Lançado em 2010 – logo após as grandes enchentes daquele ano – e só iniciado em 2019, o Projeto Janelas para o Rio ganhou mais um parque, dessa vez no município de Caruaru, localizado a 130 quilômetros do Recife. Ao todo, a iniciativa contempla seis cidades banhadas pelo Rio Ipojuca, considerado o terceiro mais poluído do Brasil, principalmente por conta da descarga de esgotos domésticos (cadê o saneamento?) e das indústrias.
Portanto, quem for passear pelos parques do Janelas para o Rio, ao invés de contemplar um cristalino e aprazível curso d´água, verá uma massa escura de dejetos, já que em Pernambuco, pouco mais de 30 por cento da população conta com coleta e tratamento de esgoto, o que é um problemão. Em todo caso, a iniciativa está valendo, e a denominação é até poética. O Janelas para o Rio contempla Gravatá, Bezerros, Belo Jardim, São Caetano e Caruaru, que ficam no Agreste. E, ainda, Escada, na Zona da Mata. O de Caruaru foi o último a ser entregue.
Nessa Semana do Meio Ambiente, mais do que um parque, a população gostaria de ouvir que as cidades banhadas pelo Rio Ipojuca foram saneadas e que ele está despoluído. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Assim, ao invés de apenas parques, teríamos “praias” ao longo de seus 320 quilômetros.

Juntos os seis Janelas para o Rio, somam 26,65 hectares revitalizados, beneficiando diretamente cerca de 703 mil pessoas e totalizando quase R$ 37 milhões em investimentos. O Janelas para o Rio integra o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Rio Ipojuca, “executado” pela Secretaria de Recursos Hídricos e Saneamento (via Compesa), em parceria com a Apac e com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Porém, até o momento, o Ipojuca permanece correndo como um esgoto a céu aberto. E… o saneamento, ninguém sabe ninguém viu. No release oficial sobre a inauguração do parque, não consta uma só informação sobre a implantação de coleta e tratamento de esgoto nas cidades que ganharam
O parque de Caruaru chegou a ser paralisado, mas as obras foram retomadas em 2024, com investimento de R$ 10,2 milhões. No final de semana, foi inaugurado pela Governadora Raquel Lyra. “Este parque abre a cidade para o nosso rio, que por muito tempo era apenas visto como depósito de lixo”, disse ela. Esqueceu de dizer que é lixo é “esgoto”. Mas lembrou que faz “parte de um conjunto de investimentos que estamos realizando no Estado, com foco na revitalização de bacias hidrográficas, no acesso à água, em infraestrutura e em mais felicidade para o nosso povo”. Mas felicidade não é só com parque, mas também com saneamento, não é? Tem coisa mais medieval do que esgoto escorrendo pelas ruas e sendo jogado em nossos rios? Isso em pleno século 21?

Voltando ao parque de Caruaru: são 6,66 hectares de área. Ele “conta com estruturas voltadas à preservação ambiental”, práticas esportivas e convivência social, como quadras de areia, pista de Cooper, academia para a terceira idade, playground, sementeira, bloco de educação ambiental e um anfiteatro. Um dos destaques é a fonte luminosa interativa, única entre os seis parques já entregues. Ela é equipada com jatos de água sincronizados com luzes e música, além de ter um sistema de recirculação para eficiência energética. Tem, ainda, um ponto de “valorização da mobilidade”, que é a passarela de 75 metros sobre o Rio Ipojuca, que conecta as margens norte e sul da cidade.
O Janelas para o Rio em Caruaru integra o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Rio Ipojuca, executado pela Secretaria de Recursos Hídricos e Saneamento (via Compesa), em parceria com a Apac e com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Dei uma olhada no site da Compesa, mas não vi informações recentes sobre construção de esgotamento sanitário ao longo do Ipojuca, para poupá-lo da poluição. Quase nada sobre o assunto. E o Janelas para o Rio, por si só, não garante a limpeza do Ipojuca. Ou seja, se assim for, “Janelas para o Rio”, é conversa para boi dormir, poia não atinge o cerne da questão, a falta de saneamento básico para nossa população.
Vejam essa foto abaixo. É do Rio Ipojuca. Será que a situação mudou com a construção dos parques do Projeto Janelas para o Rio? Se você mora ao seu redor, dê sua opinião.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Janaína Pepeu / Secom PE e Ulrich Scheider / Patrulha Ambiental/ Acervo #OxeRecife

CIDADES INTELIGENTES são aquelas que se apropriam de conhecimento, planejamento e tecnologia para enfrentar seus problemas; protegem seu meio ambiente, seus recursos naturais; pensam na reciclagem, na inovação social, ou seja, têm foco na SUSTENTABILIDADE. Estamos bem longe disso, infelizmente.
Estive agora a pouco em Caruaru, vê o rio Ipojuca, com água escura, agonizando, com as tubulações de esgoto a céu aberto jogando tudo que não presta no rio, a população ajudando, jogando lixo ao longo do rio, é muito triste de se vê. Saneamento já.
Eu fico pensando na inversao das necessidades que geralmente ocorrem nesses projetos. É claro que parques como ” Janelas para o rio” são importantes, mudam o visual das cidades,além de dar destaque à beleza dos rios.
Porém, não seria mais importante e urgente dar prioridade absoluta à coleta e o tratamento de esgoto?
Depois,sim, dar a “maquillage” ao entorno com parques,jardins e vegetação para que todos possam usufruir e contemplar o rio num ambiente saneado,saudável e aprazível.
Nem é preciso ir tão longe para saber que isso ocorre, por exemplo, no Parque das Graças, na Beira Rio,uma experiência que realmente deu certo em termos de lazer,mas onde a poluição do Capibaribe é intensa devido ao esgoto lançado no rio,gerando um mal cheiro insuportável.
É inconcebível que,em pleno século 21,o tratamento de esgoto não seja prioridade absoluta de qualquer governo.É uma vergonha,uma irresponsabilidade e um desrespeito à população que paga impostos de primeiro mundo e recebe serviços de infraestrutura/ ambientais/ saneamento comparáveis aos países menos desenvolvidos do mundo.