A dona de minha rua

Há tempo que não apareciam. Mas quando chegaram foi em grandes quantidades. E fazem um estrago. Milhares de lagartas vêm aparecendo na Região Metropolitana,  inclusive em bairros do Recife – como Macaxeira e Apipucos – e em municípios como Camaragibe, vizinho à capital. Aqui na rua,  são tantas, que fazem um barulho infernal, “moendo” as folhas de uma acácia, que fica vizinha à minha residência. A árvore comeu o pão que o diabo amassou: está pelada, desfolhada, não pode nos ofertar sua antes generosa sombra. Quem sabe, passada a praga, ela se renegera. A praga atual parece mais intensa do que a registrada três anos atrás, em 2019.

Antes frondosa, essa acácia foi totalmente desfolhada pela praga de lagartas que atingiu bairros do Recife.

Na rua, é o que vocês estão vendo, na foto acima. Em quintais e sítios vizinhos, a situação é semelhante (foto abaixo). Árvores adultas, algumas centenárias, peladas, com as folhas destruídas, exibem os galhos secos que lembram a vegetação da caatinga. Na garagem da residência, na terça-feira foram tantas que terminaram colhidas de pá. E, pior, invadem as residências sem cerimônia. Aqui, descem da acácia, sobem a calçada e passam por baixo da porta que fica ao lado da planta. Houve um dia que foram coletadas “somente” 80 que “passeavam” pela sala.

O jeito foi improvisar uma “barreira” na porta lateral de casa, onde fica a acácia, para que elas não entrassem.  Não houve outra saída para evitar a “invasão”: apelar para um cola rato, que capturava a praga logo na entrada. Foi um santo remédio, pois eram barradas antes de entrar em casa. O inseto solta uma tinta preta quando é pisoteada, emporcalhando o chão. Elas são de cor semelhante à cerâmica  do piso.

E, por esse motivo, muitas vezes passam despercebidas. Quando a gente vê, está a tinta sebosa no chão. Ruim para a árvore e para nós, humanos, as lagartas viraram uma festa para  pássaros e pequenos animais, como os saguis, que invadiram a árvore para curtir o “banquete” ofertado pela natureza. O  problema é que são tantas, que as aves e os mamíferos não dão vencimento. Aflita com o destino das árvores da rua – felizmente os pés de pau-brasil  estão a salvo – apelei para o 156 da Emlurb, que prometeu uma vistoria em prazo de 15 dias.

Preocupada com a voracidade das lagartas e vendo a hora acontecer o sumiço de árvores, plantas decorativas e das sombras, apelei – mais uma vez – para o órgão, dessa vez para uma orientação. Através da assessoria de imprensa, um agrônomo  informou que a lagarta desaparecerá “naturalmente”. Ou seja, é o “ciclo natural” do animal que está acontecendo. Ele aconselhou o uso de óleo Neem para proteger a planta.

“Mas só se for muito necessário, se a destruição for muito grande”. Fui aconselhada a pulverizar a planta uma vez por semana, à razão de uma colher de sopa por um litro de água. Porém é necessário o uso de máscara, o que mostra que o produto pode ser tóxico. Não consegui confirmar se ele é específico para a praga, preservando a vida de pequenos mamíferos e aves. Então, diante do risco de prejudicar os outros bichinhos – saguis, sabiás, canários, entre outros – que tanta festa fazem ao meu dia a dia, preferi esperar que as lagartas sumam.

Até lá… o estrago terá sido grande. O jeito é confiar na resiliência da natureza. Segundo a Emlurb, a praga vem e vai. “Está no ciclo dela, logo desaparecem”, me informaram, o que deveria ocorrer em mais ou menos quinze dias, contados a partir do início da infestação. A Emlurb estava certa. Não apelei  nem para o Neem (perdão pelo trocadilho).  Os bichos já  começaram a escassear.  Pelo menos, mesmo sem o cola rato, nenhum foi encontrado no interior da casa. E já mudou o aspecto da calçada ao lado da casa.

Ela fica abaixo da acácia  já não está com a superfície coberta com uma camada que lembra feno moído (foto acima), resultante da moagem e da voracidade dos insetos, que “trabalham” noite e dia, para nosso desespero.  Portanto, elas já devem já estar virando mariposas, borboletas… Tomara que desapareçam daqui, voando para longe, e que a natureza mostre, mais uma vez, seu poder de regeneração, como ocorreu com o último ataque de saúvas, também na mesma rua. As buganvíleas que foram destruídas já brotaram e retomaram o curso da vida.

Amém!

Leia  também
Chuva, baronesa, cupim e tanajura
Será que galinha acaba a praga?
Pandemia: Minha vida com os saguis
Minha casa é um zoológico: mas não tem um só bicho preso
Trabalho de parto: cesariana para sagui
Descarga elétrica desorienta sagui
Sérgio: Seis horas para salvar sagui
Jujuba vira remédio para os macacos
Esso vai plantar 20.000 árvores para proteger mico leão dourado
Ambientalistas preocupados: Só restam 1.300 muriquis na natureza
Macaco prego aparece em Apipucos
O lado “humano” dos macacos
Ele se parece muito conosco
Encanto e cores das libélulas
Bichos amargam solidão na pandemia e mudam comportamento no zoológico
Pandemia e natureza: Animais silvestres ocupam áreas urbanas 
Entre a pandemia e o desmatamento
Capivara assustada e ferida no mar
Capivara resgatada volta à natureza
Pandemia e a volta das capivaras
Pandemia e a “festa” dos bichos
O encanto das libélulas
O grito dos bichos no balancê da pandemia
Animais voltam à natureza na pandemia
Chuvas: Jacarés ganham ruas
Refúgio das preguiças perdidas
Dia do Bloco do Hipopótamo
Parque Dois Irmãos triplica de tamanho

Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

Continue lendo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.