Artigo: “Muito além do realismo mágico: o jornalismo como força vital na obra de Gabriel García Márquez”, por Adriano Portela*

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O Brasil tem se encantado, mais uma vez, com o universo de Gabriel García Márquez, impulsionado pela adaptação de Cem Anos de Solidão para a Netflix. De acordo com Jean Faria, gerente de compras da rede Livraria da Vila (SP), em entrevista à TVT News, o romance registrou crescimento de 42,85% após o anúncio da série. O novo fôlego comercial reacende não apenas o interesse pelo universo ficcional do colombiano, mas também amplia a discussão sobre uma dimensão menos explorada de sua trajetória: a centralidade do jornalismo na construção de sua obra literária.

El periodista que queria ser lembrado

Em 1996, durante a 52ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa, realizada em Los Angeles, Gabriel García Márquez definiu o jornalismo como “o melhor ofício do mundo”. A declaração sintetiza uma trajetória que começou muito antes do reconhecimento literário. Segundo Jacques Gilard, editor de Obra Jornalística (2006) — coletânea em cinco volumes com textos publicados entre as décadas de 1950 e 1980 —, foi no exercício diário da reportagem que o escritor formou sua disciplina narrativa e seu olhar sobre a realidade.

García Márquez abandonou o curso de Direito para ingressar no jornalismo, iniciando a carreira em El Universal, em Cartagena das índias, passando depois por El Heraldo e tornando-se, em seguida, correspondente internacional. Da Europa, enviava reportagens para El Espectador, de Bogotá. Trabalhou ainda em Nova York como correspondente da agência cubana Prensa Latina. Foi somente após essa intensa vivência jornalística que se afastou temporariamente das redações e se mudou com a esposa para o México, onde escreveu Cem Anos de Solidão, publicado pela primeira vez em 1967, em Buenos Aires, pela editora Editorial Sudamericana.

De acordo com Cristóbal Pera, organizador de Gabriel García Márquez: O escândalo do século (2010), o próprio autor teria afirmado, anos antes de morrer: “Não quero ser lembrado por Cem Anos de Solidão, nem pelo Nobel, mas pelo jornal”. A frase reafirma a centralidade do jornalismo em sua identidade intelectual — não como etapa anterior à literatura, mas como sua base permanente.

Em 2024, este que vos escreve esteve na Colômbia — passando por Bogotá e Cartagena das Índias — e aproveitou a viagem para reler Cem Anos de Solidão e também Crônica de uma Morte Anunciada (1981), romance em que a apuração jornalística e o trabalho da memória estruturam a narrativa. Logo na primeira linha, Gabriel García Márquez estabelece o destino incontornável do protagonista: “No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo”. A partir dessa frase inaugural, o narrador constrói uma engrenagem precisa de depoimentos, versões cruzadas, lacunas e contradições, conduzindo o leitor por uma investigação que combina tensão, emoção e rigor quase documental. Saber que Santiago Nasar morrerá não encerra a narrativa — ao contrário, é o ponto de partida para compreender como e por que a tragédia se consumou.

Enredo anunciado

Santiago Nasar, jovem abastado e filho de imigrantes árabes, é acusado de ter desonrado Ângela Vicário. É a própria Ângela quem aponta seu nome aos irmãos, Pedro e Pablo Vicário, após ser devolvida à família na noite de núpcias: seu marido, Bayardo San Román — herdeiro de um general celebrado por feitos de guerra — descobre que ela não era virgem. Entre a devolução da noiva e a execução do crime transcorrem apenas quatro horas, marcadas por uma circulação vertiginosa de rumores pelo vilarejo caribenho. Quase todos sabem que um assassinato está prestes a acontecer; poucos agem de forma efetiva para impedi-lo. A sucessão de equívocos, hesitações e desencontros transforma a tragédia em fatalidade coletiva. Santiago é morto com 14 facadas. Atordoada pelas notícias fragmentadas que recebe, sua mãe fecha a porta da casa sem perceber que o filho permanece do lado de fora; é ali que ele é golpeado até a morte. O crime ocorreu no mesmo dia da visita do bispo à cidade. Vestido de branco — traje escolhido para saudar a autoridade religiosa — Nasar cai como um símbolo trágico da honra, da culpa e da omissão social que atravessam o romance.

Literatura e Jornalismo

García Márquez revela pleno domínio técnico na construção do romance ao optar pela figura do narrador-testemunha — cujo nome jamais é revelado —, mas que o leitor identifica como amigo próximo de Santiago Nasar. A relação entre ambos ultrapassa a simples amizade quando se descobre, mais adiante, que a mãe do narrador é madrinha do protagonista, o que aprofunda o vínculo afetivo e tensiona ainda mais o relato. Ao privilegiar a dimensão temporal, o autor rompe a linearidade e articula passado e presente numa dinâmica em que espaço, tempo e memória se entrelaçam.

O narrador dedica décadas à reconstituição do crime: entrevista testemunhas, confronta versões, revisita documentos e cruza lembranças alheias com a própria memória, num trabalho que se aproxima do rigor da apuração jornalística. Trinta anos depois dos fatos, ele retorna ao vilarejo para tentar recompor, fragmento por fragmento, o que restou da tragédia. “Ela o viu da mesma rede e na mesma posição em que a encontrei prostrada pelas luzes da velhice, quando voltei a esse povoado abandonado, tentando recompor, com tantos estilhaços dispersos, o espelho quebrado da memória.” A imagem sintetiza o projeto narrativo: reconstruir o acontecimento não como verdade absoluta, mas como mosaico de vozes, falhas e silêncios.

O escritor pernambucano Raimundo Carrero, em Os Segredos da Ficção (2005), afirma que o leitor só responde aos apelos de uma obra quando consegue entrar na pulsação da escrita — e que, por isso, cabe ao autor ir ao encontro desse leitor. Em Crônica de uma Morte Anunciada, essa busca parece alcançar uma dimensão ainda mais radical. Se deslocarmos o foco do narrador e voltarmos o olhar para o escritor, percebemos que Gabriel García Márquez não apenas constrói estratégias para capturar o leitor, mas também transforma o romance em campo de investigação pessoal. Ao reconstituir o crime, ele revisita um conflito íntimo e coletivo, tensionando técnica e emoção para instaurar uma relação de cumplicidade entre texto e leitor — uma intimidade que nasce da dúvida, da memória e da necessidade de compreender o irreparável.

Gabriel García Márquez integra a geração de escritores latino-americanos que, a partir dos anos 1960, projetou a literatura do continente no cenário internacional ao lado de autores como Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Alejo Carpentier. Associados ao chamado “Boom” latino-americano, esses escritores romperam com o realismo tradicional e com a dependência estética dos modelos europeus, propondo novas formas narrativas. No caso de García Márquez, essa inflexão se materializa no que a crítica convencionou chamar de realismo mágico: uma escrita em que o cotidiano e o extraordinário coexistem sem hierarquias, dissolvendo fronteiras entre mito, história e realidade. Mais do que um recurso estilístico, essa escolha estética afirma uma visão de mundo e reivindica para a literatura um papel social ativo, capaz de recontar a experiência latino-americana a partir de suas próprias matrizes culturais — indígenas, africanas, populares e ancestrais — transformando-as em protagonistas da narrativa.

Com a veia jornalística sempre pulsante, Gabriel García Márquez foi movido tanto por fragmentos de memória quanto por um verdadeiro dever de memória ao resgatar a história que daria origem a Crônica de uma Morte Anunciada. O personagem Santiago Nasar tem como referência um caso real ocorrido em 1951, na cidade de Sucre, na Colômbia, onde viveu a família do escritor: a vítima chamava-se Cayetano Gentile, descendente de italianos. Segundo Heloiza Golbspan Herscovitz, em O Jornalismo Mágico de Gabriel García Márquez (2004), a trama do romance se ancora nesse episódio verídico, posteriormente reelaborado pela ficção. À época do crime, García Márquez estudava Direito em Cartagena e já cogitava escrever sobre o acontecimento, mas foi aconselhado por um amigo jornalista a esperar. O tempo, sugeria o colega, sedimentaria os fatos e permitiria uma abordagem mais madura. Décadas depois, a literatura cumpriria aquilo que o jovem repórter intuía: transformar o acontecimento brutal em narrativa investigativa e memória coletiva.

Talvez a ausência de Gabriel García Márquez na manhã do assassinato — quando ainda estudava em Cartagena — tenha alimentado a sensação de não ter participado, como tantos outros, da tentativa de impedir a tragédia. Na história real que inspirou Crônica de uma Morte Anunciada, um homem rico e proprietário de terras, Miguel Reyes Palencia, casou-se com Margarita Chica Salas, professora de 22 anos e irmã dos gêmeos José Joaquín e Víctor Manuel. Na noite de núpcias, ao constatar que a esposa não era virgem — tal como ocorre no romance —, Miguel a agrediu e a devolveu à família. Pressionada, Margarita apontou o nome do suposto responsável: Cayetano Gentile. O descendente de italianos foi morto em frente à própria casa, também com 14 facadas, numa execução que ecoa quase literalmente a ficção. Diferentemente do arranjo narrativo construído por García Márquez, os irmãos cumpriram cerca de um ano de prisão, e não três; Miguel Palencia voltou a se casar e teve 12 filhos. A literatura preservou a estrutura do acontecimento, mas reorganizou seus desdobramentos, evidenciando como memória e invenção se entrelaçam na reconstrução do fato.

Gabriel García Márquez seguiu o conselho do amigo e, três décadas depois, retornou a Sucre para revisitar o passado e reorganizar, à luz da memória e da investigação, os fragmentos daquele crime. Crônica de uma Morte Anunciada foi publicada em 1981, um ano antes de o autor receber o Prêmio Nobel de Literatura, consolidando sua projeção internacional. A obra, contudo, provocou debate entre críticos do campo jornalístico. Muitos recusam classificá-la como livro-reportagem, argumentando que García Márquez alterou nomes, fundiu personagens, modificou cenários e documentos e ainda se colocou como cúmplice ou testemunha próxima do crime, quando, de fato, estava em outra cidade. Para esses críticos, tais procedimentos tensionam os limites da ética jornalística, fundada no compromisso com a precisão factual. Para outros, porém, é justamente nessa zona híbrida — entre reportagem, memória e ficção — que reside a força singular do romance.

Segundo Nilson Lage, em A Reportagem: Teoria e Técnica de Entrevista e Pesquisa Jornalística (2008), o repórter ocupa o lugar onde o leitor, o ouvinte ou o espectador não podem estar. Investido de uma delegação tácita, ele atua como olhos e ouvidos do público, selecionando e transmitindo aquilo que considera relevante — função que o autor define como a de “agente inteligente”. À luz dessa concepção, não estaria Gabriel García Márquez legitimado a mobilizar seu faro jornalístico no interior da literatura, tendo como principal suporte a própria memória? Diante da impossibilidade de uma reconstituição absolutamente fiel — sobretudo após o intervalo de três décadas —, o escritor parece optar pela construção de uma memória coletiva, tecida a partir de múltiplas vozes e versões. Ao recompor os fragmentos dispersos do acontecimento, ele não apenas exerceria seu papel de narrador, mas também cumpriria, simbolicamente, a missão do repórter: reunir os estilhaços do espelho quebrado da memória e oferecer ao público uma verdade possível.

Não deixa de ser significativo que, na década de 1960, enquanto a América Latina assistia à consolidação do realismo mágico, os Estados Unidos viam emergir o chamado New Journalism. Entre seus principais expoentes estava Tom Wolfe, defensor de uma escrita jornalística que incorporava recursos tradicionalmente associados à ficção: construção de cenas, reprodução detalhada de diálogos, descrição minuciosa de ambientes e ênfase no comportamento das personagens. A proposta tensionava as fronteiras entre fato e narrativa, ampliando as possibilidades expressivas da reportagem.

Em Crônica de uma Morte Anunciada, percebe-se procedimento semelhante: a investigação factual é atravessada por técnicas literárias que intensificam a experiência do leitor. Como observa Heloiza Golbspan Herscovitz, Gabriel García Márquez não aborda a realidade com a pretensa objetividade de um jornalista comprometido exclusivamente com a reconstituição factual. Ele a examina com o olhar subjetivo do escritor que penetra os acontecimentos para extrair sua dimensão humana, tomando a liberdade de reorganizar personagens e eventos em busca de uma verdade que ultrapassa o mero registro do fato.

Em 1981, em entrevista à revista latino-americana Chasqui, Gabriel García Márquez afirmou que, pela primeira vez, havia alcançado um equilíbrio pleno entre literatura e jornalismo — razão pela qual optou pelo título de Crônica de uma Morte Anunciada. Segundo o autor, o jornalismo preserva o contato direto com a realidade, condição essencial ao trabalho literário, enquanto a literatura ensina a escrever — fundamento indispensável ao bom jornalismo. A obra nasce, assim, desse duplo pertencimento.

Seja lida como literatura ou como narrativa de feição jornalística, a história é contada com rigor e intensidade, sem se esgotar em nenhuma dessas categorias. Talvez se possa dizer que a “verdade” de Crônica de uma Morte Anunciada se realiza numa dimensão poética — não para negar o fato, mas para ampliá-lo. Ainda assim, permanece pertinente a advertência de Heloiza Golbspan Herscovitz: jornalistas devem agir com cautela ao atravessar a fronteira entre realidade e imaginação, mito e história, jornalismo e literatura. É justamente nesse território limítrofe que García Márquez constrói a força singular de sua narrativa, sempre à luz do seu realismo mágico.

* Adriano Portela é jornalista, diretor de cinema e teatro, mestre e doutor em Teoria da Literatura (UFPE). Diretor da franquia cinematográfica Recife Assombrado (filmes 01 e 02, e uma série de TV para estrear em 2026). Autor de romances, contos e ensaios e fundador do projeto artístico-social Cobogó das Artes, no Recife. Coordenador do projeto social Estudos em Escrita Criativa. Pesquisador da obra de Osman Lins.

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Edição: Letícia Lins / #OxeRecife
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