Para o resto do Brasil, o carnaval do Grande Recife é o palco do Marco Zero, O Galo da Madrugada, o Homem da Meia Noite. Provavelmente tem quem ache, também, que o carnaval de Salvador é apenas uma festa excludente, com trios elétricos, abadás, cordões de isolamento, com folião pagando caro, para se divertir. Afinal, são esses aspectos que são explorados todos os anos pelos grandes meios de comunicação que “capricham” na repetição das coberturas. Da Bahia, todas as Tvs mostram só os trios elétricos e seus convidados especiais. Como se a festa – tanto em Pernambuco quanto na Bahia – não fosse muito maior do que isso, uma verdadeira explosão cultural.
Dois eventos, no entanto, tentam resgatar ou, pelo menos, divulgar outras manifestações que ocorrem nas capitais e, principalmente, no interior. No Recife, me refiro ao Bora Pernambucar, que não só resgatou a história de Zé Pereira e Vitalina – os bonecos gigantes mais “idosos” do Estado – como de manifestações muitas vezes desconhecidas da população da capital, como os tabaqueiros, os papangus, os caiporas, os caretas. Basta dizer que Zé Pereira tem “somente” 101 anos, e nós nunca havíamos ouvido falar dele. Precisou sair de sua cidade (Belém do São Francisco), viajar 486 quilômetros até o Recife, comemorar o centenário para, enfim, ganhar sua merecida fama em 2019. Em 2020, ele veio de novo.

Em Salvador, há também um evento, o Fuzuê, que tem esse sentido de resgate, uma espécie de “reserva cultural”, e que é organizado pela Prefeitura de Salvador. Só que ao contrário do nosso Bora Pernambucar (promovido pelo Governo do Estado), o Fuzuê não se limita a um espaço pequeno. Se o evento pernambucano ocupou o hall do Museu Cais do Sertão, o Fuzuê toma as ruas de Salvador, no sábado que antecede o carnaval. A estimativa é que 800 mil pessoas tenham comparecido ao circuito Orlando Tapajós (entre Ondina e a Barra) para assistir o desfile ou seguir agremiações que fazem o lado realmente popular da festa na Bahia. Foram dezessete grupos que se apresentaram. É uma forma de resistir ao poder econômico dos trios elétricos, hoje transformados em grandes empresas, pouco preocupadas em manter as raízes culturais da festa. Afinal, trio elétrico é dinheiro, mufufa.
Só de ver as fotografias e vídeos que meu amigo Fernando Batista me enviou, no último sábado, já deu vontade de ir a Salvador, ver este outro lado da festa, em 2021. Pois eu sempre tive uma certa resistência ao carnaval da Bahia, justamente porque não via o seu lado democrático e sim, o excludente, no qual o folião paga caro por um abadá, para seguir o bloco que preferir. Quem pula do lado de fora dos cordões, tem até um nomezinho prejorativo: P-I-P-O-C-A. Pesquisando sobre o Fuzuê, na Internet, uma frase me chamou a atenção. Dita por Fred Dantas, da Oficina de Frevos e Dobrados (ver vídeo), instituição que luta para manter o som carnavalesco das bandas filarmônicas em Salvador. “O Fuzuê é uma reserva cultural” do carnaval. Para ele, “o poder econômico e a hegemonia matam” a festa. Nesta semana, mostrarei alguns dos grupos que são “engolidos” pelo marketing dos trios e pela omissão nas coberturas das grandes redes de TV na Bahia.
Hoje, a gente começa mostrando o desfile com os músicos da Oficina de Frevos e Dobrados, que atua há mais de trinta anos em Salvador:
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeos: Fernando Batista / Cortesia
