Caetés, onde Lula nasceu e tinha “lombrigas”, ganha cisternas e água purificada com luz solar.

 Caetés, onde Lula nasceu e tinha “lombrigas”, ganha cisternas e água purificada com luz solar.

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Nada menos de 26 milhões de pessoas vivem no Semiárido Brasileiro, das quais 10 milhões nas áreas rurais. Não é uma vida fácil, devido às estiagens constantes, agravadas pelas mudanças climáticas. Além disso, os rios perenes são poucos, o que faz da região da caatinga o bioma com o menor percentual de água reservada no país, nada menos de três por cento. Felizmente há iniciativas da sociedade civil contribuindo para não deixar as famílias sertanejas às secas. No Nordeste, há o Programa Um Milhão de Cisternas, o P1MC, da Articulação do Semi- Árido, que é o mais famoso, e através do qual mais de 1,2 milhões de cisternas já foram implantadas no Nordeste.

Porém há outras organizações atuando em busca de melhor qualidade de vida para o homem do campo na região, inclusive garantindo água no período mais seco. Uma dessas entidades é a Adel – Agência de Desenvolvimento Econômico Local, que tem sede em Pentecostes, a 87 quilômetros de Fortaleza. Mas que atua em todo o Nordeste, levando tecnologias de enfrentamento à crise hídrica. Segundo a Adel, 571 instrumentos de garantia de segurança hídrica acabam de ser instalados no Nordeste, sendo 389 em Pernambuco. Não é muito para o tamanho da necessidade, mas se cada um faz a sua parte, a realidade muda para melhor, não é? Além de acumular água para uso doméstico, os sertanejos ainda têm direito a um equipamento que purifica a água com uso de energia solar. As últimas ficam em Caetés, no Agreste do Estado. O município ficou famoso por ser a terra onde o ex-Presidente Lula nasceu e no qual, segundo o petista afirma, bebia água de “barreiro”, quando criança. Barreiros são pequenos reservatórios, mini-açudes, cavados em sítios para juntar água da chuva, cuja água é alvo de disputa entre homens e animais, como bodes, bois, porcos.

Em 2022, Lula visitou réplica da casa em que passou a infância, em Caetés, onde bebia água suja de barreiro

O manuseio das cisternas é muito simples, de fácil manejo  mesmo por parte da população rural, onde há ainda contingente grande de analfabetos. Entre as tecnologias sociais em diversas comunidades rurais do Nordeste, incluindo PE, encontram-se: cisternas de placas, barreiros, trincheiras, tanques em lajedo de pedra e reservatórios elevados.  Além do Aqualuz, equipamento que usa energia solar para purificação da água.  As últimas comunidades beneficiadas ficam nas comunidades de  Quitonga  e Mulungu, ambas em Caetés, a 252 quilômetros do Recife e onde o petista nasceu e passou os primeiros anos de vida até mudar-se com a mãe e os irmãos, para São Paulo. Na época,  Caetés era um pequeno distrito de Garanhuns. Lula costuma sempre lembrar o quanto era difícil ter acesso a água de qualidade naqueles tempos, quando costumava  matar a sede no mesmo barreiro que servia à família e os animais dos sítios vizinhos. O que ainda é comum em muitos vilarejos no meio da caatinga.

Lula sempre costuma lembrar que tinha a barriga cheia de “lombrigas” por causa da água insalubre e “cor de barro” que bebia. Uma vez, acompanhando o então candidato em sua terra, pedi um copo d´água na casa de uma sua tia. O copo veio com o líquido cor de barro, e fiquei sem saber o que fazer. Não queria ofender a família jogando fora a água tão escassa. E também, se eles bebiam, eu não poderia me dar ao luxo de não tomar.  Mas também tinha medo de pegar uma infecção. Mesmo assim, levei o copo aos lábios. Fui salva pelo próprio Lula, que tirou o copo das minhas mãos. “Já bebi muito dessa água, mas quem não tem costume pode adoecer”. Ao evitar que eu tomasse a água barrenta, justificou. “Nem eu nem você podemos beber, não estamos habituados”. Ele sabe o que passou, as doenças que enfrentou por conta da água suja que tomava quando criança. E também conhece a importância de programas como estes, que tiveram grande apoio no seu governo.

Iniciativa da sociedade civil, construção de cisternas ganhou depois  apoio de governos e até de  entidades internacionais

“Se não fosse a cisterna, a gente teria que comprar água para beber. Agora, com a cisterna, a gente fica menos preocupado de faltar água e consegue comprar mais comida”, afirma  Iraneide Tavares, da comunidade Quitonga,  uma das beneficiadas. As cisternas, junto às residências das famílias do Agreste e Sertão, evitam também que elas tenham que se deslocar por longas distância, em lombo de jumento, para pegar água em rios, açudes, barreiros (nem sempre de boa qualidade). Com água reservada, os lavradores têm mais tempo para se dedicar aos seus roçados, dos quais dependem a sobrevivência das famílias. “Estas, que antes passavam por grandes dificuldades, como ter que andar grandes distâncias para ter acesso aos recursos hídricos, hoje desfrutam dos benefícios de ter água próximo às suas casas, para consumo, produção de alimentos e criação de animais”, afirma o Diretor de Novos Negócios da Adel, Wagner Gomes. Além da tecnologia de captação e reserva de água, foram instalados dispositivos aqualuz para torná-la potável. Essa tecnologia utiliza a luz solar para retirar as impurezas da água, tornando-a boa para consumo humano. O que é um grande avanço, em um Sertão onde ainda se encontra gente bebendo água cor de terra.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Banco de dados / Adel e Acervo #OxeRecife

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