Açude de Apipucos: toneladas de lixo

Se fosse na Bahia, o Açude de Apipucos seria, com certeza, uma atração turística. Se situado no Rio de Janeiro, talvez fosse tão frequentado, quanto a Lagoa Rodrigo de Freitas. Se localizado em João Pessoa, quem sabe, teria suas margens tão arborizadas quanto a Sólon de Lucena. Mas infelizmente o que a gente vê, aqui, são calçadas destruídas ou mal conservadas, ponte faltando guarda-peito, obra inacabada e até tábuas soltas no passeio público, com risco de queda para os mais distraídos.

O problema, no entanto, não é só esse. O Açude de Apipucos está morrendo, devido ao excesso de despejo de esgoto doméstico. Há ocasiões em que ele até fede. A presença desse tipo de detrito tem provocado uma outra consequência: a proliferação de pastas ou baronesas, plantas aquáticas que crescem em demasia, quando a água recebe resíduos orgânicos. E ali é só o que não falta. E eles vêm não só de favelas próximas, como também até de mansões do bairro. Um horror. Quase sempre, passo caminhando por ali, e me defronto com o inglório trabalho de um grupo de garis, em número que varia de doze a vinte. E eles dão um duro danado para limpar o Açude. Até brinco com a turma fardada de amarelo: “É muita munheca”, digo.

Os garis puxam a massa verde manualmente, com garfos gigantes.  Semana passada, usaram uma pequena balsa e um cortador mecânico. Mas terminam o serviço em um dia, no outro, já está tudo do mesmo jeito, por conta do despejo de esgotos. Agora vem o pior. Junto com as baronesas, chegam garrafas PET, móveis, latas, objetos descartados e até animais mortos. Sinceramente, não sei como alguns jacarés ainda sobrevivem naquele espaço tão poluído (Tem até dono de bar ali perto que já fez “amizade” com um deles, que aparece na margem atrás de algumas vísceras de frango). Apesar de ser tão agredido, o Açude de Apipucos é um dos principais cartões postais da Zona Norte.

Mas, infelizmente, é muito mal tratado pela população. Eu nem sei como a molecada não adoece, porque geralmente aos finais da tarde, há de dez a quinze adolescentes tomando banho nas suas águas. Mergulham da pequena ponte, em uma área onde ainda resta profundidade. Como o Açude fica em posição bem superior ao Rio Capibaribe (não recebendo suas  águas poluídas) ele poderia ser uma opção de lazer para a comunidade, caso não fosse tão castigado pelos próprios recifenses.  Mas o que ocorre é o contrário: o Açude polui o Rio, pois suas águas fedendo a esgoto escoam para o Capibaribe por um sangradouro.  De acordo com a Emlurb, mensalmente são retiradas 40 toneladas de detritos do Açude, incluindo resíduos sólidos e as baronesas. Ou seja, 480 toneladas por ano. Não é à toa, portanto, que o assoreamento é tão grande, pois há locais onde a água não cobre nem os pés das garças que costumam aparecer por lá em busca de comida. Uma tragédia ambiental.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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