“A cada destino, uma aventura”, diz a caixa de papelão que serve de cama para Manoel Ribeiro, que vive a “aventura” de morar nas ruas do Recife, sem saber onde vai acordar ou dormir, se terá ou não o que comer. Ele trabalha como flanelinha e lavador de carros durante o dia. À noite, procura se proteger com caixas de papelão para se isolar do frio do concreto das calçadas. Mas o que chama a atenção, mesmo, é o seu cobertor, um plástico transparente que usa quando acha um lugar para dormir. “É mais quentinho”, afirmou para o fotógrafo Genival Paparazzi, que deparou-se com o inusitado “lençol” em uma de suas caminhadas pelo centro do Recife.
O fato de o plástico ser sufocante – não permite respirar – também chamou a minha atenção. Não localizei Manoel, mas segundo o fotógrafo, ele “deixa uma brechinha” para poder respirar. A ocupação de calçadas, bancos de praças por pessoas em situação de rua é cada vez mais comum no Recife. Não há números de 2025, mas o último levantamento realizado pela Prefeitura indica 1806 pessoas na mesma situação de Manoel, das quais apenas 363 eram acolhidas em algum equipamento da Prefeitura. O que talvez explique o sentimento que existe entre eles segundo o qual o estado (poder público) “nem é algo que pensam contar”, conforme o mesmo Censo Pop de Rua, realizado pela Prefeitura em parceria com vários órgãos, como a UFRPE e o Instituto Menino Miguel.

O que leva uma pessoa a morar na rua, situação que expõe indivíduos à mais dramática das exclusões sociais? De acordo com o Censo, 50 por cento das motivações são conflitos familiares (69,60 por cento dos moradores de rua possuem famílias). Tanto é assim, que 23,30 não têm mais contato com parentes próximos. Além de conflitos familiares, há outras razões pela opção da vida nas ruas: uso prejudicial de drogas ilícitas, perda da moradia, perda do trabalho, uso prejudicial de álcool.
E a incerta “aventura” por eles vividas parece não ter fim. Mais de 35 por cento estão nas ruas há mais de cinco anos, enquanto 43,3 por cento dos que já viveram nas ruas retornam um dia a ambiente tão hostil. E 52 por cento sempre residiram no Recife. De acordo ainda com o Censo, 83,08 por cento dos moradores de rua são adultos, percentual seguido por idosos (11,81 por cento). O restante é formado por crianças e adolescentes. A pesquisa acusa, ainda, o racismo estrutural: 80,17 por cento das pessoas sem teto que foram abordadas são pretas ou pardas.

A investigação revelou, ainda, o percentual de pessoas em situação de rua que consomem drogas ilícitas: 37 por cento o fazem todos os dias, enquanto 27,3 por cento revelaram fazer o mesmo duas vezes por semana. Alimentação é precária: 65 por cento já passaram um dia inteiro sem comer, enquanto 9,80 por cento só contam com uma refeição por dia. A maior parte do que comem (60 por cento) vem de grupos religiosos. A parte restante garante alimentação em restaurantes populares, doações de lanchonetes ou restaurantes ou mesmo o que acha no lixo. O café da manhã é considerada a refeição “mais difícil” de obter, segundo 35,50 por cento dos ouvidos. Quase 40 por cento perambulam por vários bairros em busca de alimentos.
Nada menos de 50 por cento dos moradores de rua já sofreram violência física. E 36,50 por cento trabalham em “bicos”, mas 48,60 por cento não possuem nenhum tipo de ocupação e estão há mais de dez anos sem vínculo profissional (carteira assinada). Dos que trabalham, 25 por cento recolhem materiais para reciclagem (latas, plásticos, papelão). A pesquisa mostra, ainda, que o morador de rua sofre da falta a direitos básicos como o acesso a água: buscam em equipamentos públicos (40 por cento), doação de populares (30 por cento). Mas 35 por cento já a conseguiram em lojas.
Infelizmente, o morador de rua contribui para a sujeira da cidade a julgar pelo que diz a pesquisa, já que 40 por cento fazem necessidades fisiológicas em espaços públicos: ruas, praças, becos. Outro problema de sujeira que chama a atenção é que as instituições que distribuem refeições parecem não solicitar aos moradores de rua que coloquem restos em lixeiras. Pois áreas como a Praça Maciel Pinheiro, a Rua do Imperador, a Praça 17 diariamente são emporcalhadas com restos de comida (e tome ratos…), quentinhas de papel alumínio e copos descartáveis. Vamos torcer para que essas pessoas encontrem um destino melhor do que a “aventura” das ruas. Tanto os excluídos quanto a cidade só teriam a ganhar.
Mas a questão da miséria parece não ter fim. E os excluídos dos excluídos – 40 por cento não possuem documentos, ou estes estão em poder de amigos, família, órgãos oficiais -vivem a “aventura” de longa incerteza quanto a dias melhores. Nos links abaixo, mais matérias sobre população em situação de rua.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Genival Paparazzi) / G.F.V Paparazzi / ZAP (81)995218132)/ gfvpaparazzi@gmail.com

Muito triste essa situação! E difícil de resolver,exigindo o envolvimento de diversos órgãos públicos referentes à moradia,trabalho,assistência médica, tratamento para dependentes químicos, apoio psicológico, busca pelas famílias afastadas,escolas etc.
É preciso ,também, decisão política para enfrentar o problema com responsabilidade,respeito e continuidade nas ações. Se nada for feito esse número dobrará em pouquíssimo tempo.