Como caminho diariamente – fazendo roteiros que variam da parte plana aos morros do Recife – é muito fácil, para mim, identificar as áreas mais limpas e as mais sujas da cidade. E quando falo nisso, me refiro simplesmente à forma organizada como os moradores se preparam para a coleta, evitando lixo espalhado pelas calçadas e até pelo asfalto.
Em bairros mais sofisticados – Apipucos, Casa Forte, Monteiro, Boa Viagem – não é difícil ver monturos de detritos nas ruas. Pior: tem gente que nem coloca o lixo dentro de um saco ou depósito. A Avenida Dezessete de Agosto, por exemplo, virou um “primor”. Como há muitas casas de recepções e condomínios é comum observar-se montanhas de detritos nas calçadas: restos de comida, garrafas, caixas de papelão, latas, tudo espalhado. Como ninguém faz o método seletivo e tem quem não espere o dia da coleta para ocupar as calçadas, animais, catadores e outros espalham tudo.

Em Boa Viagem, tem os ambulantes porcalhões que, ao invés de juntar o lixo em depósitos, jogam tudo na areia. Entre a barraca e o muro que separa a praia do calçadão. Agora tem há áreas, nos altos do Recife que, sinceramente, eu tiraria o chapéu. São o Alto Santa Isabel e o Alto do Mandu (à esquerda) Estive caminhando várias vezes por esses dois altos, ambos no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife.
E, todas as vezes que passo nos dois altos, as ruas estão limpas, o lixo fica acondicionado em depósitos e são poucos os casos de detritos espalhados no asfalto. E a limpeza não é propriamente uma característica do populoso bairro de Casa Amarela. É só passar pelo pátio da feira e no entorno do Mercado, para se observar que na parte baixa a sujeira impera. Até porque tem muito barraqueiro que joga de tudo no chão: casca de banana, vargens do feijão debulhado, casca de abacaxi, vísceras, tudo que se puder imaginar.
Lá em cima, vi um gari trabalhando na coleta e indaguei se o alto era mais limpo do que a parte baixa do bairro ou se era impressão minha. “Não, moça, o povo daqui de cima é mais organizado mesmo. O de lá de baixo é pior”, responde o gari. No escritório da Autarquia de Manutenção e Limpeza do Recife (Emlurb) na Avenida Dezessete de Agosto, a resposta é a mesma. É que nos dois altos “os moradores são mais civilizados”.

No Alto do Mandu encontrei um Jardim do Éden, um pequeno plantio em uma calçada, que foi a forma como os moradores conseguiram evitar que o local continuasse servindo como ponto de descarte irregular. Agora os moradores se encarregam de regar as plantas, havendo as decorativas e as ervas medicinais. Eles dizem que, com a iniciativa, a sujeira caiu mais de 90 por cento na Rua Visgueiro.
Do mesmo jeito que devia “apertar” os porcalhões – notificando e multando aqueles que sujam as áreas públicas — bem que a Prefeitura podia estimular a população com concursos de limpeza, a exemplo do que ocorre no Natal e no São João, para aqueles que melhor decoram as suas ruas. Ganharia um prêmio – desconto no Iptu, recapeamento, restauração de calçadas, etc – aquelas ruas que fosse consideradas as mais limpas da cidade.
Leia também:
O “oásis” no deserto de concreto
Vasco: Meu bairro eu também limpo
O Recife e os porcos urbanos
O porco bicho e o humano porco
E o pedestre como é que fica?
Lixo nas Graças
Ecoponto: tudo junto e misturado
Tião do “Limpa Brasil”: bela história
Pet vira barreira para reter lixo
Lixo plástico vira cinema nas escolas
Lutando com flores contra o lixo
Do lixo ao luxo no Baile dos Artistas
Mustardinha: ecobarreira vai a São Paulo e Paraguai
Presépios com lixo tecnológico
Não jogue eletrônicoa no Capibaribe
Cineclubes: a conexão Brasil – Alemanha
Apipucos tem Movimenta Cineclubes: mudanças climáticas em discussão
Bairros ganham Movimenta Cineclubes
Cineasta luta pela sede da Aurora Filmes
Cinema vai à escola e praça em Tabira
Cinema, rio e bicicleta em discussão
Esplendor e o cinema para cegos
Açude de Apipucos: toneladas de lixo
Metralhas poluem Apipucos
Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
