No Dia Internacional dos Povos Indígenas, um destaque para o livro “Os curumins contam”, uma coletânea dos saberes do povo Truká, que foi lançado em uma das edições Circuito Literário de Pernambuco. O CLIPE já marcou presença em Serra Talhada, Petrolina (Sertão), Caruaru (Agreste). E acontece agora no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, onde fica até 13 de agosto, quando a versão 2025 chega em sua etapa final.
A publicação do povo Truká foi produzida de agosto a dezembro de 2024 por estudantes do nono ano de três estabelecimentos localizados no Sertão: a Escola de Referência em Ensino Fundamental e Ensino Médio (Erefem) Indígena Capitão Dena, a Escola Estadual Indígena João Alberto Maciel e a Escola Estadual Indígena São Félix. As duas primeiras ficam na Ilha da Assunção, território indígena situado na cidade de Cabrobó. A última, na cidade de Orocó. As duas se situam na Região do São Francisco, e estão respectivamente a 586 e 624 quilômetros do Recife.

O livro foi organizado pela professora Nilmara Santos, a partir de uma iniciativa da GRE (Gerência Regional de Educação). E resgata a história do povo Truká a partir de pesquisas de campo, registros de contos narrados pelos anciões e de cânticos entoados pela comunidade. Ela destaca a construção coletiva do projeto, desenvolvido para que a meninada reconhecesse suas raízes. E que, à medida que resgatasse a sabedoria dos antepassados, fortalecesse a escrita como ferramenta de aprendizagem. Muita bacana, isso. Diz Nilmara:
“Esse é um projeto feito a muitas mãos. Falar do povo Truká é falar da ancestralidade, é reconhecer as nossas raízes. Os estudantes foram entrevistar seus anciãos, ouvir suas histórias e reescrevê-las. Passaram por uma revisão dos professores e coordenadores empenhados no projeto. Queríamos que os estudantes reconhecessem as suas raízes, a importância dos seus ancestrais, mas que também fortalecessem a escrita como ferramenta de aprendizagem”.
Uma das alunas participantes do projeto, percebeu sua importância. Para Ana Beatriz Nascimento, foram muitos os aprendizados como valorizar a histórias do seu povo. E completa: “A gente costuma aplaudir e glorificar as histórias que não são nossas, e acaba deixando de lado as coisas que acontecem no nosso território. Então, eu tive o prazer de poder enxergar isso de outra forma”
Em 2025, os povos indígenas ganharam protagonismo no CLIPE. E isso é muito bom. Entrando em sua etapa final deste ano, há destaques que podemos citar sobre sua participação. São eles: presença da ativista e comunicadora indígena Alice Pataxó, que conversou sobre território, identidade e resistência nas três primeiras etapas do circuito. Em Serra Talhada, o professor Irã Xukuru participou de uma roda de debates no estande da Secretaria Estadual de Educação, enquanto o grupo de dança da Escola Indígena Luiz Pereira Leal, localizada em Itacuruba, no Sertão, abrilhantava o palco principal. Itacuruba fica a 481 quilômetros da capital pernambucana.
Na sexta-feira (8), em Olinda, o CLIPE Recife trouxe na programação a palestra “Terra, arte e cultura indígena em movimento”, com as professoras Bartira Ferraz e Tatiana Valença, ambas do Laboratório de História Indígena (Lahbi) da Universidade Federal de Pernambuco. Para Valdemir Lisboa, gerente da Educação Escola Indígena da Secretaria Estadual de Educação e cacique do povo Pipipã, o protagonismo indígena em todas as etapas do CLIPE 2025 engrandece os povos originários do estado. Diz o gestor:
“Isso fortalece a existência, a resistência, e a presença dos povos indígenas em Pernambuco, fazendo com que ela seja conhecida em todas as regiões. A gente teve a oportunidade de participar, de estar presente, de sugerir e contribuir nas discussões e nas formatações. Isso engrandece o evento, que passa a ter um papel inclusivo, onde estão presentes todas as culturas do estado”.
O Clipe é um circuito organizado pelo Governo de Pernambuco, via Secretaria Estadual de Educação, que leva literatura, debate, história, dança e outras manifestações da cultura de Pernambuco não só para professores e estudantes da rede oficial, mas também para todo o público.
Leia também
Fulniôs ganham primeira gramática iatê
Caboclinhos e tribos indígenas fazem cortejo com 24 agremiações no Recife
Artesanato dos povos indígenas da Amazônia nas passarelas de Milão e NY
Indígenas formam brigadas contra incêndios e salvam plantios agroflorestais
Territórios indígenas começam a ter acesso à Internet
Povos tradicionais na Fiocruz: dia de toré e discussão sobre cultura e saúde
Artigo: mulheres indígenas e sua luta para mudar a história, por Patrícia Carra
Dia do pau-brasil, que os indígenas chamavam de Ibirapitanga
Longe dos caciques políticos, caciques políticos fazem coletivo para disputar mandato eletivo
Guardiões da terra: Parque Estadual de Dois irmãos tem programação com povos originários
Prefeituras excluem vulneráveis de seus planos municipais de saúde
Velório: Índios prestam comovente homenagem a Bruno
Carta de Quaresma divulgada por Frei Beto pede apoio para os Yanomami
Bia Pankararu entre as laureadas da versão 2024 do Prêmio Tacaruna Mulher
Serviço
Circuito Literário de Pernambuco (CLIPE)
Onde: Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon)
Endereço: Av. Professor Andrade Bezerra, S/N, Salgadinho, Olinda
Quando: até 13 de agosto
Horário: 9h às 21h
Quanto: entrada gratuita
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Josimar Oliveira e Demison Costa/SEE
