Gastronomia quilombola do Litoral Norte entra em cena e vira websérie

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Embora relegada a segundo plano nos livros do passado – até Gilberto Freyre mostrar a sua importância na cultura e história de um povo – a culinária hoje atrai a atração de pesquisadores, donas de casa, chefs, sociólogos, antropólogos. A bibliografia sobre a gastronomia é cada dia maior. Vai das comidas de “mães do mangue do Pará” aos doces dos tempos da casa grande e da senzala,  dos quitutes regionais às comidas de terreiro. E um setor inexplorado, mas que guarda séculos de saberes transmitidos de geração em geração, é o dos quilombolas. Porém, quase tudo fica na oralidade. Agora, quem quiser experimentar ou preparar as comidas dos quilombos é só ficar ligado no YouTube ou no Instagram.

É que em setembro, estreia a Websérie “Saberes e Sabores Quilombolas”. A websérie terá cinco episódios de dez minutos. Cada um é dedicado a uma receita que carrega, além do sabor, uma história de resistência. Os registros, publicados semanalmente, nas redes sociais do projeto, buscam ser um instrumento de salvaguarda, documentação, catalogação, memória e difusão.  A produção, registrada em áudio e vídeo, traz uma abordagem inédita, no qual, o público poderá acompanhar todo processo da cultura alimentar das receitas, ficando livre para reproduzir, adaptar e recriar receitas em casa, com familiares e amigos, por exemplo.

Entre as comidas de quilombolas de Goiana está o pirão de caranguejo, muito apreciado naquela região

Tudo acontece na comunidade de Povoação de São Lourenço, Distrito de Tejucupapo, em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Goiana fica a 60 quilômetros do Recife. A produtora executiva do projeto é Crislaine Venceslau, mas ele tem como protagonista a mestra cozinheira Edjane Agostinho. Filha e neta de marisqueiras e agricultoras, ela cresceu acompanhando o preparo de pratos tradicionais do quilombo. E assumiu, com o tempo, também a militância no movimento quilombola e da pesca artesanal.

Entre as receitas do “Projeto Saberes e Sabores Quilombolas” estão a moqueca na palha, que Edjane Agostinho aprendeu com a mãe para vender nas praias. Também a moqueca seca na folha de aroeira, receita aprendida nas rodas de conversa da associação de marisqueiras. E ainda o  pirão de caranguejo, presença comum em festas comunitárias. Há o lambedor serenado de cupim e de cipó de vaqueiro, herdado da avó, que une alimentação e saberes medicinais. A série também vai abordar os alimentos de base da dieta quilombola, como macaxeira, inhame, feijão, banana e arroz.

“Cada prato é parte da minha família e da comunidade. Ao registrar nossas receitas, asseguramos que essa cultura continue viva para os mais jovens e também para os que não conhecem os quilombos”, afirma Edjane. A proposta tem como objetivo incentivar os jovens da comunidade a valorizar a gastronomia local e ampliar a divulgação da cultura quilombola. Na área, o turismo de base comunitária vem crescendo, e a comida tradicional é um dos principais atrativos para visitantes. Parte da renda obtida é dividida entre marisqueiras e famílias que se organizam coletivamente para receber o público.

Nesse sentido, a websérie também atua como ferramenta de fortalecimento econômico e social. Ao valorizar a cozinha, promove o protagonismo feminino e reconhece a importância das práticas culinárias como patrimônio cultural. A intenção é preservar saberes ameaçados pelo esquecimento, assim como  ampliar o alcance da gastronomia quilombola, colocando-a como parte essencial da história cultural brasileira. Para Crislaine , a cozinha é memória, identidade e futuro.  O projeto conta com apoio do edital de Fomento PNAB – Categoria VI (Diversidade, Cultura e Periferia), do Governo de Pernambuco e do Ministério da Cultura, Saberes e Sabores Quilombolas em Goiana cumpre um papel duplo. Tejucupapo, onde fica a população quilombola, é um local conhecido pelo protagonismo das mulheres desde o século 17, quando elas conseguiram afugentar invasores holandeses, atirando água quente com pimenta nos olhos dos estrangeiros. Para reviver a façanha histórica, elas costumam encenar anualmente um espetáculo sobre o assunto no local.

Nos links abaixo, informações sobre culinária de origem afro, gastronomia em geral e Tejucupapo.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Leah Akesename/ Divulgação

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