Exposição “Submersos”: O Sertão vai virar mar ou o mar vai virar Sertão?

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O mar vai virar Sertão, já dizia Antônio Conselheiro. Depois, Glauber Rocha inverteu essa lógica nos versos “O Sertão vai virar mar/ E o mar vai virar Sertão”, no início dos anos 1960, no filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, durante a fase do chamado Cinema Novo. É tomando por base essas afirmativas, que o artista Sílvio Mendes Zancheti inaugura nessa terça-feira, 3/3, a exposição “Submersos”. A mostra fica em cartaz na Arte Plural Galeria até 25 de abril. A Arte Plural se situa na Rua da Moeda, no bairro do Recife Antigo.

Além dos versos de Conselheiro e de Glauber, o artista também se inspira em W.H.Auden, em estrofe cujos versos dizem o seguinte:  “O tempo são centímetros / E mudanças de alma”, evocando a percepção subjetiva do tempo a partir das experiências emocionais. “Procuro associar as imagens do Sertão à ausência do tempo e as do mar às ausências do espaço. Uma foto do sertão (ou qualquer outro lugar) é sempre uma fatia do espaço/tempo (Einstein) onde o tempo não tem sentido, pois é uma medida, e só resta o espaço. No mar, o movimento contínuo, faz quase o tempo dispensar o espaço. Essas duas situações têm profundas implicâncias com os nossos sentidos e com os significados percebidos por meio das pinturas”, explica o artista.

Submersos inaugura hoje na Galeria Arte Plural em imagens que lembram o mar e o Sertão

“O verso de W. H. Auden me sugere que quando estamos na iminência de perder um amor, o tempo pára e tenta voltar ao momento passado. Isso indica que não tenho certeza se minha pintura tenha refletido algo verdadeiro em termos “científicos”. Só sei que, refletindo sobre todo o conjunto de obras da exposição, senti que tinha pintado uma espécie de melancolia social e pessoal que expressa uma inevitabilidade face à passagem do tempo. Será que quis fazer o tempo parar? Será reflexo dos tempos em que vivo?”, indaga.

Do ponto de vista técnico, Zancheti trabalha diretamente com a materialidade da imagem digital. Suas composições são construídas a partir da manipulação dos pixels, com uso de máscaras de cor, sobreposições e diferentes processos de colorificação. Esses procedimentos aproximam a prática digital dos gestos tradicionais da pintura, reafirmando o fazer artístico como um processo de construção visual e conceitual. “Por fim, a minha opção plástica foi tratar uma imagem digital a partir de seus elementos constitutivos: os pixels. Também utilizei máscaras de cor, sobreposições e colorificação diversa. Procedimentos similares a aqueles que um pintor faria com os instrumentos tradicionais”, explica Zancheti.

A realização da exposição contou com o acompanhamento do artista Marcelo Silveira, que atuou como interlocutor crítico ao longo de um ano. Em um processo de diálogo contínuo, Silveira contribuiu para a reflexão sobre os aspectos plásticos e conceituais das obras, respeitando sua materialidade e aprofundando a interpretação visual das referências poéticas que estruturam o trabalho.

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Serviço:
Exposição: Submersos
Artista: Silvio Mendes Zancheti
Artista dialogante: Marcelo Silveira
Local: Arte Plural Galeria – Rua da Moeda, 140, Recife Antigo
Período: 3 de março a 25 de abril de 2026

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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