Na semana, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a estilista pernambucana Jessica Zarina completou dez anos à frente da Zarina Moda Afro, marca que nasceu dentro de sua casa, no Alto José Bonifácio — periferia do Recife — e hoje alcança o Brasil e o mundo com peças autorais que unem ancestralidade, identidade e inovação. Diz ela:
“Sou uma mulher preta, da periferia, que aprendeu a fazer da moda um jeito de ocupar espaços, de ser protagonista da minha própria história e de manter firme no meu destino. Esse caminho não foi fácil, mas trago como missão de vida. Hoje celebro uma década com a certeza que as raízes ancestrais me impulsionam e me sustentam”, diz ela, que é comunicadora, empreendedora e criadora autodidata, que viu na moda uma forma de resistência, expressão e superação.
A partir de um ateliê improvisado, começou a vender suas primeiras roupas para amigas e clientes da comunidade. De passo em passo, construiu uma marca sólida, com coleções autorais, processos sustentáveis e impacto direto na economia criativa local. Hoje, peças da Zarina circulam por vários estados do país e já foram enviadas para o exterior — um reflexo do alcance que sua criação conquistou ao longo da última década.
Mas a identidade de sua marca ficou mais forte a partir de 2023, quando realizou uma viagem que marcou para sempre sua trajetória pessoal e criativa: visitou o continente africano pela primeira vez. Nos mercados populares, ateliês coletivos e aldeias de mulheres artesãs, ela encontrou a matéria-prima de uma nova fase: tecidos capulanas vibrantes, formas ancestrais de costura, saberes transmitidos de corpo para corpo. Mas o que mais trouxe na mala foi a sensação de pertencimento, que influenciaria para sempre a sua inspiração.

Dessa experiência, entre outras ações, nasceu a coleção 2025 “Raízes do Futuro”– um manifesto em forma de roupa, que deve ser lançada no mês de agosto. Serão 18 looks autorais, divididos entre roupas femininas e masculinas com forte inspiração afro-diaspórica e um olhar voltado para a sustentabilidade e a diversidade de corpos. Entre os destaques da nova coleção estão os vestidos longos e túnicas fluídas, com caimento leve e modelagem pensada para o clima quente do verão nordestino.
A linha inclui ainda kaftans e batas oversized, inspiradas nos trajes tradicionais africanos, com estampas tribais marcantes e cortes assimétricos que conferem movimento e personalidade. Também ganham espaço as calças amplas e peças de alfaiataria desconstruída, produzidas em tecidos naturais como linho e algodão orgânico, que aliam conforto e sofisticação. Compondo o acabamento das criações, aparecem tramas artesanais em macramê, tramas artesanais em crochè, barafunda e richelieu – técnica de bordado ancestral, confeccionado por mulheres da própria comunidade.
“Não estou apenas vendendo roupa. Estou oferecendo uma experiência. Um abraço ancestral em forma de tecido. E dizer a outras mulheres como eu: a gente pode. A gente consegue. A gente já está fazendo”.
A paleta de cores mistura tons terrosos, dourados, verde musgo, violeta e vermelho intenso, criando um universo visual que une o sagrado da ancestralidade à pulsação vibrante da contemporaneidade. Os tecidos utilizados — entre eles capulanas africanas originais, fibras naturais e materiais reaproveitados — reforçam o compromisso da marca com uma moda sustentável e afetiva. A coleção será disponibilizada por meio de vendas diretas nas redes sociais da marca e em edições limitadas em multimarcas parceiras. Os preços variam entre R$ 180 e R$ 480, com possibilidade de ajustes sob medida e encomendas personalizadas.
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Foto: Divulgação
