Mais três arboricídios, na Zona Norte do Recife. Encontrei três toquinhos em uma calçada na Rua Anauro Dornelas Câmara, localizada nas proximidades do Açude de Apipucos. É uma via que tem um lado naturalmente arborizado, por árvores nativas que restam da Mata Atlântica, que ficam no entorno daquele espelho d’ água, um dos principais cartões postais daquele bairro.
A rua, praticamente frequentada só por moradores, margeia um trecho do Açude. Não consegui me informar a respeito do responsável pelos cortes, pela ação da motosserra insana. Infelizmente um dos mais bucólicos bairros da cidade vem, também, perdendo muita vegetação. Recentemente noticiamos aqui sete degolas em uma das margens do Açude. Não houve reposição.

Além de perder árvores, o Açude ainda enfrenta poluição, por conta de detritos que lhe são atirados e pelo despejo de esgotos. Infelizmente. De acordo com moradores mais antigos do bairro, as espécies de árvores antes encontradas no entorno do Açude, estavam ingás, ipês (brancos e amarelos), pata-de-vaca, mangueiras, abiu, algumas espécies de palmeiras. Posteriormente, foram plantadas acácias na calçada, defronte do Parque de Apipucos.
“O ingá, aliás, está cada dia mais raro. Conhecido por gostar de terras úmidas às margens de rios, eu só conheço um aqui por essas bandas da Zona Norte da nossa cidade. Ele fica em área pública, exatamente em uma das margens do Rio Capibaribe. Porém a sua copa imensa está quase toda em um terreno privado, à Rua Luiz Guimarães, no Poço da Panela”.
Procurei bibliografia sobre a flora em volta do Açude de Apipucos. No entanto, é muito limitada. O livro “Açude de Apipucos – História e Ecologia” (de Kleber de Burgos e Edinaldo Arantes) fala da fauna e flora, mas nesse caso não faz referência a árvores de grande porte, mas sim às plantas macrófitas aquáticas existentes no local (aguapé ou baronesa, alface-d’água, baquiária ou capim angola, chapéu-de-sapo, lentilhas-d’água, orelha-de-rato). Convém, no entanto, lembrar que aquela publicação data de 2009 e que, ao longo de 16 anos, a situação pode já não ser mais a mesma.
De acordo com moradores mais antigos, plantas e animais antes ali observados desapareceram, incluindo mamíferos, como capivaras, hoje cada vez mais raras. Aves como a galinha-d’água-azul, o carcará, o sanhaçu, o frei-vicente e a marreca-irerê estão cada dia mais difíceis de se ver. Os pescadores que diariamente frequentam o Açude reclamam que já não conseguem capturar traíras e mussuns como no passado, e ultimamente só acham tilápias (que é uma espécie que resiste à poluição de materiais orgânicos).

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
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