Prefeito: Lei de ocupação de solo atende às “necessidades atuais” da Capital

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Criticada por arquitetos e urbanistas, e aprovada pela Câmara Municipal quando o debate ainda não havia sido totalmente esgotado, a nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) do Recife, foi sancionada nessa sexta-feira (3/9) pelo Prefeito João Campos. Ele afirma que a nova legislação “moderniza normas de 1996, 1997 e da chamada Lei dos 12 bairros, alinhando o crescimento urbano às diretrizes do Plano Diretor e às necessidades atuais da capital”. A ação e o discurso ocorrem em uma semana permeada de críticas à nova LPUOS e aos riscos que ela traz para a cidade, incluindo os ambientais.

Para boa parte da sociedade, a LPUOS representa um retrocesso em relação às conquistas da chamada Lei dos 12 bairros a qual, segundo eles, deveriam ser ampliada e não mutilada. Acham que a nova legislação violenta o patrimônio paisagístico e verde da cidade, não protege o histórico como deveria,  aumenta a possibilidade de alagamentos e pode piorar a qualidade de vida da população. Dizem, também, que o “céu é o limite” para o avanço de espigões em áreas onde antes eles não eram permitidos.

“Hoje é dia de sancionar a lei LPUOS, que vai permitir o crescimento ordenado do Recife. A nova lei incentiva a moradia no centro, especialmente habitações de interesse social, com bônus construtivos em outras áreas da cidade. Também vamos ampliar o Minha Casa Minha Vida com terrenos aptos para moradias de todas as faixas e apostar em uma cidade-parque, como o Parque das Graças, transformando áreas à beira dos rios em espaços públicos e de lazer. Queremos uma cidade pensada para as pessoas, com calçadas mais largas, menos muros, mais segurança urbana e preservação do patrimônio histórico, afirma o prefeito João Campos.

Centro do Recife, com muito concreto e pouco verde, pode ser beneficiado com a LPUOS segundo a Prefeitura

Para a Prefeitura, entre os principais avanços da LPUOS está o incentivo à construção de moradias no centro (foto acima), garantindo bônus construtivos em outras regiões da cidade para quem investir em habitação na área central, medida que busca atrair novos empreendimentos e trazer famílias de volta para a região. Será que o centro, tão degradado e abandonado como está, vai atrair novos moradores? Só o tempo o dirá. Segundo o Prefeito, a A LPUOS busca reverter a perda populacional do centro do Recife, que teve redução de quase 42 mil moradores nos últimos dez anos, segundo o Censo 2022.

“Com novas regras de adensamento e incentivos, a expectativa é viabilizar até 50 mil novas moradias em cinco anos, priorizando habitação de interesse social e estimulando o uso misto de prédios, com comércio no térreo e residências nos andares superiores”.  De acordo ainda com a PRC, a LPUOS “fortalece o programa Minha Casa Minha Vida ao ampliar terrenos aptos a diferentes faixas de renda”. Garante, ainda, que foi triplicada a quantidade de áreas de preservação histórica, que passam de cinco quilômetros quadrados para 17 quilômetros quadrados, com a criação de novas Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural (ZEPH), agora somando 47 áreas reconhecidas. Porém dispositivos das leis anteriores foram afrouxados, o que implica que as novas “garantias” não são tão seguras quanto se apregoa.

“Com a lei recém sancionada, nós, recifenses, assistimos declínios ambientais e paisagísticos. Esses serão os legados para presentes e futuras gerações, apesar da vedação ao retrocesso ambiental e cultural, consolidado na doutrina e na jurisprudência pátria” (Norma Lacerda, urbanista).

A Prefeitura alega que “espaços simbólicos como o Morro da Conceição e os postos salva-vidas Art Déco de Boa Viagem passam a ter proteção legal reforçada”. Lembra que foram criadas 16 novas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), “garantindo moradia digna e direito de permanência para famílias de baixa renda em regiões centrais bem servidas por transporte e infraestrutura”. Vamos ver se essa garantia é para valer mesmo…

“A nova lei Lei de uso, ocupação e parcelamento de solo da gestão João Campos extingue a antiga legislação (Lei dos 12 bairros). Faz isso expressamente no artigo 202 do projeto aprovado (e agora sancionado). Põe fim a um ordenamento urbano conquistado com muita luta por movimentos sociais e pelo campo popular e progressista da cidade. Mas evidentemente não o faz afirmando isso. Foi construída toda uma narrativa diferente para justificar a nova LPUOS….    …a atual gestão “vendeu” a ideia de que a Lei dos 12 bairros era elitista e que seria preciso um regramento que levasse em conta toda a cidade” . (Pedro Alcântara, Doutor em Ciências Sociais e Vice-Presidente do Diretório Regional do PT)

Nos links abaixo, mais informações sobre essa discussão.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins (#OxeRecife) e Hélia Scheppa (PCR)

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2 comentários

  1. Não sou especialista, ou tenho conhecimento suficiente para dar meu parecer, mas, não encontrei nenhum urbanista ou ambientalista, falar bem dessa nova lei. Pela rapidez como ela foi aprovada sem a devida e merecida discussão, boa coisa não vem por aí.

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