um teto. Ou ganhar um pequeno terreno, onde possa construir o seu barraco. Instrutor de capoeira, ele diz que essa é a atividade que o sustenta. “Dou aulas de capoeira aqui, sempre aparece alguém querendo aprender”. A praça transformou-se em sua casa: quarto, na sua cozinha, na sua oficina de artesanato”.

E, principalmente, salão de aulas para capoeira.  Os troços e tralhas espalhados infelizmente contribuem para aumentar a degradação do espaço. Articulado, Willy recolheu assinaturas em 2019, para não sofrer “constrangimento” nem “represarias” (represálias)  da Prefeitura, para continuar com o seu “Projeto Mediuno”, para dar aulas de capoeira no local. Galdino acha que ali é mesmo a sua casa.  O problema é que praça não tem dono. É área para lazer da população e não para moradia. Ele diz que foi morar na rua, quando descobriu que sua companheira traficava pedras de crack. Rompeu com ela. E para evitar qualquer envolvimento com a ação criminosa da mulher, saiu de casa.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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