Quitinetes para morador de rua

Até o momento, nenhum candidato a Prefeito do Recife informou que política adotará para abrigar a população de rua. O Recife tem um déficit habitacional superior a 70 mil moradias, o qual se refere a habitações em condições precárias (como palafitas). Mas não dispõe de números exatos sobre homens, mulheres e crianças que moram nas calçadas, sob as marquises e até em bancos de praças. São os sem teto, os invisíveis dos invisíveis que não constam, sequer, nos censos do IBGE.  Se estatísticas atuais não existem, o problema se agravou até onde a vista alcança, nesses tempos de pandemia. Pelo menos no Recife. É só dar uma volta pela cidade, para ver a situação de praças – como a Maciel Pinheiro, Independência e Osvaldo Cruz – e de ruas como a Imperador Pedro Segundo e o Cais de Santa Rita.

Até o momento, as políticas públicas não se mostram eficientes para, pelo menos, reduzir a dimensão desse problema. Diante da omissão do setor oficial, é aí que entra o trabalho de organizações não governamentais, pastorais, do voluntariado.  Estive na Igreja de Santa Cecília (na Boa Vista), onde todas as quartas-feiras há oficinas e discussões em busca de soluções para essa população tão sofrida. Com a participação dos sem teto, claro. A iniciativa é da Pastoral do Povo de Rua, criada em 2011 no Recife, embora a nacional atue desde 2005. Ex-coordenador da Pastoral e atualmente atuando na assessoria, o Frei Marcos Carvalho mostra como os moradores de rua são os invisíveis dos invisíveis: “Eles formam uma população que não é contada nem no Censo do IBGE, que só reconhece aqueles que moram em casas. Ou seja, essas pessoas não existem, são excluídas de dentro da própria população brasileira”, reclama.

Problema da população de rua se agravou com a pandemia. Essa “casa” é no Parque Amorim, área central do Recife.

“A luta da Pastoral é para que sejam incluídas no próximo Censo”, diz. A julgar pela conversa com moradores de rua, há iniciativas como os restaurantes populares que os ajudam na batalha diária contra a fome. Mas a maior parte tem queixas do modelo de albergue noturno ofertado pela Prefeitura. Eles reclamam da rigidez de horários e do modelo que lembra um quartel. “ A entrada é às 18h30m, se chegar antes a pessoa tem que esperar do lado de fora, mesmo debaixo de chuva”, diz Joceildo Ferreira da Silva, 48, o Caicó. Depois de envolver-se com o tráfico de drogas em sua cidade, no Sertão do Rio Grande do Norte, veio tentar a vida no Recife. E hoje recebe alguns trocados fazendo bico como limpador de fossa, pintor de parede e até mesmo capinando, se aparecer serviço.

“Penso que as pessoas que trabalham nos albergues oficiais deveriam conhecer melhor o público, necessitam de capacitação”, diz  Jailton José dos Santos, 46, Coordenador do Movimento da População em Situação de Rua. Ele afirma ser necessário “consenso” nos albergues, mas destaca que os atendentes ignoram as particularidades daqueles que vivem sem teto. Diante de todas essas dificuldades e com o agravamento da situação devido à pandemia, a Pastoral decidiu criar um outro modelo de abrigamento: o aluguel de quitinetes mobiliados, no Centro, para servir de moradia para os sem teto. O sistema foi implantado com ajuda de recursos vindos do exterior. E os “inquilinos ” ajudam no pagamento dos aluguéis, com o dinheiro proveniente de programas sociais ou do trabalho informal (como a venda de pipocas, balas, pequenos biscates). Para a Coordenadora da Pastoral, Maria do Socorro Matos Soares, o sistema funciona melhor do que o oficial. “Eles se  adaptam mais”. Para o Frei Marcos, o modelo facilita até na hora do sem teto procurar emprego. “No próprio ambiente, a pessoa se organiza melhor”, diz ele. “E na hora de procurar trabalho, o fato de ter endereço fixo ajuda”, diz.  É verdade. Ainda falta muito para que invisível, o excluído que mora na rua ou em albergue, seja tratado como cidadão.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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