Aos 27 anos, a pernambucana Wenny Mirielle Batista Misael, mais conhecida como Uenni – seu nome artístico – já acumula dois importantes prêmios nacionais. O mais recente é o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, conquistado com a série “Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada”, na categoria “Ancestralidades e Representações”. A série reúne 19 imagens produzidas entre 2022 e 2025, decorrentes dos três anos de convivência e registro no Terreiro Ilê Axé Oxalá Talabi, reconhecido desde 2015 como Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana pelo IPHAN e patrimônio vivo de Pernambuco e reconhecido pelo IPHAN, a partir de 2023.
O terreiro fica no território afro-indígena de Paratibe, em Paulista (PE), Região Metropolitana do Recife e Uenni faz parte da comunidade, participa de suas vivências. Com o prêmio, ela passa a integrar a Exposição Coletiva e o Catálogo da 10ª edição do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, consolidando seu nome no panorama da fotografia etnográfica e contemporânea brasileira. Dez dessas fotografias já haviam conquistado o primeiro lugar do Prêmio Mário de Andrade de Fotografias Etnográficas, na categoria série. Neste, Uenni tornou-se a primeira mulher negra do Brasil a vencer a premiação nessa categoria. As outras nove imagens, inéditas e realizadas entre 2022 e 2025, ampliam o retrato que ela vem construindo a partir de uma relação íntima e contínua com esse espaço sagrado.

As imagens mostram a força do canjerê dos Pretos Velhos, uma das expressões mais profundas da Jurema Sagrada, tradição historicamente marcada pela intolerância religiosa. “A série não foi pensada como projeto, nasceu com o tempo. A fotografia me deu uma forma de mostrar que a gente também merece respeito, que nossa cultura e nossa religião não têm nada a ver com o demônio”, diz. “É muito interessante quando pessoas se sentem impactadas positivamente pelo trabalho, até pessoas evangélicas já elogiaram”, comemora. “São casos isolados, mas mostram que a imagem pode atravessar barreiras e abrir espaço para a compreensão de quem normalmente não tem contato com esses espaços”, conclui.
A relação de Uenni com a fotografia nasce da memória afetiva construída com a avó, que, mesmo com poucos recursos, sempre registrou a história da família. Mas o impulso para fotografar terreiros surgiu quando Uenni encontrou fotos feitas por sua avó em um terreiro de Jurema, no final do século passado. A descoberta reacendeu uma memória afetiva que atravessa gerações e revelou, com clareza, o caminho que ela já vinha trilhando ao retratar a cultura popular. A partir dali, decidiu documentar as tradições, as pessoas e o tempo dentro desses espaços sagrados

O Ilé Àse Òrìsànlá Tàlábí (Terreiro Axé Talabi) é uma comunidade tradicional em atividade há mais de trinta anos, preservando práticas do candomblé nagô e do culto à Jurema Sagrada do Rei Salomão. Fundado por Mãe Dada de Oxalá e Obá Dodê, suas atividades públicas começaram em 1991, suas raízes são ainda mais antigas, com fundamentos iniciados pela família dos fundadores. Além do calendário religioso, o Terreiro realiza projetos culturais, educacionais e sociais, fortalecendo a ancestralidade afro-indígena e o vínculo com a comunidade.
Por sua atuação, o terreiro já recebeu Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho de Preservação do Patrimônio Cultural – SECULT/PE (2018) e, em 2015, também foi reconhecido como Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), dando origem ao Ecomuseu Mímó Igbó e consolidando o Terreiro como um espaço de memória social, educação patrimonial e preservação das tradições afro-indígenas.

Leia também
Jurema sagrada vira exposição
Alexandre: juremeiro e mestre
Ervas sagradas ganham sementeira
Garanhuns recebe oficina “Batuque do Corpo”, espetáculo nagô
Mês da Consciência Negra: Expô Sagradas mostra fome inspirada em orixás
Quinta Nagô no Pátio de São Pedro
Expô sobre terreiros termina na terça
Curso de cinema para povo de terreiro documentar a própria história
Dia da Mulher: Memória de Mãe Betinha, que desafiou o pai e o Estado Novo
Festival Noite do Dendê movimenta o Pina
Onà Dúdú faz percurso para vivenciar os caminhos de nossa raiz afro
História: Lugares da memória da escravidão e da cultura negra em Pernambuco
Pipoca é alimento sagrado?
Sítio da Trindade tem festa para Xangô
Católica bota xangô na ordem do dia
Qual foi o mal que lhe fez Yemanjá?
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Uenni e Rebeca Andrade
