“Novidade” na Praça de Casa Forte, que é jardim histórico e tombada pelo Iphan

“Novidade” na Praça de Casa Forte. A exemplo do que já aconteceu com outras localidades do Recife – praças, pontes, parques, jardins públicos – o mais famoso cartão postal daquele bairro da Zona Norte começou a ter a iluminação “padronizada” hoje, infelizmente sob silêncio de urbanistas, Ministério Público, arquitetos, academia e especialistas no assunto. Desde a gestão passada, que o Recife vem perdendo suas fotogênicas e tradicionais luminárias de rua por outras, mais modernas e a LED, que vêm desfigurando tradicionais logradouros da nossa cidade. No caso da Praça de Casa Forte, essa forma de intervenção é ainda mais grave, porque ela é tombada pelo Iphan. Mas não é só isso.

Praça Casa Forte, tombada pelo Iphan, começou a sofrer intervenção nas luminárias tradicionais, nessa terça.

É que a de Praça de Casa Forte é jardim histórico. E sendo tombada pelo Iphan, é um monumento nacional. Portanto, ela tem que ser mantida em suas características, com seus três jardins implantados em  1935.  Até porque a Praça é tida como o primeiro jardim público projetado por Burle Marx (1909 – 1994), que depois se transformaria em um dos mais respeitados paisagistas do mundo.   Mas no final da manhã dessa terça-feira, equipes da Emlurb estavam no local, substituindo as luminárias anteriores pelas padronizadas, que viraram uma verdadeira peste no Recife, sem que ninguém saiba o destino das que vêm indevidamente sendo retiradas. Depósito da prefeitura? Leilão? Lixeira? Antiquário? Ninguém sabe….

Mesmo tombada, Praça de Casa Forte passa por processo de padronização: Ufpe quer explicações.

Tudo bem, substituir o sistema de iluminação por um mais claro e mais econômico. Mas não há tecnologia para adaptar, sem necessidade de desfigurar nossa paisagem? Ao chegar em casa, telefonei imediatamente  para relatar o que vi à Coordenadora do Laboratório de Paisagismo da Universidade Federal de Pernambuco, Ana Rita Sá Carneiro. Pois foi graças ao esforço de sua equipe que foi disseminado o conhecimento a respeito da herança deixada no Recife por Burle Marx, que  entre 1934 e 1937 chefiou o Setor de Parques e Jardins, da Diretoria de Arquitetura e Construção (DAC) do Estado de Pernambuco, que era comandado pelo também famoso arquiteto Luiz Nunes (1909 – 1937),  quando Carlos de Lima Cavalcanti (1967 – 1892) era governador de Pernambuco.

Laboratório de Paisagismo da Ufpe diz não ter sido avisado sobre mudanças na Praça de Casa Forte.

Foi o Laboratório de Paisagismo da Ufpe que levantou todas as informações a respeito da presença de Burle Marx no Recife, o que terminou pelo reconhecimento de 15 praças como jardins históricos, seis das quais foram posteriormente tombadas pelo Iphan. E a de Casa Forte é a mais icônica delas, por ter sido a primeira do arquiteto na nossa cidade. Dizem que é o primeiro projeto de jardim público do Brasil com sua assinatura.

Ana Rita tomou um susto, quando lhe informei a “novidade”, mais uma daquelas que só fazem descaracterizar nossa paisagem, como já aconteceu no Cais da Jaqueira, na Praça de Apipucos, na Praça Rádio Jornal do Commercio,  Praça Ruy Antunes, na Praça José Vilela, no Parque Treze de Maio e até em pontes, como a Duarte Coelho. Ela ia entrar imediatamente em contato com a Secretaria de Meio Ambiente do Recife, solicitando que a iniciativa fosse sustada. “ Há um documento, um acordo firmado entre o Laboratório de Paisagem da Ufpe e a Prefeitura, segundo o qual nenhuma interferência pode ser feita nos jardins históricos e tombados sem parecer da nossa equipe”, informou a arquiteta e urbanista. Quando viajo ou vejo filmes que se passam em ruas de grandes capitais do mundo, a manutenção da iluminação tradicional das ruas me chama ainda mais atenção, diante do sumiço das nossas. No Parque Treze de Maio, onde estive recentemente, acreditem, só resta uma de ferro. Deve ter ficado lá por esquecimento….

Além da Praça de Casa Forte, Burle Marx deixou 14 outras áreas públicas que são consideradas jardins históricos no Recife:  São as praças Euclides da Cunha, Artur Oscar, Chora Menino, Maciel Pinheiro, Entrocamento, Pinto Damásio, Derby, Dezessete, Ministro Salgado Filho e Faria Neves; também a Praça da República (junto com os jardins do Palácio do Campos das Princesas). E ainda: Largo da Paz, Largo das Cinco Pontas  e Jardim da Capela da Jaqueira. Destes, seis são tombados pelo Iphan. Os 15 jardins são todos protegidos por Lei Municipal ( Lei 89.777/16).

Nos links abaixo, você confere outras informações sobre Casa Forte e também sobre outras praças do Recife,  inclusive algumas com a assinatura de Burle Marx.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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2 comentários

  1. Criticar é muito bom.
    Oferecer ajuda com sugestões o IPHAN não sabe.

    Concordo em partes na grande crítica.
    Pelo que eu vi no dia as trocas foram realizadas por motivo de segurança.

    Segundo aquelas luminárias degradas nada de histórico tem em relação a Praça de Casa Forte. Pelo conhecimento foram luminárias doadas de fim de estoque da Philips que nem eles queriam. E falar que uma luminária que já não atendia em relação ao fluxo e que a temperatura de cor era de 5700K faz parte de uma arquitetura histórica.

    As luminárias novas tem um fluxo de 3000K.

    Pelas informações foram instaladas de forma provisório enquanto um projeto está sendo elaborado.

    O projeto será encaminhado para os Doutores da Universidade Federal é pra o IPHAN analisar, criticar e quem sabe aprovar.

    1. Gostei dessa novidade de não ser projeto definitivo. Tenho conversado com pessoas da área que reclamam da “padronização” das luminárias em praças e pontes do recife.

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