Não sou arquiteta, mas gosto de admirar a arquitetura. Não só a beleza, mas também aquilo que, ao meu ver, parecem acertos em construções. E, também, os aparentes problemas e defeitos. Um exemplo para lembrar o primeiro caso. 1- Fui visitar uma amiga que mora em prédio do final dos anos 1960, e ao me mostrar o apartamento, supus que o seu quarto, no poente, devia ser um “forno”. Curiosamente, não era. Mesmo à tarde, o cômodo era tão ventilado, mas tão ventilado, que não parecia estar de frente para o sol causticante do horário em que lá estive. 2- Chamam minha atenção as varandas dos edifícios recentes, nas quais uma rede, depois de armada, mais parece um “U”, impedindo o morador de ter um descanso com conforto. E muitas dessas varandas são tão mal localizadas, que não recebem a brisa recifense. Ou seja, parecem estufas.
Por que lembro esses fatos? Porque está saindo do forno e sendo lançado nesta semana o livro Wandenkolk, que narra a trajetória do arquiteto Waldenkolk Valter Tinoco (1936-2021), e que deveria funcionar como uma Bíblia para as novas gerações de arquitetos, principalmente nesses tempos de aquecimento global e de crescente selva de concreto ao nosso redor. Resultante de pesquisa e coordenação editorial de Betania Brendle, “Wandenkolk” foi escrito em parceria com o arquiteto Fernando Diniz Moreira. E terá dois lançamentos no Recife. O primeiro, na terça-feira (18/11), às 19h, na Academia Pernambucana de Letras, nas Graças, Zona Norte do Recife. O segundo ocorre na sexta-feira (21), às 19h30, na CasaCor, no bairro do Recife. A publicação é uma iniciativa mais do que acertada da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). E que o exemplo do arquiteto de saudosa memória sirva de inspiração para estudantes e profissionais mais jovens do setor.
É importante ver o que destaca Betânia Brendle, sobre pioneirismo e a herança do arquiteto:
“Na década de 1960 a transição da casa térrea para o edifício de apartamento residencial em altura se intensifica e ocorre uma mudança estrutural no modo de habitar da população, acostumada aos jardins e quintais das casas recifenses. A Arquitetura Moderna vai ser a linguagem estrutural dessa nova maneira de habitar coletivamente. Os primeiros edifícios residenciais em altura de Wandenkolk já expressam essa mudança e vão ser estruturados a partir de um rígido zoneamento funcional e do atendimento aos requisitos climáticos, ao tratar cada fachada de acordo com a incidência do sol, dos ventos e da brisa marítima. Wandenkolk reafirma a sua já consolidada sensibilidade e comprometimento com a verdade dos materiais e com a clareza construtiva”.
E acrescenta: “Desde muito jovem amante da natureza, ele orientou seus projetos para captar o sol da manhã, os ventos, as brisas e a sombra da vegetação tropical do Nordeste. Sua resiliência, autoconsciência e domínio da arquitetura como disciplina lhe permitiram lidar de forma eficaz com os desafios e a pressão do mercado de trabalho e dar evasão a sua fascinante e sensual inquietação plástica, que mais que artifícios superficiais de composição, eram princípios de sua arquitetura”.

Betânia lembra como o patrimônio arquitetônico moderno do Recife tem sido destruído ou desfigurado. Logo o livro surge como instrumento de preservação da memória desse patrimônio através do registro da obra arquitetônica de um dos protagonistas referenciais da geração de 1960. “Desejamos também inspirar outros estudiosos a registar a obra de Heitor Maia Neto, Vital Pessoa de Melo, Armando Holanda Cavalcanti, entre tantos outros representantes da Arquitetura Moderna pernambucana”, diz.
Arquiteto, professor e amante da natureza, o profissional imprimiu sua marca em edifícios que se destacam na paisagem do Recife. Os projetos mais significativos constam do título. Entre estes: o Villa Marianna, em Parnamirim ( que exibe “jardins e jardineiras lineares” na fachada principal, com a proposta de aumentar o sombreamento, melhorar a ventilação e criar proteção contra a chuva). Ele é também um dos pioneiros em prédios altos modernos na Avenida Boa Viagem, como o San Remo, o Queen Mary e o Bretanha, nos anos 1960. Também aborda o projeto original do prédio da Federação de Indústrias de Pernambuco (Fiepe, depois modificado), ainda a casa do arquiteto, na localidade de Aldeia que, segundo os autores exprime a simbiose entre homem, arquitetura e natureza.

O livro tem doze capítulos, assinados pela própria Betânia Brendle, Hugo Segawa, Aristóteles de Siqueira Campos Cantalice, Fernando Diniz Moreira, Ênio Lepovítera e Luiz Amorim, Ana Beatriz Lima e Patrícia Ataíde, Ronaldo L’ Amour, Natália Miranda Vieira de Araújo e Islena Melo de Carvalho Dias. E traz depoimentos de outros profissionais e acadêmicos do setor: Ana Rita Sá Caneiro, Bruno Firmino, Carlos Fernando Pontual, Leonardo Allouchie, Marco Antônio Borsoi, Moisés Andrade, Nazaré Reis, Oscar Uchoa, Pablo Patriota e Tota Maia.
Nos links abaixo, mais informações sobre arquitetura moderna no Recife.
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Serviço
O que: Lançamento de “Wandenkolk”
Onde: Academia Pernambucana de Letras
Quando: 18/11 (terça-feira), com homenagem dos filhos do arquiteto e exibição do vídeo-documentário Wandenkolk, de Bruno Firmino
Hora: 19h
Endereço: Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças, Zona Norte do Recife
O que: Lançamento de Wandenkolk
Onde: Casa Cor
Quando: 21/11 (sexta-feira)
Hora: 19h30
Onde: Avenida Rio Branco, 162, Bairro do Recife, Centro
Preço do livro: R$ 200 (capa dura) e R$ 150 (brochura)
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Betânia Brendle, Fritz Simons, Henrique Santos
