Cercado de espigões, terreno do Salesiano terá cinco torres: colégio, basílica e bosque serão mantidos

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Olhe bem para a fotografia acima, que tirei há alguns anos do alto de um edifício, na esquina da Rua Dom Bosco com a Avenida Manoel Borba.  Desde então, nessa paisagem só mudou a cor da Basílica do Sagrado Coração de Jesus, que  era amarela e agora tem um tom mais discreto. E quem a observa, comprimida entre tantos espigões, não imagina que, em breve, ela terá novos vizinhos: cinco torres de até 31 pavimentos.

É difícil entender, no entanto, que o templo em estilo eclético, erguido em 1916, ainda tenha ao seu redor um terreno de 50,7 mil metros quadrados, na área central da cidade, em pleno século 21, com um Recife densamente povoado e cada vez mais verticalizado.  Mas tem. E nele sobrevivem o Colégio Salesiano, o Teatro Boa Vista e um parque esportivo. Sim, o terreno possui, também, um bosque de oitizeiros centenários de até quinze metros de altura, que felizmente serão preservados. Quem garante a preservação da área verde é a Construtora Rio Ave,  que anunciou nesta semana a implantação do Projeto Raízes, que deverá ocupar 23,8 mil metros quadrados do terreno onde fica o complexo educacional, com cinco torres residenciais.

O complexo terá, ainda, um empresarial, empreendimentos comerciais e espaço para eventos. “Vamos fazer mais de 10 mil plantios, entre árvores e arbustos, e erradicações devem ocorrer,  mas na mínima quantidade possível”, garante Fabian Bezerra, Gerente Executivo de  Projetos da Rio Ave. A supressão, no entanto, não será tão “mínima” assim. Pois a área verde do terreno, hoje, é de 17.419 metros quadrados, enquanto a prevista (de solo natural) com a implantação do empreendimento é de 10.760 metros quadrados. De qualquer forma, vamos ver no que vai dar. Pior seria se derrubassem tudo, como a gente tem visto acontecer na selva de concreto que o Recife vem se transformando.

Rio Ave informa que bosque de oitizeiros centenários será preservado em sua maioria e fará 10 mil plantios

A previsão da empresa é que as torres se conectem com ambiente verde, que terá o bosque de oitizeiros, parques para primeira e segunda infância, pergolados, churrasqueira, parcão, e até equipamentos para arborismo.  Outras áreas de lazer e para atividades esportivas do condomínio, no entanto, ficarão no quinto pavimento onde haverá parque aquático gigante (1.600 metros quadrados),  quadras poliesportivas (futebol, tênis, etc).

No segundo pavimento, os condôminos terão SPA com piscina de hidromassagem e academia.  Fabian informa que o Colégio, a Basílica e o Teatro também serão preservados, o que é uma coisa boa. O que faz do Raízes “um projeto inovador”, sem muros e com “caminhos fluídos entre o público e o privado”, de acordo com a Rio Ave. Na verdade, o Raízes vai funcionar quase como um mini bairro, dentro de um outro, muito tradicional, o da Boa Vista, que no passado era uma das áreas mais aprazíveis do centro da cidade.

Projeto Raízes, da Rio Ave, na Boa Vista: obras começam em 2026, com previsão de 80 por cento concluído em 2030

“Nossa intenção é criar um novo ecossistema, de serviços e bem estar, entre a Ilha do Leite e a Boa Vista, com conexão direta para o colégio”, diz o executivo da empresa. Ou seja, quem morar no Raízes, nem trabalho de deslocamento vai ter, para levar filhos à escola. “Nenhum outro empreendimento tem isso e este valoriza o centro e retoma sua ocupação de forma planejada”, diz.

As cinco torres que integrarão o Condomínio homenagearão artistas pernambucanos consagrados e já falecidos: Samico (1928-2013) e Tereza Costa Rego (1929-2020),  nascidos no Recife; Lula Cardoso Ayres (1910-1987), Rio Formoso; Cícero Dias (1907-2003), Escada; e Abelardo da Hora (1924-2014), São Lourenço da Mata.

O terreno ocupa praticamente um quarteirão, pois fica entre quatro ruas do Bairro: Dom Bosco, Lins Petit, Rua Joaquim Inácio e Joaquim de Brito. Informa a Rio Ave que foi a  própria Inspetoria do Salesiano que procurou a construtora para uma parceria, já que a manutenção da atual estrutura estava muito dispendiosa, R$ 200 mil por mês. Com a parceria, os pontos comerciais serão explorados pela irmandade.

“Queremos reforçar aqui a longevidade do colégio, para que ele não caia como aconteceu com os outros do Recife, ao mesmo tempo que o empreendimento  vai permitir ao Salesiano se estruturar com negócios como já acontece em Salvador e Fortaleza, viabilizando obtenção de recursos para trabalho social”, afirma Victor Amadeu, Vice Presidente da Rio Ave. A previsão é que a obra seja iniciada em junho de 2026, com a primeira entrega em 2030, quando 80 por cento de todo o projeto já deve estar concluído. Alberto Ferreira da Costa (já falecido) foi aluno do Colégio Salesiano. Ele fundou a Rio Ave em 1968, e construiu o primeiro prédio em 1971.  Até o momento, a Rio Ave  já fez 51 entregas, entre eles o Alameda Brunehilde Trajano (2024) e o Alberto Ferreira Costa (2023), ambos na Zona Sul; e o Terraço Jaqueira (2024), na Zona Norte. A empresa também tem um cartão postal na Ilha do Leite, o Master Plan formado por sete torres empresariais: Charles Darwin, Alfred Nobel, Graham Bell, Isaac Newton, Albert Eistein, Thomas Edison. E ainda o Marie Curie, que está em construção. A concepção desses prédios sempre me chamou a atenção, por conta da inexistência de muros e do verde de seus jardins externos, o que representa um diferencial da norma observada nas construções do Recife.

Nesses tempos de discussão da nova  Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Recife, vamos torcer para que o empreendimento contribua para humanizar e valorizar o Bairro da Boa Vista. Porque importante é ampliar fronteiras e não limitá-las, como a gente costuma observar na maior parte das construções do Recife, cercadas de muralhas que transformam nossas ruas em verdadeiros “corredores penitenciários” (conferir nos links abaixo).

Abaixo, mais informações sobre o Bairro da Boa Vista e “corredores penitenciários”

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins (Acervo #OxeRecife), Anita Dubeux (cortesia) e  Rio Ave

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Um comentário

  1. Espero que o projeto aconteça como planejado, vai ser uma revolução urbanística, que sirva de norte para outros projetos. Temos ainda grandes áreas, com os colégios, São Luiz, Damas, Agnes…natureza agradece.

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