Saneamento: “O maior problema do Rio Capibaribe é sim o esgoto”, diz bióloga

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Nesta semana, o Prefeito João Campos  fez uma postagem em suas redes sociais, exaltando o árduo trabalho dos garis da Prefeitura durante coleta de  resíduos sólidos, impiedosamente atirados no leito do Capibaribe e que terminam se acumulando  no sedimento. Quando a maré fica baixa, o que se observa é um mar de lixo.

O que  o Prefeito esqueceu de dizer é que o Rio sofre outro tipo de poluição, esta provocada pela omissão do poder público quanto a um serviço, ao qual apenas 40 por cento da população da cidade tem acesso: o saneamento.  Com a irresponsabilidade dos nossos gestores, o rio está cada dia mais assoreado e poluído. E, nesse caso, não se pode culpar a população, mas os nossos gestores à frente de diversas esferas do poder executivo.

Bióloga mostrou o estrago que a falta de saneamento faz no Capibaribe: índices de turbidez maiores

De acordo com a Organização Trata Brasil, os rios de Pernambuco recebem, por dia, uma descarga equivalente a 208 piscinas olímpicas cheias de cocô. Não temos números específicos do Capibaribe. Mas, com certeza, ele está incluído nessa triste estatística e vem se transformando em um esgoto a céu aberto, o que é triste de se ver em pleno século 21.  Por que nossos governantes constroem pontes, viadutos, casas populares, praças e esquecem de sanear a cidade? Talvez porque as tubulações fiquem por debaixo da terra e não dêm na vista, já que obra visível de pedra e cal é que dá voto. Mas quem convive com o rio, sabe o tamanho do pesadelo provocado por falta de serviço tão essencial. A comunidade acadêmica que também o diga.

“O maior problema do Capibaribe é sim o esgoto, pois devido à decomposição dessa matéria orgânica em excesso, o nível de oxigênio cai a quase zero em alguns pontos do rio”, afirma Mariana da Fonseca Cavalcanti, bióloga com Doutorado em Oceanografia. Na tese, que teve como orientadores José Souto Rosa Filho (UFPE) e Betânia Cristina Guilherme (UFRPE), ela investigou  os nematódeos (animais microscópicos que vivem no sedimento do estuário) e que são considerados indicadores de perturbação ambiental. “E as áreas com mais matéria orgânica apresentaram comunidades menos equilibradas, indicando impacto ambiental”, afirma a pesquisadora, que  durante a investigação identificou 108 espécies de nematódeos (incluindo sete gêneros inéditos para o Brasil e uma espécie nova, já por ela nomeada “Admirandus capibaribei”) .  Esses seres, que passam longe dos nossos olhos, indicam o nível de saúde do estuário e são importantes na cadeia alimentar.

No trabalho de Mariana, salinidade da água  foi analisada em vários pontos da cidade: comparativos

O trabalho da bióloga está em vias de ser apresentado na 19ª Conferência Internacional de Meiofauna (19IMCO), que ocorre em Kolkata (na Índia), no próximo dia 12 de dezembro.  Os indicadores resultam de coletas que foram feitas em seis pontos do médio estuário do Capibaribe , trecho que fica entre o Poço da Panela e a Ilha do Retiro. Ela escolheu aquela faixa por ser considerada “Zona de Turbidez Máxima”, onde há menores concentrações de oxigênio na água.  Como sistematicamente as análises sobre as condições ambientais do rio são feitas a partir da qualidade da água, o trabalho  sobre o sedimento tem particular importância. Diz ela:

“A Zona Norte foi a que mais cresceu do ponto de vista urbano nos últimos anos. E meus resultados de concentração de matéria orgânica mostraram valores maiores do que estudos anteriores na mesma região”.

Ou seja, enquanto em outros países, as autoridades não medem esforços para “limpar” rios como o Tâmisa (Inglaterra) e Sena (França), o crescimento urbano no Recife sobrecarrega o rio do que não deve, acumulando não só de detritos sólidos mas também despejo de esgoto. Em outras palavras, toneladas de cocô se acumulam no rio que é cartão postal da cidade. Aliás, a identidade do Recife. O que não dizer, então, da situação do Tejipió, do Beberibe, do Pina e dos mais de cem canais que cortam o Recife e que, antes, eram riachos cristalinos?  Para a bióloga, o drama do Capibaribe mostra um futuro sombrio para o nosso eterno “cão sem plumas”, como tão bem o definiu o poeta João Cabral de Melo Neto. Ela adverte:

“A continuar nesse ritmo, a quantidade de oxigênio disponível irá cair ainda mais, e logo aumentará a mortalidade dos animais. Ainda vemos vida no Capibaribe, por conta da maré que oxigena o estuário diariamente, esse oxigênio pode não chegar ao sedimento. Os animais que vivem no sedimento são alimentos  tanto para outros animais, quanto para a população marisqueira”..

Aliás… falar no principal rio de Pernambuco, alguém sabe por onde anda o  Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Capibaribe, que foi criado em 2007? Alguém sabe dizer quando ele volta a se reunir?  O que faz? Por onde anda? Desse jeito… fica complicado.

Pesquisadora identificou 108 espécies de nematódeos: desequilíbrio devido à poluição do Capibaribe

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins / #OxeRecife e Divulgação

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2 comentários

  1. Sem dúvida alguma,o esgoto é o maior problema do Capibaribe.E não se vê nenhuma movimentação por parte dos gestores públicos para tentar equacionar o problema.
    Saneamento, essencial e vital para a vida ,passa longe dos interesses dos gestores/políticos.Se preocupam com obras faraônicas,supérfluas,de grande visibilidade e maquiagem, nas quais investem milhões e são incapazes de pensar grande sobre um tema que está acima de tudo,pois o Saneamento é saúde, é qualidade de vida ,é dignidade para o cidadão, é preservar o meio ambiente, preservar o rio que gera ttabalho e renda .Saneamento deveria ser política de estado e prioridade absoluta de uma cidade,de um país. A falta de saneamento resulta nesse estado de miséria socioambiental e sanitária que perdura há anos na nossa sociedade,num ciclo vergonhoso de irresponsabilidade dos péssimos gestores .

  2. Eis o retrato do Recife que tão bem Provam e Comprovam da Falência do Recife em todos os sentidos, formas e conteúdos que a Bióloga e Doutora em Oceanografia Mariana da Fonseca Cavalcanti e os Trabalhos e Pesquisas do Doutor José Souto Rosa Filho da UFPE e da Doutora Betânia Cristina Guilherme da UFRPE, tão bem demonstram a morte por Inanição administrativa da Cidade do Recife. O Recife não vive sem o Capibaribe e se o rio morre a Cidade por inteira vai junto. Só para que vocês tenham uma ideia do Recife, lá nos idos de 1982 , na Secretaria de Administração da PCR, reunidos comigo, meus Tutores e Orientadores o Dr. Marcelo Câncio, Administrador e Professor da UFPE e o Administrador e Advogado, também Professor da UFPE Luiz Affonso Sarmento, preparamos um documento sobre a Cidade do Recife para o Plano Diretor do Recife, e, através de documentos da Secretaria de Saúde recebemos uma informação que nos assustou e firmou em nossas mentes que o Recife precisava de uma intervenção enorme em sua Saúde Pública e no Meio Ambiente, dados de 1982, o Recife tinha 14 ratos por habitantes. Como sempre fomos criticados por Membros do Legislativo afirmando que Obras de Saneamento Básico não trazem votos, mas, continuamos provocando e levando pancadas e sem abandonar nossas lutas. Hoje meus dois Amigos e Mestres estão juntos de Deus e deixaram Documentos para a PCR Administrar o Futuro da Cidade. Como fazem falta nos Corredores da Prefeitura do Recife Grandes Profissionais da Administração para mudar o atual estado de coisas ruins que nosso Recife passa. A estes Três Pernambucanos Doutores Mariana da Fonseca Cavalcanti, José Souto Rosa Filho e Betânia Cristina Guilherme rendo minhas simples Homenagens por tão importantes Estudos Científicos em Defesa da História da Saúde Pública e Ambiental do Recife e sobre a Vida Futura de nossa Cidade Amada e Abandonada pelos Poderes Públicos.
    Letícia, foi a leitura mais importante que fiz hoje nas Mídias do Brasil este alerta sobre o Futuro do Recife, como Cidade, Cidadania e Cidadão Pleno, por isso lhe agradeço por sempre caminhares pelo Recife com tanto Amor e Cuidado na Vida de nosso Amado Recife, teu Amor pelo Recife me fez lembrar uma Música de Zezito Doceiro, Poeta e Compositor de Salgueiro chamada QUEM AMA CUIDA !
    Eu vou cuidar de você
    Todo dia, toda hora e a todo momento
    Você jamais vai duvidar do meu sentimento
    É de dar inveja tanto Amor assim,
    Eu vou cuidar de você
    Todo dia, toda hora e a todo momento
    Eu sou capaz de ler até seu pensamento
    Só pra saber se tá pensando em mim…..

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