Como se não bastassem os arboricídios que estão transformando o Recife em um verdadeiro “hellcife”, está feia a situação de nossas praças, tanto no centro da cidade quanto em bairros da Zona Norte, por onde tenho caminhado nesses dias quentes de verão. Da “seca” no gramado não escapa nem mesmo a Praça de Casa Forte, que é jardim histórico e tombada pelo IPHAN, por ter sido no iníciodo século passado o primeiro projeto de jardim público do então jovem arquiteto Roberto Burle Marx (1909-1994), que se transformaria depois um dos mais respeitados paisagistas do mundo.
Também não escapam dos maus tratos, praças históricas, como ocorre no bairro da Boa Vista. “Passei na Praça Maciel Pinheiro no final da semana passada, e não tem mais grama. A estátua de Clarice Lispector está na terra seca. Os canteiros estão totalmente ocupados por colchões de moradores em situação de rua. O chafariz estava desligado, tudo uma desolação só”, reclama a leitora Maria Campos, que diz voltar triste para casa todas as vezes que visita o centro do Recife. “Acredito que a Maciel Pinheiro tenha sido restaurada e entregue à população há uns dois anos”, completa.

Além de ter história – foi criada em homenagem aos brasileiros que combateram na Guerra do Paraguai – a Maciel Pinheiro possui monumento do século 19, que foi produzido em Lisboa por Antônio Moreira Rato (1818-1903), então famoso escultor. Além disso, foi naquela praça que morou, quando criança, uma das escritoras mais amadas do Brasil, Clarice Lispector, cujo casarão encontra-se em ruínas. A Praça Casa Forte também tem história, pois além de tombada pelo IPHAN, no século 17 foi palco de resistência contra os holandeses.
“Na Praça de Casa Forte, entra governo e sai governo, e também não há irrigação nas gramas, ficando tudo seco e esturricado”, reclama Gustavo Coelho. Neto do criador de uma das praças mais bonitas que vi no interior do Nordeste, em Catolé do Rocha (PB), o fotógrafo Gustavo Maia faz coro com Maria e Coelho: “É muito importante fazer esses registros, Letícia. O que vemos é um descaso total com a manutenção de jardins, parques e praças”. Para completar, na terça-feira caminhei pelo bairro da Madalena, e tomei um susto com a situação da Praça Solange Pinto. Devia estar bem mais bonita, até porque fica no entorno do Mercado Público da Madalena, um dos mais frequentados da Zona Norte. Situação parecida ocorre no Derby.

“Verão avassalador e abandono da Prefeitura e Emlurb, que não providenciam carros pipa para resolver o problema. E olhem que muitos parques ficam bem próximos do Rio Capibaribe, podendo se beneficiar de uma irrigação mais acessível. Na Praça do Derby, as plantas estão totalmente secas e esturricadas. Falta de iniciativa e vontade política até para contratar um carro pipa. Ora, ora…”, reforça Sofia de Paula, que costuma caminha por praças e parques da cidade. Com a palavra a Emlurb, a Prefeitura e a Secretaria de Meio Ambiente… Porque está feia, a coisa. Dizer que a culpa é do verão é história para boi dormir.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
