“O empreendimento é a negação dos conceitos implícitos no nome que carrega. Como projeto de arquitetura é um edifício enclausurado, robusto e pesado, que não dialoga com o lugar onde se insere. Não se mescla na paisagem, nem se dilui”. É como a arquiteta Lúcia Veras define o projeto do Burle Marx Open Mall, empreendimento da iniciativa privada que está para ser implantado entre os bairros de Poço da Panela e de Casa Forte, e que vem despertando polêmica entre os moradores das duas localidades.
“É indecente se colocar o nome de Burle Marx em um empreendimento como este”, diz ela. Lúcia Veras pertence ao Laboratório de Paisagismo do Curso de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, e integra a equipe que estudou as obras deixadas no Recife pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), trabalho que resultou na transformação de quinze delas em jardins históricos. Sendo que seis foram tombados pelo Iphan. E entre elels está a Praça de Casa Forte (foto abaixo), que foi o primeiro projeto de jardim público executado pelo paisagista na década de 1930. Lúcia foi uma das pessoas ouvidas na tarde de hoje, durante audiência pública virtual, promovida pela Câmara Municipal do Recife, a pedido do Grupo Amo Poço Forte, criado para discutir o projeto que, segundo os moradores foi imposto sem que a comunidade fosse ouvida.

A audiência foi conduzida pelo vereador Ivan Moraes (PSOL). “Da forma como o projeto está colocado, fere a relação tipológica com o Poço da Panela e está no entorno de um bem nacionalmente tombado que é a Praça de Casa Forte”, critica Natália Vieira, do Laboratório de Urbanismo e Patrimônio Cultural da UFPE . Ela reclama da fragilidade da legislação, que permite aceitar como “reforma” um projeto que na verdade é uma construção nova. A “reforma” permitiria que o prédio tivesse um gabarito de 15 metros, que seria limitado a 8,50m no caso de uma construção nova que, segundo os o Amo Poço Forte é o que vai realmente acontecer.
Mas de acordo com Lili Suassuna, representante da Prefeitura no encontro, “o projeto já foi aprovado, porque o órgão concluiu que ele é bom para o lugar”. Mas não é assim que os moradores de Casa Forte e Poço da Panela enxergam o empreendimento. O Presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Antônio Campos, afirmou que vai procurar a família do paisagista e arquiteto para dar notícia da “anti-homenagem”. Para ele, a obra agride a Praça de Casa Forte e a área onde a Fundação Joaquim Nabuco (em processo de tombamento), estão inseridos. Também representando a Prefeitura, Taciana Sotto-Mayor afirmou que o projeto cumpriu todos os rituais burocráticos exigidos pelo município, passou mais de um ano sendo discutido e que já está aprovado. Ela negou que os moradores tenham solicitado reuniões para discutir o assunto. Mas foi contestada por Eduardo Maia. “Enviamos vários e-mails, não eu só como vários moradores. A mobilização foi feita com antecedência”, disse ele. Taciana ratificou que já foi tudo aprovado. “Mas estamos aqui para aceitar propostas para novos empreendimentos”.
Morador da Rua Marquês de Paranaguá há 40 anos, o astrólogo Eduardo Maia afirma que a comunidade não foi consultada e que ele esgotou todos os recursos junto à Prefeitura para discussão do projeto, motivo pelo qual a reunião só ocorreu hoje. Ela havia sido anteriormente agendada com a vereadora Liana Cirne (PT), mas o encontro foi cancelado sem novo agendamento. “O que a gente quer é a anulação do projeto e o cancelamento do protocolo, pois aquilo não é reforma”. Ele o outro morador, Ricardo Bandeira de Melo, consideram a homenagem a Burle Marx “absurda e descabida”, Para a arquiteta e urbanista Bárbara Kreusig, o projeto “só beneficia o poder econômico”. A Deputada Carol Vigulino, do Coletivo Juntas, afirmou que o Poço da Panela não precisa de shopping-center. “Já tem um (Plaza Shopping) a menos de um quilômetro de distância e esse projeto passa longe das necessidades da população”. O caso já está no Ministério Público. Ivan Morais encerrou o encontro, se comprometendo a lutar por legislação que imprima maior fiscalização por parte da Prefeitura e a lutar pela revisão do processo sobre o caso.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Coletivo Amo Poço Forte

Um empreendimento maravilhoso dessa estirpe, que geraria emprego e renda para o povo carente do Recife, além de fomentar o turismo naquela região, não é mesmo coisa para mentes botocudas.