A Zé Pereira, com festa e com afeto

Foi uma festa bonita, inédita e cheia de emoção. Na noite da quarta-feira, Zé Pereira chegou pelo Rio Capibaribe, em um barco iluminado, para comemorar os seus cem anos no Recife, onde foi recepcionado por 25 bonecos, tão grandes quanto ele. Para os que não sabem: Zé Pereira é o mais antigo gigante de Pernambuco e, em traje de gala, veio acompanhado da namorada Vitalina, que é dez anos mais jovem do que o patriarca. O desembarque foi no Cais do Sertão, no Bairro do Recife, onde o casal era aguardado com frevo, foliões, confete, serpentina e canhões de papel laminado, que fizeram o casal chegar sob uma chuva luminosa. Até o Rei Momo e a Rainha do Carnaval foram reverenciar a dupla.

Zé Pereira e a namorada viajaram 486 quilômetros de estrada, saindo da terra natal, Belém de São Francisco, não sem antes uma emocionada despedida dos seus seguidores, a bordo de canoa, no Rio São Francisco. É que os dois bonecos carnavalescos jamais haviam deixado a cidade sertaneja. “A despedida foi seguida por uma multidão de moradores da cidade e de localidades vizinhas, e tinha muita gente chorando e também orgulhosa da fama de Zé Pereira e Vitalina”, conta Rodrigo Novaes, Secretário de Turismo de Pernambuco, que é sertanejo, e que fez questão de mostrar a cultura da caatinga para os foliões do Recife. Até porque, pelo menos entre os que estavam à espera de Zé Pereira, quase ninguém sabia da existência de personagem tão importante e centenário.

O desembarque do casal foi um fato inédito no carnaval do Recife, e ganhou aplausos da população. “Festa linda, cheia de emoção”, dizia a portuguesa Céu  Viegas, que veio de Porto de Galinhas (Litoral Sul de Pernambuco), para acompanhar a chegada dos dois bonecos gigantes. No catamarã, onde viajavam, cheio de luzes, havia uma orquestra de frevo. Antes do desembarque, no entanto, foi feito um “resumo” das manifestação culturais de Pernambuco, com demonstrações realizadas por caboclinhos, rei e rainha do maracatu, passistas de frevo, boi de carnaval, papangus, caiporas e até caretas. Essas duas últimas manifestações são as mais conhecidas da região agreste (Bezerros e Pesqueira, respectivamente), enquanto a última é a principal do carnaval de Triunfo. Após a calorosa recepção, Zé Pereira e Vitalina puxaram um cortejo pelas ruas do Bairro do Recife. Ao lado deles, o boneco gigante de Gumercino Pires de Carvalho, que foi o criador dos dois bonecos. Ele faleceu em 1983.

Parentes de Gumercino vieram ao Recife, para prestigiar a festa. Em Belém de São Francisco, há uma multidão de bonecos gigantes. “Zé Pereira tem cem anos, mas é muito ativo, tem um monte de filhos e, a cada ano, aparece mais um no carnaval”, diz o Secretário de Turismo, que pretende que a cerimônia de ontem seja inserida na programação do carnaval recifense, o que é uma boa. Pois foi uma festa linda. Pernambuco é assim, multicultural, diversificado. “Essa foi uma forma de homenagear e dar visibilidade à culturado Sertão, que também  possui bonito carnaval”, diz Rodrigo Novaes. “A nossa intenção é que a viagem de Zé Pereira e Vitalina aconteça todo ano, que vire tradição”, afirma. Para Novaes – cuja família é sertaneja de Floresta – há dois municípios sertanejos onde o carnaval é imperdível: Belém de São Francisco e Triunfo, onde os Caretas atraem, a cada ano, centenas de foliões do Recife e cidades vizinhas. Depois de levantar o frevo nas ruas do Recife, Zé Pereira e Vitalina voltam a Belém de São Francisco, para animar os foliões sertanejos. Veja o vídeo da festa da chegada:

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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