Samico, o “Devorador de Estrelas”

Gravurista, professor, desenhista, pintor e zen. O “zen” é por minha conta, pois era assim que eu o percebia, todas as vezes que o ouvia.  Gilvan Samico (1928- 2013) é considerado o maior xilogravurista brasileiro. Um mestre. Estive com ele algumas vezes, em seu casarão em Olinda, para entrevistá-lo. Uma figura simples e encantadora, que levava a vida sem pressa. Ao ponto se dizer que produzia uma xilogravura por ano. Não sei se isso era verdade, ou se ele mesmo contava essa face para mostrar sua eterna tranquilidade. Mas não precisava correr, para produzir em quantidade. Pronta a xilogravura, as cópias numeradas não chegavam para quem queria. E o mercado esperava ansioso pela novidade.

Samico foi o artista escolhido para marcar a inauguração da Galeria Marco Zero, na quinta-feira (25/11). O evento é só para convidados.  A mostra, com curadoria de outro bambambã na sua área, Moacir dos Anjos, festeja o fértil terreno poético de Samico com o tema Devorador de Estrelas. São mais de 60 obras do artista plástico desde a década de 1960 até suas últimas gravuras. Desde 2014, um ano após sua morte, o Recife não recebia uma exposição individual do pernambucano. Com acesso gratuito, a mostra abre para visitação do público a partir da  sexta-feira (26/11). A Galeria Marco Zero fica localizada na avenida Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem.  Para Moacir dos Anjos, é uma oportunidade do público da capital pernambucana – entre antigos admiradores e aqueles menos familiarizados com o universo do gravador –“ imergir na pluralidade de sua obra”.  Samico era um artista singular, que transitava entre o popular e o erudito, entre o real e o mágico, entre o local e o universal.

“Na constelação criativa de Gilvan Samico,  astros, seres míticos, humanos e animais orbitam com uma liberdade própria da natureza dos sonhos. E é entre o onírico e o real que o artista pernambucano constrói um universo ímpar, capaz de agregar opostos – ou melhor, utilizando as disparidades como material artístico”, lembra o curador. “O título da exposição faz referência a uma obra de Samico e enfatiza várias diretrizes do seu trabalho. Ele foi um artista que se nutriu de muitas influências, muitas informações, para construir sua obra”, completa.

E acrescenta: “Essa metáfora alude à ideia de que ele devora esses elementos e cria uma constelação, palavra que aparece nas últimas gravuras dele, própria. É uma panorâmica temporal desde a fase formativa, focada na gravura, que tenta destacar também alguns temas recorrentes na obra de Samico, como a ideia de criação, não só artística, como da vida, o mistério da existência”. Durante sua trajetória, Samico congregou essa identidade local, sem jamais deixar de dialogar com o universal. Com obras em instituições nacionais e internacionais, como o MoMa, em Nova York, ele desafiou qualquer tentativa de barreira à sua visão. Uma das maiores referências da xilogravura do Brasil, o pernambucano desenvolveu um estilo próprio, mantendo um diálogo com a cena artística do seu tempo, como nos casos do Atelier Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife e do Movimento Armorial.

“O Retorno” é uma das belíssimas obras de Samico, que a Galeria Marco Zero coloca para visitação pública.

A exposição convida os visitantes por um caminho que se inicia com uma série de gravuras que evocam a ideia de concepção e surgimento. Outras séries enfatizam ainda temas relacionados ao conflito, como A Luta dos Anjos, A Ascensão e A Queda do Anjo. O curador enfatiza que essas duas forças opostas – criação e combate – se encontram no universo de Samico, um artista que se debruçou sobre as disparidades.

“Ele bebeu da cultura popular e da erudita, da literatura de cordel e seu imaginário, dos contos latino-americanos, especialmente aqueles reunidos por Eduardo Galeano em livro. Dentro de suas gravuras, inclusive formalmente, sempre há um dualismo temático: o pecado e a pureza, o bem e o mal, por exemplo. Na obra isto também está demarcado espacialmente, a parte de cima e a de baixo, lado esquerdo e direito – são simetrias muito acentuadas. É um universo fissurado, sempre com uma narrativa, que ganha significados diferentes a partir do olhar de cada pessoa”, diz o curador.

Localizada em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, Galeria Marco Zero, faz exposição de  Samico: Imperdível

Moacir chama a atenção para a força da obra de Samico e como ela está imbricada à memória coletiva dos pernambucanos. O curador aponta que o nome dele é quase imediatamente associado às artes visuais do estado. Ao trabalhar com arquétipos e com questões que atravessam épocas, espaços e culturas, bebendo em vários mitos de criação, o artista pernambucano universaliza sua obra e a torna atemporal. Ele enxerga, também, a influência do mestre em vários artistas ao longo das décadas. “Esta é uma possibilidade de reapresentar a obra dele às pessoas. Exposições assim, em espaços de visibilidade, proporcionam outro contato com o trabalho. A ideia é mostrar esse artista incrível e inseri-lo na conversa contemporânea. As obras de Samico são narrativas plurais, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Você pode ver partes isoladas e depois o todo, entrando em contato com a narrativa de várias formas”, reforça.

Por muitos anos, lembra Moacir dos Anjos,  a obra de Samico foi apenas exibida em amostras pequenas, em território pernambucano e fora daqui. Para o curador, a exposição do mestre pernambucano “é uma oportunidade de fortalecer os vínculos do público local com um artista que é tão pernambucano quanto é universal.” A Galeria Marco Zero é comandada pelos galeristas Eduardo Suassuna e Marcelle Farias, ocupa um área de de 600m²  em três espaços expositivos. Entre os destaques do seu portofólio está a representação do espólio do pernambucano Gilvan Samico. Assim como a preservação e difusão de nomes do quilate de Abelardo da Hora, Cícero Dias, Gil Vicente, Francisco Brennand, Burle Marx, Vicente do Rego Monteiro, Tereza Costa Rêgo, Reynaldo Fonseca, Lula Cardoso Ayres, Carybé, Di Cavalcanti, Portinari, Tomie Ohtake, Abraham Palatnik, Rubem Valentim, José Cláudio e  João Câmara.

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Serviço:
Exposição “Devorador de Estrelas” – Gilvan Samico
Galeria Marco Zero – avenida Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem
Abertura: 25/11, 19h
Visitação: 26/11 a 06/02/22
De segunda a sexta, das 10h às 18h, aos sábados, das 10h às 15h
Acesso gratuito
OBS:  Apesar da Galeria Marco Zero ser privada, o evento relativo a Samico é cultural e não comercial. Ou seja, nenhum quadro estará à venda. A mostra é uma grande oportunidade para a população conhecer melhor a obra do grande e saudoso mestre.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Helder Ferrer / Divulgação / Galeria Marco Zero

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Um comentário

  1. Como não aguçar a vontade de ir dar uma espiada nessa mostra de Gilvan Samico depois de ler seu texto Letícia? Você como ninguém consegue traduzir e descortinar pra gente a alma do artista!

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