“Ilumina Recife” sacrifica luminárias tradicionais e descaracteriza a cidade

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De acordo com o Prefeito João Campos (PSB), até o final deste ano o Recife estará cem por cento servido por luminárias e projetores com tecnologia LED, implantados através dos programas Ilumina Recife e Campo no Brilho. O sistema LED é mais eficiente do ponto de vista da claridade e também proporciona economia. O problema é que, ao longo do processo, luminárias padronizadas foram sendo implantadas em pontes, parques, locais históricos sem se levar em consideração a paisagem tradicional da cidade. A Ponte Duarte Coelho, por exemplo, perdeu  muito de sua beleza original com o novo modelo. É só comparar a foto antiga, abaixo, “pescada” na Internet com a recente,  feita por mim, na foto superior.

Nos últimos meses o Recife sofreu, portanto, uma série de atentados estéticos, sem que urbanistas, nem vereadores, nem consultores dessem um pio sequer sobre o assunto.  Parece que ninguém percebe… Luminárias fotogênicas como as do Cais da Jaqueira desapareceram do mapa. Elas eram iguais às do Cais da Aurora e do Cais José Estelita que, pelo que se observa, devem estar também em risco. Na Rua do Sol, abaixo, pode-se observar as luminárias mais recentes. Pouco a ver. Elas são menos feias do que as colocadas na Ponte Duarte Coelho, mas roubam a beleza do Recife do passado. Além disso estão quase todas tronchas.

Pensei que eu estivesse exagerando, na minha interpretação dessas descabidas intervenções na cidade. Mas consultei o Laboratório de Paisagismo da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), e a informação que recebi é que a mudança de um processo para outro deve incluir o respeito aos projetos originais. Ou seja, não estou errada. A cidade e sua paisagem merecem respeito. Em várias capitais do mundo, a gente vê – em viagens ou no cinema – o quanto a iluminação tradicional é preservada.

E isso mesmo com  com tecnologia moderna. “Um absurdo o que se anda fazendo das nossas luminárias tradicionais. Uma cidade que se gaba e com razão de ter o Porto Digital, já elencada por uma revista como uma das dez do mundo onde o futuro está sendo pensado, tem tecnologia mais do que suficiente para adaptar modelos históricos à iluminação de led ou mesmo solar”, afirma a leitora Luiza Cavalcanti, em mensagem ao #OxeRecife. Ela tem razão. Vejam só que coisa feia, abaixo, no Marco Zero, local muito visitado por turistas.

Fomos em busca de quem entende do assunto. Ela foi indicada por especialistas para conversar com o #OxeRecife sobre iluminação pública. Márcia Chamixaes é bambambã na área, com larga experiência profissional no setor. Ela destaca que iluminação dá identidade à paisagem de uma cidade e até integra a memória afetiva da população. Cita o caso de Roma, onde a Prefeitura decidiu trocar o modelo tradicional de iluminação sem participação popular. E lembra que na Itália a gritaria foi geral.

“O fato gerou uma celeuma, porque os romanos se ressentiram da falta da ambiência dourada”. E destaca: “A luz é identitária, as pessoas a guardam na memória e se sentem bem quando a vêm ou dela se lembram”. Com a mudança para a Led, destaca ela, as prefeituras encontraram um meio mais eficiente e econômico de iluminar suas cidades. Mas adverte:

É preciso haver pesquisa, critério. As luminárias não podem ser alvo de uma simples troca, pois a mudança deve ser fruto de estudo, de uma reflexão profunda sobre o impacto na paisagem urbana. Infelizmente as demandas do poder público são imediatistas.

Tem mais. As soluções não podem ser padronizadas como ocorre no Recife, onde praças, pontes e até locais históricos vêm sendo desfigurados em massa. Está ficando tudo igual.  Para cada local, deve haver um projeto específico. Márcia afirma que foi feito o projeto para a Ponte Princesa Isabel, que revelou-se adequado. Aí o poder público decidiu fazer tudo igual no Recife inteiro. “A cidade precisa de um plano. E a partir do plano, cada trecho tem seu projeto executivo de acordo com suas peculiaridades e com participação de todos os entes da sociedade. Há de ser feita uma pesquisa histórica, com estudo do desenho a ser desenvolvido”, diz. Exatamente o contrário do que ocorre no Recife. “No projeto executivo se desenvolve as peças com a tecnologia mais adequada e que valorize a paisagem”. E acrescenta: “A questão identitária á básica e um estudo do projeto original de iluminação tem que ser realizado de forma tão cuidadosa quanto o da  restauração de um edifício histórico. O processo é o mesmo  para se estudar a adequação”.

Entre os locais onde ocorreram mudanças para pior, na parte estética, estão o Primeiro Jardim de Boa Viagem, a Ponte Duarte Coelho, o Cais da Jaqueira, a Praça José Vilela, a Praça de Casa Forte, que é jardim histórico e até tombada. No Recife, foi montado um “laboratório de iluminação pública”, que fica na Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), que não parece mesmo estar nem aí para preservar a nossa paisagem. É lá que ocorre o processo de montagem de luminárias e projetores com tecnologia LED, que estão acabando com os equipamentos tradicionais e tão bonitos do Recife.  Ninguém diz onde as tradicionais foram parar. Leilão? Antiquários? A equipe de laboratório é responsável pela montagem de um quantitativo que varia entre 300 e 400 luminárias por dia que, infelizmente, nada preservam do modelo anterior, tão característico.

É só destruir, dar fim mesmo. Os lampiões de LED (muitos sem vidros nas laterais) são instaladas nas avenidas, ruas, travessas, escadarias, praças, parques e campos da cidade do Recife, “levando iluminação de qualidade para toda a população”, segundo a Prefeitura. Porém, em muitos casos,  violentam a paisagem da cidade. Outras luminárias parecem uma cuia de queijo do reino. O processo tinha que ser, sim, muito mais cuidadoso. Comparem as fotos do passado (a Internet está cheia delas) e vejam como algumas importantes localidades estão agora.  Muitas das luminárias retiradas, inclusive da Praça de Apipucos, onde resido, eram semelhantes às da foto abaixo.  Eram tão lindas quanto estas do  Lacma – Museu de Arte do Condado de Los Angeles. Vejam que elas viraram cartão postal do Lacma. Qualquer busca de imagem da entidade, esta abaixo é a primeira que aparece. Enquanto isso, no Recife o destino das semelhantes às do Acma é o sumiço. Simples, assim.

Até o dia 1º de dezembro já haviam sido instaladas 96.084 luminárias. No final do ano, 100% das luminárias do Recife serão do tipo LED. “Com andamento do programa, a Prefeitura do Recife informa que já economiza R$ 16 milhões anuais nos custos com a iluminação pública. Nesta etapa final, o programa tem beneficiado, especialmente, as escadarias da cidade do Recife, beneficiando populações carentes”.

Muitas dessas escadarias viviam às escuras, e nada melhor do que uma luminária a LED para combater o breu e a insegurança.  Atualmente, dos 9.046 pontos de iluminação pública localizados em áreas de escadaria, foram substituídas 6.869 luminárias por tecnologia LED, em 1.670 escadarias da cidade, totalizando 76% de pontos em escadarias com luminárias LED. Mas em praças, pontes, jardins e locais históricos, a troca deveria ser mais cuidadosa. Com critério urbanístico e paisagístico. Resta saber se o poder público reconhece o alto preço que a paisagem  da cidade paga, em nome do modernismo e da economia que – em algumas vezes – vira “a base da porcaria”, como diz o ditado popular.  Porque atentado estético é só o que a gente vê em pontes, praças, locais históricos. Sinceramente, eu penso que o Recife merece mais respeito. Mas cadê?

São intervenções como essas que, aos poucos, vão sugando o que resta de bonito na cidade, fazendo-a perder a sua identidade. O #OxeRecife inclusive já mostrou isso várias vezes. É só ler os links abaixo, para você conferir.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins / #OxeRecife e Internet (Lacma e Ponte Duarte Coelho)

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