Se tem um inseto que muito alimenta o imaginário popular, esse inseto é a joaninha. Aquele besourinho colorido, com bolinhas pretas nas asas, que inspira também muitas fantasias durante o carnaval. O mais famoso é o vermelho e é o que ilustra a maioria de livros infantis que falam no bichinho. E as publicações não são poucas: Livro da Joaninha, Joaninha sem bolinha, Uma joaninha diferente, A Joaninha que perdeu as pintinhas, A descoberta de uma joaninha. Em algumas culturas, a Joaninha é ligada a superstições segundo as quais traria dinheiro para quem dela se aproxima. O que pouca gente sabe é que a joaninha desempenha importante papel na agricultura, atuando no controle biológico de pragas, como os pulgões, que atacam hortaliças.
A primeira vez que ouvi falar na joaninha como arma no controle biológico foi no início desse século, quando foram desenvolvidos estudos para usar o inseto no combate à cochonilha, que teria sido introduzida de forma equivocada no Nordeste brasileiro. A cochonilha é produzida no México, para obtenção do corante carmim, muito utilizado na indústria têxtil e de remédios. O problema é que o inseto se alimenta da seiva da palma, cactácea muito comum no Sertão, e que durante as secas serve como alternativa de alimento para o gado. E aí, ao invés de se tornar alternativa econômica para produção do corante, a cochonilha virou um problemão no Semi-Árido. Então, após vários estudos, descobriu-se que a joaninha atuava contra a praga devorando as cochonilhas. O problema é que ela não foi produzida em quantidade suficiente para debelar a praga.

Nesta semana, o Instituto Biológico – da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo – trouxe as joaninhas de volta à cena, tratando-as como “besouros do bem”. Diz o comunicado: “As joaninhas são besouros bem pequenininhos, mas que exercem um grande trabalho para os agricultores”. Em hortas, por exemplo, elas podem controlar os pulgões, uma praga muito comum em hortaliças como alface e couve, que muitas vezes chegam impregnados de venenos à nossa mesa.
O Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo é referência nacional no chamado controle biológico. E explica que os besourinhos podem ajudar na produção de hortaliças em casa ou em grandes áreas. A pesquisadora do IB, Terezinha Monteiro dos Santos Cividanes, explica que nas fases de larva e adulta, as joaninhas predam os pulgões. Uma larva ou adulto de joaninha chega a predar até 200 pulgões por dia, controlando com sucesso essa praga. “Esse é um trabalho muito importante para os produtores, que ao manter em suas plantações um ambiente adequado, conseguem preservar e até mesmo aumentar a população dessas joaninhas e produzir hortaliças sem a necessidade de aplicar produtos químicos”, diz.

Infelizmente, no entanto, não existem biofábricas no Brasil que produzam joaninhas para comercialização em grandes quantidades,cabendo aos agricultores criar condições para que o besourinho possa nascer, crescer e viver para cumprir seu papel na natureza. Assim, o produtor que quiser fazer uso desses besouros na lavoura, deve deixar o local atrativo para a presença das joaninhas, realizando o chamado controle biológico conservativo. Dizem que elas são atraídas por plantas de cores fortes. “As joaninhas são muito frágeis aos defensivos agrícolas, por isso, eles não devem ser usados para que elas não morram. Além disso, os produtores precisam manter próximos a área de cultivo plantas com intenso florescimento, pois joaninhas adultas alimentam-se de pequenas porções de pólen e néctar, principalmente quando o seu alimento preferencial, os pulgões, são escassos”, explica.
Outro ponto importante é que os produtores conheçam as joaninhas em todas as suas fases, desde os ovos, até os besouros adultos. “Muitas vezes, por desconhecimento de todas essas fases, o produtor acaba matando as larvas ou ovos de joaninhas, porque acha que eles seriam de uma praga, quando na verdade, eles podem ser a solução para os problemas da plantação”, afirma. Uma joaninha chega a botar entre 150 a 200 ovos por postura. A importância do inseto no controle biológico de pragas já vem repassada para estudantes da rede pública em São Paulo, principalmente os da área rural. E controle biológico é tudo de bom. Pois consiste no uso de inimigos naturais para diminuir a população de uma praga. Resumidamente, pode ser definido como natureza controlando natureza. Os agentes de controle biológico agem em um alvo específico, não deixam resíduos nos alimentos, são seguros para o trabalhador rural, protegem a biodiversidade e preservam os polinizadores.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação / IB – SP e Acervo #OxeRecife
